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"Let the games begin!"
Desporto 4 min. 22.06.2021
Olimpíadas da era moderna

"Let the games begin!"

Vista do logótipo dos Jogos Olímpicos na capital japonesa de Tóquio, palco da edição de 2020 do evento.
Olimpíadas da era moderna

"Let the games begin!"

Vista do logótipo dos Jogos Olímpicos na capital japonesa de Tóquio, palco da edição de 2020 do evento.
Foto: AFP
Desporto 4 min. 22.06.2021
Olimpíadas da era moderna

"Let the games begin!"

Luís Pedro Cabral
Luís Pedro Cabral
Começa aqui a história das Olimpíadas da era moderna, que por obra e graça do barão de Coubertin regressaram à Grécia. São 30 Olimpíadas e 30 histórias, uma a cada dia.

Começa aqui a história das Olimpíadas da era moderna, que por obra e graça do barão de Coubertin regressaram à Grécia. Apesar da organização ter feito tudo à medida dos gregos, as coisas não correram como estavam planeadas. Let the games begin!

As olimpíadas da Antiguidade nasceram pela guerra e acabaram pela religião. Efitos, rei de Elida, e Licurgo, rei de Esparta, em disputas territoriais, elegeram Olímpia como território neutro, para que decorressem os jogos, como um armistício. Começaram no ano 776 a.C. e tinham a duração da trégua: duas semanas. Entre as especialidades desportivas de eleição para os jogos de Olímpia, a corrida no estádio era uma das modalidades mais apreciadas, juntamente com o lançamento do disco já que, reza a lenda, Apolo e Diana, eram ambos discóbolos. As provas de salto eram efetuadas a segurar pesadas pedras, ainda o lançamento do dardo, cuja única regra era que este tivesse a mesma altura do seu lançador. Ainda as provas de natação e de luta, em homenagem a Hércules. Para animar as hostes, também havia uma forma arcaica de pugilismo. Os jogos de Olímpia cumpriram 293 edições. Seriam proibidos por Teodósio, o primeiro imperador romano que se converteu ao Cristianismo.

Depois de algumas tentativas inconsequentes para reeditar as olimpíadas da Grécia Antiga (em 1604, na Irlanda; em 1830, ao sabor da independência da Grécia; e em 1859, na Hungria, por impulso de um magnata húngaro), em 1896 os Jogos Olímpicos reacenderam finalmente a sua chama. As primeiras olimpíadas da era moderna, em tributo à sua História, só podiam ser no berço. E o primeiro recorde olímpico foi estabelecido logo na cerimónia de abertura, em Atenas, perante 80 mil pessoas, que escutavam as palavras emocionadas de Charles Pierre Fredy. 

Para o barão de Coubertin, mentor e principal impulsionador, os Jogos da I Olimpíada, como lhes chamaram, era um sonho que se realizava. O barão começou em bom ritmo, mas acabaria por ceder num pranto às suas próprias palavras. Ficou ali homologado o recorde olímpico do choro em palanque, até hoje imbatível. Relatos da época, dizem que o orador esteve a chorar entre sete minutos e uma eternidade, perorando sobre a pureza da competição e o verdadeiro espírito olímpico, que excluia a participação de mulheres e atletas negros.

As olimpíadas de 1896 começaram no dia 5 de abril e, em honra dos antepassados, teriam a duração de duas semanas. Ficariam nos anais pelo simbolismo histórico e pouco mais, já que a organização fez de tudo para que as medalhas ficassem em casa. A probabilidade de haver atletas gregos no pódium era altíssima: estavam presentes 311 atletas, de 14 países, sendo que 230 eram gregos. O grande palco dos jogos foi o estádio Panetenaico, um dos mais antigos do mundo, mandado remodelar por ordem do rei Jorge I, que o rebaptizou Estádio Olímpico de Atenas. 

Estádio Panatenaico.
Estádio Panatenaico.
Foto: Wikipedia/CC 3.0/Badseed

No desporto, assim como na vida, nem tudo é como parece que vai ser. Os gregos estavam em números esmagadores, mas isso não se traduziu em domínio. Foram os norte-americanos a dominar, vencendo 12 das 14 provas de atletismo, sendo que tinham inscrito apenas 14 atletas. A primeira medalha dos Jogos Olímpicos foi direta para James Connolly, norte-americano, que venceu o triplo-salto. Neste caso, medalha de prata, já que na altura era simbolo de primeiro lugar.

A prova olímpica mais esperada era a maratona (entre a cidade de Maratona e Atenas). No dia da maratona, a mais dura das provas olímpicas, não cabia mais uma alminha helénica no estádio: 100 mil pessoas aguardavam por um herói que salvasse a honra da nação. Soube-se mais tarde, que a organização fez de tudo para que fosse um compatriota a chegar em primeiro ao estádio para garantir uma apoteose digna de coro grego. Um atleta grego andou à boleia grande parte da prova. No entanto, seria Spiridon Louis, aguadeiro de profissão, o herói improvável da Grécia. Rezam as lendas que o atleta grego ainda se deu ao desplante de parar em casa do sogro para comer uma laranja e beber um penálti de Ouzo (aguardente grega). 

E o impensável aconteceu: quando o herói nacional chegou ao Estádio Olímpico de Atenas, a realeza presente, ante o gáudio geral, não se conteve e saltou para a pista, acompanhando o atleta na volta de consagração. Isto, claro, nos tempos que a realeza estava capaz de correr.

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