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Momentos de prata
Opinião Desporto 4 min. 01.08.2021
Olimpíadas de sofá

Momentos de prata

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Momentos de prata

Foto: AFP
Opinião Desporto 4 min. 01.08.2021
Olimpíadas de sofá

Momentos de prata

Luís Pedro Cabral
Luís Pedro Cabral
Patrícia Mamona esteve extraordinária. Ultrapassou a barreira mítica dos 15 metros, por duas vezes pulverizou o recorde nacional e conseguiu a segunda medalha olímpica de Portugal. Esta é de prata. E já ninguém nos tira.

Com cinco letrinhas apenas se escreve o número cinco. É a largura da lombada do Livro Negro do Capitalismo, de uma lata de atum ou de uma caixa de fósforos, o comprimento da tampa de uma caneta BIC ou das orelhas de um coelho-anão, o diâmetro de uma colher de pau, da bisavó de uma matrioska. Cinco centímetros. Por cinco centímetros se alcança a glória olímpica, por cinco centímetros se perde uma medalha de bronze. Cinco vezes cinco, igual a nada. Cinco longos anos de trabalho, de suor, de abnegação, a cinco centrímetros do objectivo, em cinco centímetros de inferno. É de chorar. Que foi o que fez abundantemente Auriol Dongmo, quando aqueles cinco centímetros cairam em si como se fossem cinco toneladas. 

"Perder desta maneira é a coisa mais horrível que podia acontecer". A atleta portuguesa do lançamento do peso estava inconsolável. Se em vez de 19 metros e 57 centímetros, a sua melhor marca na final olímpica do lançamento do peso, ela tem chegado aos 19,62m, estaríamos aqui a enaltecer esses cinco centímetros, dando ela por bem empregue todos os momentos da vida que perdeu, enquanto arremessava uma bola em liga de bronze (valha-nos Deus), ferro fundido e chumbo, com o peso exacto de quatro quilos. Pelo menos não é cinco. Tão cedo Auriol Dongmo não pode ouvir falar neste número maldito, que nem é quatro nem é seis.

Às 10 da matina, hora local, estavam 38 graus no estádio olímpico. Às 11h00, já estavam 40. Ninguém diria, no entanto, que o lugar do estreante Ricardo dos Santos ia ficar entre uma coisa e outra: 39º na geral. À hora da eliminatória dos 400 metros, o ambiente estava de canícula e a pista boa para estrelar ovos. Não havia nada a fazer. Os velocistas teriam de competir dentro de um forno chamado Tóquio. Não foi o dia do velocista português, que ficou em sétimo e, no final da prova, desafiando as condições meteorológicas, decidiu chover no molhado: "Antes de correr, sentia que estava debaixo do sol. A pista estava muito quente. Tentei beber muita água". Se conseguiu beber muita água Ricardo não disse. Mas, na prova, sob condições extremas, deu tudo o que tinha dentro de si, ficando a um escasso segundo do seu recorde pessoal.

Lá fora, não se estava melhor. De ontem para hoje tinha sido reportados mais de quatro mil casos de Covid 19, sendo que na bolha olímpica foram registados mais 18, entre os quais um atleta. Mais agradável, pelo menos parecia, estava o tempo para velejar. Na classe 470, na qual os irmãos Diogo e Pedro Costa tinham fundadas aspirações por um lugar na Medal Race, tudo a postos. Os nossos velejadores, porém, cedo demonstraram que também não estavam nos seus dias. Na primeira das duas regatas do dia (7 e 8), classificaram-se em 10º, o que já não era bom. Na segunda e decisiva prova, cairam para o 16º posto, encontrando na geral o 13º lugar. À vela, lá se foi a final.

Muito melhor se estava na piscina olímpica. Bela manhã para dar saltos de trampolim a três metros, onde a China fez uma supreendente dobradinha. Tingmao Shi conquistou a medalha de ouro, Han Wang, a medalha de prata. A norte-americana Krysta Palmer, que não estava propriamente esfusiante de felicidade, lá deu a mordidela da praxe na medalha de bronze. De qualquer forma, o calor estava a fazer das suas um pouco por toda a parte. No boxe, Frazer Clarke, britânico, e Mourad Aliev, francês, disputavam "pound for pound" as meias-finais na categoria de mais de 91 quilos (super-pesos-pesados), já de si um óbice ao calor. 

No final do segundo assalto, o combate estava a ferver. Mourad já tinha sido avisado pelo uso excessivo da sua cabeça, que já havia provocado um corte na face do adversário. Como o francês continuou a cabecear, o árbitro acabou por desclassificá-lo, atribuindo a vitória a Clarke. De cabeça perdida, o francês pôs-se à procura de alguma coisa para aplicar um golpe extra. No adversário seria demasiado banal, no árbitro não dava jeito. Saiu disparado em direcção à câmera TV que estava a focar o seu momento de raiva e disferiu-lhe um KO técnico. Para além da derrota, terá de pagar a conta. Em protesto, recusou-se a abandonar o ringue, onde ficou uma hora sentado. De cabeça baixa.

No andebol, Portugal ficou a um golinho de empatar com o Japão, o que lhe permitiria passar a fase de grupo do torneio olímpico. No final da partida, Jorge Pereira, o seleccionador nacional, disse que um dia havia de escrever um livro, com o seguinte título: "O Golo que Falta". Se formos por aí, temos best-seller.

Para o fim, o melhor. Patrícia Mamona alcançou uma brilhantíssima medalha de prata no triplo salto. Só uma extraterrestre para bater a portuguesa neste dia. Que, aliás, estava presente: Yulimar Rojas, da Venezuela, que andou a "cheirar" o recorde do mundo. À primeira tentativa Patrícia Mamona bateu logo o recorde nacional: 14,91 metros. Ultrapassaria a marca mítica dos 15 metros, ao alcance de muito poucos no mundo (o recorde mundial está em 15,91m)? Ao terceiro ensaio, Mamona bateu de novo o recorde nacional, que está agora em 15,01 metros.

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