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O Verão quente de Futre
Opinião Desporto 5 min. 24.06.2022
Futebol

O Verão quente de Futre

Em 1984 quando trocou o Sporting pelo FC Porto, Paulo Futre já era um valor seguro no futebol português.
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O Verão quente de Futre

Em 1984 quando trocou o Sporting pelo FC Porto, Paulo Futre já era um valor seguro no futebol português.
Foto: Guilherme Venâncio / Lusa
Opinião Desporto 5 min. 24.06.2022
Futebol

O Verão quente de Futre

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
A transferência do Sporting para o FC Porto em 1984 é um golpe de mercado sem precedentes em Portugal.

A Guerra das Estrelas entra nas salas portuguesas em Dezembro 1977. Sete anos depois, a imprensa portuguesa recupera o título da saga para acompanhar o folhetim de uma transferência improvável, a propósito de Futre, Paulo Jorge dos Santos Futre.

Ora bem, estamos em Julho 1984. Entre o Europeu e os Jogos Olímpicos, o desporto está em banho maria. Até que o Sporting se lembra de afiar as garras e atacar o FC Porto. O primeiro reforço é Jaime Pacheco. Taaaaau. Segue-se Sousa. Duplo taaaaaau. Os dois titulares na última final da Taça das Taças, vs Juventus, em Basileia, deixam-se seduzir pela proposta do presidente João Rocha. O movimento é rápido, o Sporting rejubila.

E o FC Porto? Fala-se muito, faz-se pouco. Passa um dia, dois, três. A imprensa especula com nomes. Litos é o primeiro. Depois já é Ademar. Finalmente, Jordão. Nenhum dos três, o alvo é Futre e a operação é cirúrgica. Lançado pelo checo Venglos ao intervalo do jogo vs Penafiel na jornada de abertura da 1.ª divisão, o esquerdino encanta pelos seus ziguezagues constantes. Os adversários vêem-se em palpos de aranha para o travar – só mesmo à base da canelada ou de luta livre. "Futre é como um boneco de Subbuteo, mal cai, já se está a levantar", como diria o argentino César Luis Menotti, seu treinador no Atlético Madrid.

Estamos em 1984. Aos 18 anos de idade, Futre já soma duas internacionalizações. Está lançado. É uma figura pública. Dá entrevistas engraçadas. Como uma ao jornal desportivo "Off Side". Melhor jogador de sempre: Chalana e Oliveira em Portugal; Maradona e Conti, lá fora. Jogador do futuro: Litos. Ídolo dos seus tempos de criança: O trio Oliveira-Manuel Fernandes-Jordão. Outros desportistas que admira: Björn Borg. A equipa ideal: Bento; Gabriel, Humberto, Eurico e Inácio; Carlos Manuel, Oliveira e Romeu; Jordão, Manuel Fernandes e Chalana. O melhor filme: Os Salteadores da Arca Perdida. O melhor estádio: Parque dos Príncipes, em Paris. O melhor hobby: Cinema. Comida preferida: Lombinhos de vitela e marisco. Clube de infância: Benfica.

Insistimos, 1984. Insistimos, Futre 18 anos de idade. Já é maior de idade. E é o maior. Eurico Gomes, central de gabarito, único a sagrar-se bicampeão pelos três grandes, dá o toque. "Conhecem-se histórias de detectives, sobretudo com o Futre... O futebol é adrenalina. Um frade nunca seria jogador de futebol e um futebolista não tinha capacidade para ser frade. O Futre talvez desse trabalho aos detectives [risos] mas também os dava aos adversários. Era um fenómeno. Conhecia-o dos meus tempos no Sporting, porque ele era júnior e, às vezes, treinava connosco. Quando cá em cima [Porto] me perguntaram por ele, disse-lhes que era um valor seguro. Em 1984, o Sporting equacionava emprestá-lo à Académica. E o FC Porto, através de um empresário galego, foi a Lisboa e trouxe-o para o Porto. Espécie de rapto. Consentido, claro".

Futre parte para o Porto na companhia de Domingos Pereira mais Alexandre Magalhães, portador do contrato, e esconde-se na casa do dirigente Álvaro Braga Júnior. No dia seguinte, Futre entra nas Antas. Triunfante, claro.

O empresário galego de que Eurico fala é Perez Andion, representante do FCP em Lisboa. Conta Futre. "Ganhava 70 contos [350 euros] por mês no Sporting e o FC Porto ofereceu-me 27 mil contos em três anos [134 mil euros] mais carro e casa. Falei com o Sporting e pedi-lhes 18 mil contos em três anos, 6 mil por ano. Eles disseram-me que estava louco e fui para o FC Porto, alegando falta de condições psicológicas. Aquilo que ainda hoje questiono é se o dirigente a quem pedi o aumento chegou mesmo a falar com o presidente João Rocha sobre as minhas exigências".

Qual dirigente? Armando Biscoito. Diz o homem em questão. "Deixei indicações na secretaria do Sporting para não aceitar nenhuma carta registada vinda do Futre e, assim, evitar a rescisão por razões psicológicas. Passados 25/26 dias recebemos uma carta registada da FPF e, para nosso espanto, lá dentro estava o documento, assinado pelo jogador, que tínhamos evitado receber. Tudo acabou. A FPF esteve, lamentavelmente, em conluio com Futre e com quem o contratou. Ainda fui ao Montijo com o advogado do Sporting, João Gaspar. Negociei com o irmão e os pais de Futre, avançando com uma verba a rondar os 18.000 contos (90 mil euros) por época, 1500 contos mensais (7.500 euros), mas nada feito".

Isso mesmo, nada feito. O telefonema de Pinto da Costa é decisivo. "Paulinho, aqui vais ser tu e mais dez". Futre parte para o Porto na companhia de Domingos Pereira mais Alexandre Magalhães, portador do contrato, e esconde-se na casa do dirigente Álvaro Braga Júnior. No dia seguinte, Futre entra nas Antas. Triunfante, claro. Treina bem e recolhe aplausos dos adeptos. "Não quero entrar em detalhes sobre as razões que motivaram a saída do Sporting. Lá, os jogadores de fora é que são bons, aos da casa exige-se que joguem por amor à camisola. Se lhes dissesse quanto ganhava no Sporting, ainda corria o risco de me chamarem mentiroso".

Alguém lhe pergunta sobre a família. "A minha mãe ficou um pouco desolada por ter deixado o Sporting, mas já lhe telefonei e agora está tudo bem". Muitos anos depois, Futre acabaria até por desabafar. "Os meus pais é que sofreram com a troca Sporting-FC Porto. A sua privacidade era constantemente ameaçada. Partiam vidros das janelas, batiam à porta, telefonavam a horas escandalosas. Talvez por isso, não sei, estou a especular, a minha mãe nunca me viu jogar ao vivo".

Outro jornalista deixa-o a pensar: está a dar um passo em frente na carreira? "Não vou dormir à sombra dos louros conquistados no Sporting. Vou trabalhar para ser melhor, melhor e melhor". E está certo. Em três anos de FCP, ganha dois campeonatos nacionais, duas Supertaças portuguesas e uma Taça dos Campeões, com um total de 33 golos em 115 jogos (o Sporting nada ganha nesse período). Quando sai das Antas, em 1987, enche os cofres do FCP com 630 mil contos do Atlético Madrid de Jesus Gil y Gil. E isso é outro filme. Da mesma saga.

(Autor escreve de acordo com a antiga ortografia.)

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