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Bodas de bronze
Opinião Desporto 4 min. 29.07.2021
Olimpíadas de sofá

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Bodas de bronze

Foto: Lusa
Opinião Desporto 4 min. 29.07.2021
Olimpíadas de sofá

Bodas de bronze

Luís Pedro Cabral
Luís Pedro Cabral
E, ao sexto dia, uma medalha de bronze para um verdadeiro campeão, que fala como luta. Todos se juntaram a ele nesta vitória olímpica. Mas ele não estava satisfeito. Quem luta pelo ouro não fica contente com o bronze. "Waza-ari".

Jorge Ivayr Rodrigues da Fonseca conquistou a primeira medalha para Portugal, para o para o Sporting Clube de Portugal, para o judo nacional, para a secretaria de Estado do Desporto e da Juventude, para o Instituto Português do Desporto e Juventude, para a Federação Portuguesa de Judo, para o Comité Olímpico Português, para a família, para os amigos, para o primeiro-ministro e para o presidente da República, para o arco do governo e até para a oposição, para os mais de 10 milhões de portugueses em Portugal e na diáspora, e para a Teresa, a minha vizinha, que é adepta do silêncio, mas deu um grito de bronze.

Já se sabe, quando um atleta ganha uma medalha, toda a gente ganha. Um campeão é um campeão. Um bicampeão do mundo, que já derrotou um cancro, é sem dúvida outra coisa. No combate para o terceiro lugar, Jorge Fonseca aplicou um "waza-ari" (a manobra com a segunda pontuação mais alta nas artes marciais japonesas) ao canadiano Shady Elnahas e ao discurso miserabilista que propaga quando as medalhas não se alcançam. Satisfeito com esta vitória estrondosa, Jorge? Nem por isso. "Trabalho para o ouro e não para o bronze". E, depois de uma achega a duas marcas desportivas que já lhe recusaram patrocínio, sem qualquer tipo de complexos, colocou alta a sua fasquia: "Vou continuar a trabalhar para ser o melhor do desporto nacional". Uma heresia de bronze, num horizonte de diplomas. Essa coisa de considerar as medalhas um mero pormenor nos JO, para depois as tornar em feitos galácticos quando um atleta as conquista.

Neste pormenor, o sexto dia dos Olímpicos começou assim: o país anfitrião tinha 13 medalhas de ouro, quatro de prata e cinco de bronze, num total de 22 medalhas. A China, tinha alcançado 12 medalhas de ouro, seis de prata e nove de bronze, totalizando 27 medalhas. Os EUA, que vencem no total, com 31 medalhas, tinham 11 de ouro e número igual de prata, ainda nove de bronze. O ROC (Comité Olímpico Russo) está em quarto no medalhómetro, com sete medalhas de ouro, dez de prata e 6 de bronze. Em último do Top 5, a Austrália tem um total de 16 medalhas (seis de ouro, uma de prata e nove de bronze), muito por fruto dos resultados brilhantes dos seus nadadores e nadadoras olímpicas, em forma de peixe.

Pelos intervalos da chuva, que só estava prevista para amanhã, talvez já não se recorde a razão porque não estão os atletas russos a competir sob a bandeira da Rússia, mas do ROC. Um ano antes dos JO do Rio de Janeiro (2016), já lá vão seis anos, um relatório da Agência Mundial Anti-doping implodiu quase até ao osso parte da longa história de poderio olímpico da antiga URSS, no histórico braço-de-ferro com os EUA pela hegemonia olímpica que, com a desagregação da URSS se esbateu. As conclusões do Relatório McLaren eram (são) de extrema gravidade. A Rússia tinha em curso um extenso programa de doping, até ao momento indetectável, no atletismo, desconhecendo-se a sua longevidade no tempo. Em consequência disto, a Associação Internacional de Federações de Atletismo, tomou uma posição duríssima, suspendendo "provisoriamente" a Rússia de todas as competições de Atletismo, incluindo, claro está, os JO do Rio de Janeiro. Nesse momento, admitia-se mesmo banir a Rússia destas Olimpíadas, elevando o escândalo ao seu expoente. O Comité Olímpico Internacional, ao qual cabia a última palavra, optou pela diplomacia, adoptando a solução ROC para os atletas que provassem não ter qualquer envolvimento no programa de doping russo. Ainda assim, dos 387 atletas seleccionados pela Rússia para o Rio de Janeiro, 117 foram excluídos dos Olímpicos. Sob uma capa de "neutralidade", o ROC apresentou em Tóquio 335 atletas.


TOPSHOT - Volunteers clean the court during the women's preliminary round group B basketball match between France and Japan during the Tokyo 2020 Olympic Games at the Saitama Super Arena in Saitama on July 27, 2021. (Photo by Brian SNYDER / POOL / AFP)
Olimpíadas de sofá
O diário dos atletas portugueses e luxemburgueses nos Jogos Olímpicos no Japão.

Adiante. Jeff Henckels, único atleta luxemburguês em prova neste dia, foi eliminado no tiro ao arco. Na participação portuguesa, por um lugar e dois pontos no "fosso olímpico" com arma de caça não foi João Paulo Azevedo à final, terminando a sua estreia olímpica em 20º. "Do outro mundo", disse ele. Melhor que isto, só tinha conseguido o seu treinador, António Ezequiel, nos JO do ano 2000, em Sidney. Ainda no judo, Patrícia Sampaio, em -78 kg, foi eliminada na segunda ronda pela campeã do mundo, a alemã Anna-Maria Wagner. Na natação, Tamila Holub falhou o apuramento para a final de 800m livres, ficando em último na segunda série, mas em 11º na geral. Na vela, classe 470, Diogo e Pedro Costa (irmãos) cairam de 12º para 15º, enquanto em 49er, a dupla José Costa/ Jorge Lima fechou o dia em 10º lugar, caindo uma posição na geral. Em sentido inverso, Carolina João subiu uma posição na classificação geral de Laser Radial, encontrando-se agora em 33º lugar. No remo, Pedro Fraga e Afonso Costa, em "double-scull", terminaram em 13º lugar. Terminando pelo princípio: dia de bronze para Portugal. No pódium, Jorge Fonseca, chorava, fazendo às lágrimas o que já tinha feito às palavras.

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