Escolha as suas informações

Pimenta na língua
Opinião Desporto 4 min. 03.08.2021
Olimpíadas de sofá

Pimenta na língua

Olimpíadas de sofá

Pimenta na língua

Foto: AFP
Opinião Desporto 4 min. 03.08.2021
Olimpíadas de sofá

Pimenta na língua

Luís Pedro Cabral
Luís Pedro Cabral
Com a medalha de bronze ao peito e uma chupeta na boca, Fernando Pimenta ergueu alta a canoa de Portugal. É a terceira medalha portuguesa em Tóquio. Mesmo de chupeta, não sabe melhor assim? Vá. Não custa admitir. Um pouco de pimenta na língua dos que acham que isto só vale pela participação.

Na segunda-feira, Fernando Pimenta apurou-se para a final de K1 1000 vencendo a prova de qualificação. Quando lhe perguntaram se estava ansioso por ganhar uma medalha na final de hoje, ele respondeu que já tinha a que mais lhe interessava. E não se referia à medalha de prata em K2 1000 metros que, fazendo dupla com Emanuel Silva, conquistou nos JO de Londres, em 2012. A única, aliás, para Portugal nessas Olimpíadas. Essa medalha já é da história. Qualquer desportista que adormeça à sombra de uma medalha olímpica, bem pode mandar escrever a sua biografia. Fernando Pimenta referia-se à medalha mais importante da sua vida: Margarida de Sousa Pimenta, nascida no passado dia 13 de dezembro, filha de Fernando Pimenta e Joana Sousa, também ela canoísta. 

A 14 mil quilómetros e picos, com as horas ao avesso, a mais portuguesa das palavras, que está impregnada na nossa própria alma, começava a exercer o seu feitiço: saudade. Se calhar, foi por isso que ele remou mais depressa que os outros, tirando, claro, a dupla húngara que não lhe deu tréguas. Para vencer a medalha de ouro, Balint Kopasz, o campeão da Hungria teve de estabelecer um novo recorde olímpico. Se pudesse - depois da chamada da praxe de Marcelo Rebelo de Sousa, claro está -, Pimenta punha-se numa canoa do tempo e só parava em Ponte de Lima. A Margarida já deve ter saudades da chupeta.

Foto: Jan Woitas/dpa-Zentralbild/dpa

Ainda sob o efeito anabolizante de Patrícia Mamona, que nestes dias foi eleita menina bonita da nação, grandes esperanças moravam na pista do Estádio Olímpico de Tóquio, para a prova de qualificação para a final do triplo salto masculino. Portugal tinha um estreante, um atleta em ascenção e um campeão do mundo e campeão olímpico, já habituado a saltar com o peso da nação às costas e a contas com uma lesão que se atravessou na sua preparação. Na estreia olímpica, Tiago Pereira ficou a 12 centímetros da repescagem, eufemismo de eliminação. Pedro Pichardo voou como uma águia (até me custa dizer isto, que sou do outro lado da Segunda Circular) para o primeiro lugar, com uma marca inacreditável: 17,71 metros, deixando toda a concorrência a mais de meio-metro, ficando exactamente a 58 centímetros do recorde do mundo, na posse do britânico Jonathan Edwards desde 1995. Esta prova acabaria por transformar-se numa espécie de cerimónia do adeus de Nelson Évora, que voltou a lesionar-se no segundo ensaio. 


Portugal faz o terceiro 'hat trick' numas Olimpíadas
Em Tóquio 2020, a equipa lusa já soma duas medalhas de bronze e uma de prata, algo que não é inédito numas Olimpíadas.

Não desistiu, terminando a prova com dores e lágrimas inglórias. Todos os atletas presentes partilharam com abraços e lágrimas, levantando o seu braço, o que se faz quando se está na presença de um grande campeão. Todos, menos um: Pedro Pablo Pichardo que, conforme revelou, tinha o seu pensamento entregue a ultrapassar a marca dos 18 metros na final. Questionado sobre se achava que Pichardo também lhe ia dar um abraço fraterno, Nelson Évora disse que não. "O Pichardo há-de aprender com a vida".

Explicando: há entre estes dois uma rivalidade que vem desde 2017, mas que se alimenta de uma rivalidade eterna, de clubite aguda: Sporting vs Benfica. Pedro Pablo Pichardo é dissidente cubano. Em abril de 2017, quando se encontrava em estágio em Estugarda com a selecção de Cuba, desertou para parte incerta, até anunciar que tinha encontrado país e clube. Foi já oficialmente luso-cubano que o atleta preencheu no SLB o enorme vazio que tinha deixado Nelson Évora que, ao jeito dos jogadores da bola, se tinha transferido para o SCP. 

Seja para um lado, seja para o outro, sempre encarado como um crime lesa-pátria. Pedro Pichardo é sobrinho de Pio Pichardo que, dizem, salvou um dia a vida a Che Guevara, numa selva do Congo. As esperanças de medalha estão agora entregues a Pichardo, numa amarga passagem de testemunho. Sobre a sua derradeira participação olímpica, Nelson Évora disse isto: "Tudo o que sobe, desce".


TOPSHOT - Volunteers clean the court during the women's preliminary round group B basketball match between France and Japan during the Tokyo 2020 Olympic Games at the Saitama Super Arena in Saitama on July 27, 2021. (Photo by Brian SNYDER / POOL / AFP)
Olimpíadas de sofá
O diário dos atletas portugueses e luxemburgueses nos Jogos Olímpicos no Japão.

Na pista, onde nos 1500 metros Charles Grethen, velocista luxemburguês, se classificou para as meias-finais em sexto lugar, Cátia Azevedo apurou-se por sua vez para as meias-finais dos 400 metros, com a segunda melhor marca pessoal, encontrando-se agora entre as 27 mais rápidas do mundo nesta distância. À vela viaja para Portugal mais um diploma olímpico. Jorge Lima e José Costa, em 49er não conseguiram melhor que um 7º lugar depois de uma de falsa partida na Medal Race. Em 470, os irmãos Diogo e Pedro Costa, ficaram distantes de chegar à final, com um 15º posto. Ainda na canoagem, Teresa Portela acabou a sua participação olímpica com a convicção que disputou a "final errada". A canoísta portuguesa ganhou a final B da competição em K1 200 metros. O sonho A fica para Paris.

Simone Biles, que ontem anunciou estar de regresso para disputar a final da trave, ainda foi a tempo de alcançar a medalha de bronze. No fim, a super-ginasta norte-americana tinha de volta um sorriso no rosto. Sinal dos tempos que ela tanto contestou: estava agarrada ao telemóvel. Estaria num exercício de Twitter?

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.


Notícias relacionadas

Ouro de Portugal nos JO
Portugal tem um novo campeão olímpico no triplo salto. Sem espinhas, Pedro Pichardo conquistou a primeira medalha de ouro nos JO de Tóquio para a nação que o acolheu. A rivalidade com Nelson Évora está ao rubro. Não é coisa que se recomende a atletas, mas... vejam lá se fumam o cachimbo da paz.
Nisto, mais ninguém falou das camas anti-sexo. São eficazes? Houve queixas? Lesões? Rupturas de protocolo? Sinceramente, quem é que perdeu tempo a desenvolver este gadget?
O ouro de Nelson Évora no triplo fechou de maneira excelente a participação de Portugal nos Europeus de atletismo de pista coberta de Belgrado, confirmando uma das melhores prestações coletivas lusas de sempre.
Portugal's Nelson Evora competes in the final of the men's triple jump athletics event at the 2015 IAAF World Championships at the "Bird's Nest" National Stadium in Beijing on August 27, 2015. AFP PHOTO / ADRIAN DENNIS