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Obrigado, Eusébio
Editorial Desporto 4 min. 15.01.2014

Obrigado, Eusébio

EDITORAL, por Álvaro Cruz - Como alguém já disse, escrever sobre Eusébio sem cair nas banalidades e nos lugares comuns não é fácil. Mas não posso deixar de reiterar a ideia de que Eusébio foi o maior jogador português da sua geração e sobretudo um grande ser humano, exemplo de humildade e fair-play.

Como herói popular, foi uma das raras figuras de consenso capazes de criar uma unidade de opiniões e afectos, independentemente da cor clubista de cada um. O "Pantera Negra" obteve um estatuto ímpar no futebol nacional, tornando-se num embaixador de excelência.

Ainda pequeno, pela mão do meu pai, lembro-me de o ver jogar no estádio do Bonfim, em Setúbal, a última das quais ao serviço do Beira-Mar, quando já mesmo em final de carreira ainda era a grande referência da equipa.

Eusébio era filho do futebol puro que nada tem a ver com o "industrial" de hoje. O Pantera Negra arrastava multidões para o verem jogar ao domingo à tarde, o dia da família, quando Portugal ainda estava fortemente arreigado à famosa trilogia dos "efes": Fado, Fátima e Futebol.

Tive o privilégio de ter convivido com o "Rei" algumas vezes na minha vida. A primeira das quais quando defrontei o Benfica num jogo-treino no relvado anexo ao estádio da Luz. Estava eu ao serviço do Cova da Piedade, treinado então por Mário Wilson, também ele moçambicano e grande referência do futebol português.

Na altura (1987) eu cumpria o serviço militar na Marinha e não dei grande importância ao jogo, apesar de curiosamente ver que Eusébio assistia ao mesmo junto do velho capitão (Wilson), no nosso banco de suplentes. No fundo, achava que ele nunca iria olhar para mim e que estava ali só para falar com o seu amigo de longa data. Afinal, quem era eu?

Afortunadamente, no último minuto, foi assinalada uma grande penalidade contra o Benfica que me encarreguei de marcar. Mas falhei. Delgado, na altura o guarda-redes do Benfica, desviou para canto o remate frouxo e o árbitro apitou para o final do jogo.

Para espanto meu (e de muitos) Eusébio dirigiu-se a mim e disse-me: "Oh miúdo, é assim que se marca um penálti?". E o meu coração disparou. O "King" estava a falar comigo, a dar-me um raspanete, como se eu tivesse alguma importância para ele. Nem consegui responder, de tão atrapalhado que fiquei.

"O que fizeste foi livrar-te da bola, parece que estavas com pressa de ir para o duche e remataste sem a menor convicção", disse-me Eusébio, perante o olhar de todos no campo."Anda cá!", chamou-me. "Um pénalti não é para se falhar. Nem no primeiro, nem no último minuto", e levou-me para a grande área.

Apanhou a bola e explicou-me olhos nos olhos: "Agarras na 'menina' e colocas na marca. Olhas para o guarda-redes e para a baliza. Respiras fundo e concentras-te profundamente. Escolhes para onde queres colocar a bola e partes para bater com convicção, ok?". E voltando-se para o árbitro (improvisado para aquele jogo), disse-lhe, piscando o olho: "Ele vai bater outra vez, porque o Delgado mexeu-se".

Com o coração a duzentos à hora, coloquei a bola na marca. A responsabilidade era muita, porque não queria desiludir o "King". Depois da atenção que ele tivera para comigo, não podia falhar. Corri e bati colocado, com força, e a bola anichou-se na baliza fora do alcance de Delgado. Eusébio olhou-me e disse: "assim é um penálti à jogador, já podes ir tomar duche", e despediu-se com um forte aperto de mão, momento que guardo com extremo carinho até hoje.

Esta história espelha a dimensão do "Pantera Negra". Eusébio esteve sempre consciente da sua grandeza, mas nunca deixou de fazer da humildade companheira. Transpirava futebol. Foi o expoente máximo do profissionalismo e em todos os momentos deixou a sua impressão digital.

Já em 1999 tive o prazer de o acolher no Luxemburgo. Acompanhado de João Malheiro, veio ao Grão-Ducado lançar o livro "Obrigado Eusébio", da autoria do conhecido jornalista e amigo íntimo do Pantera Negra.

Fiz a reportagem sobre o livro com o Eusébio e falei-lhe do episódio do penálti. Respondeu-me simpaticamente que tinha uma vaga ideia, reforçando com um sorriso: "Eh pá, vivi tantas histórias"...

Ficou-me para sempre gravada na memória uma das suas frases na nossa conversa de despedida, quando me disse perto do aeroporto: "Sabes, ser bom é também ser humilde. Nunca te esqueças".

Farei os possíveis por não esquecer. Obrigado, Eusébio, os grandes como tu são imortais!

Álvaro Cruz

Publicado no CONTACTO, a 8 de Janeiro de 2014.