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Biles de Gala
Opinião Desporto 4 min. 28.07.2021
Olimpíadas de sofá

Biles de Gala

Simone Biles em Tóquio.
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Simone Biles em Tóquio.
Foto: AFP
Opinião Desporto 4 min. 28.07.2021
Olimpíadas de sofá

Biles de Gala

Luís Pedro Cabral
Luís Pedro Cabral
Deixa muito que pensar a desistência da melhor ginasta do mundo. Mas... será novidade?

Alguns puristas, outros puritanos, do olimpismo, eivadíssimos de romantismo de trazer por casa, consideram que os atletas olímpicos, só porque já alcançaram os Olímpicos, ficam desde logo isentos de críticas. Evocam o espírito de Coubertin para isto e para aquilo, considerando os JO como uma espécie de Dulcineia de Toboso, mulher imaginária e perfeita, do ponto de vista quixotesco, verdadeira encarnação da beleza e da virtude. Se formos rigorosos, o barão de Coubertin, até ao dia da sua morte (2 de Setembro de 1937) defendeu sempre que a natureza, já agora, a pureza, da competição desportiva olímpica devia residir no amadorismo dos atletas, pois era isto que os colocava em igualdade de circunstâncias. A filosofia olímpica de Coubertin para os JO da era moderna - vá-se lá saber por que continuamos eternamente a chamar moderna a uma era que inscreveu na sua História duas guerras mundiais, o Holocausto, o apartheid, ficaríamos aqui pelo menos meio-dia só a enumerar as iniquidades que a Humanidade tem - não incluia a participação de atletas negros e, ainda que sem letra regulamentar, fazia por excluir as mulheres. 

Podíamos dizer que o barão, parisiense de nascimento, era um homem do seu tempo, com o seu doppelganger ideológico, num estranho caso olímpico de Dr. Jekyll & Mr. Hyde. Podíamos fazer como Lisboa faz aos idosos em relação aos transportes públicos, atribuindo-lhe um desconto para a idade. De qualquer forma, é bom ter estes elementos em conta quando evocamos o espírito de Coubertin, como se entoássemos um salmo. A participação das mulheres nos JO só começou a ser efectiva desde 1928, que coincidiu com a aposentação do nosso barão do Comité Olímpico Internacional, sendo que, na prática, os dois eram a mesma coisa.

A paridade na competição olímpica só agora começa a encontrar equilíbrio, mas já há muito tempo que os JO perderam a sua inocência amadora, se é que alguma vez a tiveram. O JO são o maior evento desportivo do planeta e são igualmente uma colossal máquina de marketing que, com as devidas excepções, transformaram os atletas em marcas, máquinas de alto-rendimento, com a sua juventude profissionalizada, a vida com patrocínio. E ainda há quem fique ofendido que as nações tenham expectativas de medalhas dos atletas que os representam. Com essa pressão, vive qualquer atleta bem. É um pensamento bonito, achar que os atletas estão ali para o convívio universalista do desporto, que não importam as medalhas, apenas a participação. Não há um único atleta ali presente que não pense em ganhar, nem que seja secretamente. 

É um tanto ou quanto hipócrita o discurso de benevolência: se um atleta ficou em 99º, ficou entre os 100 melhores do mundo, se ganhou um diploma parece que ganhou uma medalha e, se ganhar uma medalha, é não apenas um feito olímpico como uma história de superação. Então a beleza dos JO não é exactamente a superação? É assim um pecado tão grande ter esperança em medalhas? É que se é, os próprios JO desmoronam como um castelo de cartas.

Ontem, João Pereira, que terminou a prova do Triatlo em 27º, frustado pelo resultado, à sua maneira pôs o dedo na ferida: "É irreal vir para aqui pensar em medalhas". O triatleta português referia-se à máquina. À máquina profissional que os da frente tinham e ele não. Mas, quem puxou o verdadeiro assunto, e com todas as letras, foi a super-atleta norte-americana, Simone Biles. Que coragem, ou que pressão inimaginável será necessária para que a melhor ginasta do mundo, pura e simplesmente, desista. É preciso prestar atenção ao que disse, pois uma atleta não consegue competir com uma pesadíssima máquina de pressão às costas. Onde está o divertimento? O prazer de desfrutar uma prova entre os melhores? A essência do desporto? Ah, claro, no espírito de Coubertin.

Em honra de Coubertin podemos dizer que Gabriel Lopes (21º na geral) e Alexis Santos (28º) falham gloriosamente a final dos 200 metros estilos, o mesmo acontecendo com Francisco Santos, que falha as meias-finais dos 200 metros de costas. Catarina Monteiro, conseguiu um brilhante 11º lugar nos 200 metros mariposa, o 3º melhor de sempre. O nadador luxemburguês Raphael Stacchioti ficou em 8º lugar na segunda eliminatória dos 200 metros estilos. Igualmente do Luxemburgo, Julie Meynen, nos 100 metros livres, ficou em 7º na quarta eliminatória. Faltam adjectivos para a prova de Antoine Launy, que na prova de slalom em K1, canoagem, conseguiu um 11º lugar para Portugal, apurando-se para as meias-finais. 

Em grande estilo, Bárbara Timo, no judo, foi eliminada na segunda ronda pela campeão do mundo, que seria derrotada na final. No ciclismo, Nélson Oliveira estava muito desiludido com o 21º lugar no contrarrelógio. No contrarrelógio feminino, a ciclista luxemburguesa Christine Majerus obteve o 21º tempo. No hipismo, História. Rodrigo Torres, emocionado, congratulou-se com o melhor resultado de sempre na categoria de Ensino Individual: 16º lugar.

A equipa de andebol perdeu por um pontinho com a Suécia, que é vice-campeã do mundo. Portugal vendeu cara a derrota. Embora mais desfocadas, ainda se vislumbram no horizonte as meias-finais. No tiro com arma de caça, João Paulo Azevedo partiu a loiça. Só falhou um prato. Está neste momento em 15º, com 72 pratos partidos em 75 possíveis.

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