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Nobless Olímpica
Desporto 6 min. 03.08.2021
Olímpicos 2022

Nobless Olímpica

Olímpicos 2022

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Foto: AFP
Desporto 6 min. 03.08.2021
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Nobless Olímpica

Luís Pedro Cabral
Luís Pedro Cabral
A história do olimpismo português remonta a 1912, com a participação nos JO de Estocolmo. Quanto mais se recua no tempo, melhor se verifica quanto eram remotas as possibilidades de uma presença numa olimpíada ao mais comum dos portugueses. Foi a cavalo que Portugal conseguiu a sua primeira medalha olímpica, em Paris, 1924.

Se o idealismo erradicasse a pobreza, no amanhecer da I República, Portugal seria uma nação próspera, pedindo meças à mais civilizada das nações por esse mundo, onde o desporto era já uma instituição consolidada e os seus valores transversais à sociedade. Em Portugal, tirando a populaça na assistência, o desporto estava ainda a léguas de tornar-se verdadeiramente eclético. O "sport" era próprio dos "gentlemen", eufemismo de um certo elitismo. Eram para lá de remotos os sonhos de Olimpo do homem modesto. A não ser, claro, que a contagem de tostões se tornasse de repente num desporto olímpico. As Olimpíadas eram como aquele fruto inalcansável no topo de uma árvore genealógica. O desporto era privilégio de poucos. O olimpismo, de pouquíssimos.

No alvor das nossas participações olímpicas, prevalecem o tiro, o hipismo, a esgrima, coisa de oficiais e cavalheiros. Mais tarde, também a vela tomaria o seu lugar, muito por fruto da criação da Escola Naútica da Mocidade Portuguesa, criada para os jovens que não tinham dinheiro para ter embarcação própria. Por uma qualquer perversão social, acabou por dar no contrário. Todos estes desportos eram (e são) por inerência de lógica e de logística, dispendiosos. Este filtro afastava destes desportos o grosso da mocidade. A tradição olímpica de Portugal nestes desportos e a tradição elitista dos seus praticantes explica-se assim.

O hipismo seria mesmo a modalidade a brilhar mais alto no olimpismo português. Em 1924, nos JO de Paris, os cavaleiros Hélder de Sousa Martins, Aníbal Borges de Almeida e José Mouzinho de Albuquerque, conseguiriam a primeira medalha olímpica para Portugal. Bronze, na prova de obstáculos.

Os cavaleiros de elite

Há meninos que nascem com um dom e famílias cuja linhagem determina que este anteceda o nome próprio. Foi o que aconteceu com D. Domingos Sousa Coutinho, 4º marquês do Funchal, nascido em 1896, na freguesia de São Vicente de Fora, em Lisboa.

Mal completou a instrução primária, entrou para o Colégio Militar. Quando em Julho de 1914 acabou ali o curso de Liceu, começou a Primeira Guerra Mundial. Alistou-se em Cavalaria 5, em Évora. Com 20 anos, optou pelo curso da Escola de Guerra de Cavalaria. As artes equestres tomaram as suas rédeas. O marquês do Funchal dedicou toda a sua vida aos cavalos e à nobre arte do hipismo.

No imenso espólio da família, poucas são as fotos em que tenha os pés em terra firme. Fosse qual fosse o meridiano - era sedento de viagem e as suas funções oficiais pediam-no também -, encontravam-no sempre voando sobre um obstáculo, algures entre o dorso e a cernelha de um cavalo de pura raça. O capitão Domingos de Sousa Coutinho representou de várias maneiras o hipismo nacional. Em 1936, nos JO de Berlim, chefiou a delegação que partiu de barco para a Alemanha de Hitler. Em Portugal, ficou o Estado Novo. Temente a Deus, dedicado à pátria e à família, Sousa Coutinho teria 13 filhos. O mais velho, Agostinho de Sousa Coutinho, foi o guardião das memórias e do seu espólio. É em sua casa que está guardada a medalha conquistada pelo seu pai na XI Olimpíada, na iluste companhia de José Beltrão e Luís Mena e Silva, que elevaram o hipismo português acima de qualquer obstáculo.

Domingos de Sousa Coutinho comandou os regimentos de cavalaria nº 3, em Estremoz, e nº 6, no Porto. Era também responsável na aquisição de cavalos de desporto e da compra de carros de combate para o Exército português. Como cavaleiro, apenas esteve nas Olimpíadas de Berlim. Mas foi chefe das equipas nacionais nos JO de Roma, em 1960, e em Tóquio, em 1964.

Um peditório, uma medalha

Muitas são as famílias que nos primórdios dos JO da era moderna inscreveram o seu brazão. É impossível falar de hipismo e olimpismo sem conjugar o nome de José Paulino Marecos Mouzinho de Albuquerque, oficial de cavalaria, comandante da Guarda Nacional Republicana e da Legião Portuguesa, ao abrigo do Estado Novo. Antes, em 1924, foi aos JO de Paris, onde conquistou a primeira medalha olímpica para Portugal, juntamente com Aníbal Borges de Almeida, Hélder de Sousa Martins e Luís Cardoso de Menezes. A pouco tempo da competição, com as finanças na rua da amargura, fez-se um caricato peditório para concretizar este desígnio nacional. Não é que a maioria dos olimpicos precisassem da esmola, pois muitos tinham fortuna hereditária. Casos houve em que os atletas custearam as suas despesas.

Se muitos desportos fizeram a travessia de classes, a vela manteve-se sempre como uma espécie de classe à parte. Foi nos anos 40 que a modalidade mais se desenvolveu. E não podia havia melhor paradigma que o Primeiro Congresso de Vela de Portugal, realizado na Sociedade de Geografia, onde estiveram os mais distintos velejadores, das mais distintas famílias. Pedro Teotónio Pereira, que seria embaixador de Portugal em Inglaterra, Duarte Bello, António Herédia, António Busttorf Silva, Gervásio Leite. E, entre outros, nobless oblige, o conde de Caria, de sua Graça Bernardo Mendes de Almeida. O futuro trouxe excelentes resultados. A vela portuguesa alcançou feitos pelo mundo fora. O próprio conde, em 1956, com o seu dragão Canopus, ganhou duas taças, sendo depois eleito para a Comissão Permanente da Internacional Yacht Racing Union. Nesse mesmo ano, o Canopus partiu para os JO de Melbourne, Austrália. Em Port Phillips, rezam as crónicas, o conde teve de enfrentar fortes tormentas. Dizem que foi isto que lhe sonegou a glória olímpica.

Um dos "habitués" em JO era Joaquim Fiúza, nascido em 1908. Não são muitos os que conseguem assinar três presenças no palmarés olímpico. Era o grande rival de Duarte Bello - medalha de prata em Londres - em águas nacionais e internacionais, também um dos seus grandes amigos. Fiúza esteve no JO de Berlim, em 1936, em Londres, em 1948 e em Helsínquia, em 1952, onde conquistou uma medalha de bronze, tendo à proa Francisco Rebelo de Andrade.

A sua história na vela, começa assim: o marquês de Fronteira, seu avô, ofereceu-lhe um barco quando ele regressou da Bélgica, na adolescência. Foi o momento em que a ginástica, o ténis e a equitação passaram para segundo plano. Nos anos 30, Fiúza iniciou-se em "star", que baptizou de Espadarte, uma embarcação que à época custava mais de 100 contos, uma fortuna. Certa vez, Fernando e Duarte, os irmãos Bello, que construiam as suas próprias embarcações, fizeram outras contas. Cada barco, custava-lhes cerca de 500 contos. A sua manutenção, nunca menos de cinco contos por mês. Para uma família comum, era igual ao litro a diferença entre o inacessível e o impossível.

As longas horas que Fiúza passava no mar, curava-as em terra, nas suas vinhas do Ribatejo. A terra e o mar foram as suas grandes paixões. Mas foi o mar que lhe deu os maiores momentos de glória. Quando se retirou, ofereceu o Espadarte ao filho de Duarte Bello. Gesto nobre. Para quem podia.

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