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"Quando um português voa, voam todos"
Opinião Desporto 4 min. 02.08.2021
Olimpíadas de sofá

"Quando um português voa, voam todos"

Olimpíadas de sofá

"Quando um português voa, voam todos"

Foto: AFP
Opinião Desporto 4 min. 02.08.2021
Olimpíadas de sofá

"Quando um português voa, voam todos"

Luís Pedro Cabral
Luís Pedro Cabral
Na maravilhosa ressaca do triplo salto, o grande recorde do 11º dia dos olímpicos foi mesmo o de pluviosidade. Provas adiadas, provas canceladas. Antes da tempestade, houve outra, que envolveu uma atleta portuguesa nos 1500 metros.

A prova olímpica do triplo salto feminino ficou desde logo impressa na nossa memória colectiva como um dos momentos altíssimos e, já agora, longuíssimos, destas Olimpíadas de Tóquio. Três atletas voadoras bateram recordes atrás de recordes. Tal como elas, as imagens voaram pelo mundo, tendo de cenário as cores das suas bandeiras que, por estranho fenómeno de osmose olímpica, se uniram numa só. Durante a prova, por razões de lógica afectiva, as nossas atenções estavam absolutamente concentradas no verde de Patrícia Mamona, que estava num daqueles dias e fez uma prova memorável, batendo dois recordes nacionais, ultrapassando por um centímetro os 15 metros, que é a barreira que separa os super-atletas dos extraterrestres. 

Exatamente por isso, que dizer de Yulimar Andrea Rojas Rodríguez, que conquistou para a Venezuela a primeira medalha de ouro da sua história olímpica, estabelecendo não menos que um novo recorde mundial: 15,65 metros. A medalha de prata, já se sabe, foi para Patrícia Mbengani Bravo Mamona, de ascendência angolana, que não conseguiu conter-se após o seu último salto, saltando dela todas as emoções. O mesmo acontecendo com Ana Peleteiro Brión, que ontem estabeleceu um novo recorde de Espanha (14,87m), que tem sangue cubano, sendo espanhola de nacionalidade e galega por todas as razões e mais alguma. E, de certo modo, portuguesa também, pois é a namorada de Nelson Évora, campeão olímpico do triplo salto nos JO de Pequim, em 2008, que amanhã vai de novo tentar saltar para as medalhas. Sobre o prova de amanhã, Évora disse o seguinte: "Quando um português voa, todos voam".

O trio do pódium tinha igualmente muitas afinidades, como num guião de uma telenovela olímpica, que envolve superação, amor, pitadas de drama e medalhas, com a realidade a sobrepor-se à ficção. Para começar, as duas atletas que ladeavam Patrícia Mamona no lugar mais alto do olimpismo, têm em comum o treinador, que é cubano, estava equipado com as cores da Venuezela e que secretamente também torcia por Espanha: Iván Pedroso, também ele campeão olímpico no salto em comprimento nos JO de Sidney, em 2000, que em Tóquio alcançou o feito de orientar o ouro e o bronze na mesma final.

Ontem foi o calor - insuportável, dizem -, hoje foi a chuva torrencial a visitar a cidade de Tóquio, adiando provas, cancelando outras. De longe as condições ideais para a prova do lançamento do disco, na qual participava Liliana Cá. Aparentemente, a chuva não afectou a norte-americana Valarie Allman, que ao primeiro lançamento deixou praticamente resolvida a questão do ouro: 68,89 metros. 


TOPSHOT - Volunteers clean the court during the women's preliminary round group B basketball match between France and Japan during the Tokyo 2020 Olympic Games at the Saitama Super Arena in Saitama on July 27, 2021. (Photo by Brian SNYDER / POOL / AFP)
Olimpíadas de sofá
O diário dos atletas portugueses e luxemburgueses nos Jogos Olímpicos no Japão.

Para se aquilatar desta registo verdadeiramente estratosférico, basta este dado: nesta ronda (a primeira), Liliana Cá alcançou a quinta melhor marca: 62,53 metros. Cá melhorou na segunda tentativa, conseguindo 63,93 metros, subindo para o terceiro lugar da geral, caindo depois para quarto, caindo a seguir, por causa da chuva, que não dava tréguas. A organização decidiu interromper a final do lançamento do disco (e não só), que retomou duas horas depois, sem boas notícias: Liliana Cá ficaria em 5º, trazendo na bagagem um diploma olímpico.

Por causa da tempestade em Tóquio, a final da vela, classe 49er, na qual participa a dupla portuguesa José Lima e José Costa (sextos na clissificação geral), em plena luta pelas medalhas, foi adiada para amanhã. Na canoagem, cujas eliminatórias se realizaram mais cedo, Fernando Pimenta, em K1 1000, despachou o assunto classificando-se para as meias-finais com uma vitória. Teresa Portela, em k1 200, foi segunda na sua série e avançou também para as meias-finais. Na mesma classe ficou pelo caminho Joana Vasconcelos, que tem ainda via aberta para um melhor resultado em K1 500, que é a sua especialidade. Nos 200 metros, a veterana Lorère Bazolo conseguiu um brilhante segundo lugar nas eliminatórias para as meias-finais, prova na qual acabaria por ser eliminada, ficando em 7º lugar. A sua meta, disse, está agora em Paris, em 2024. "Vamos lá ver como as coisas estão aos 41 anos".

Nos 1500 metros, Salomé Afonso "queria ter sido mais audaz", mas não conseguiu, ficando afastada das semi-finais. Igualmente nas eliminatórias dos 1500 metros, houve grandes momentos de nervosismo e sofrimento. Nunca é bom sinal quando o que acontece numa prova chega à secretaria olímpica. Logo por azar, calhou este fado a Marta Pen Freitas, que foi impedida de fazer melhor pela marroquina Rababe Arafi, que bloqueou e rasteirou a velocista portuguesa. 

No final, Marta Pen estava desiludida e com poucas esperanças num milagre do chamado Júri de Apelo. "Sinto que estava numa forma incrível". O Comité Olímpico Português foi igualmente veloz em lavrar o seu protesto. O recurso tardou, mas chegou: a atleta portuguesa vai mesmo estar presente nas meias-finais dos 1500 metros. Uma forma diferente para agora provar a sua.

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