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O treinador que faltava aos jogos
Desporto 7 min. 18.09.2021
Rui Miguel Tovar

O treinador que faltava aos jogos

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O treinador que faltava aos jogos

Foto: Lusa
Desporto 7 min. 18.09.2021
Rui Miguel Tovar

O treinador que faltava aos jogos

Rui Miguel Tovar
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Paulo Emílio é contratado pelo Sporting em 1977 e sai de cena antes do Natal por faltar a quatro jogos (Riopele, Marítimo, Estoril e Benfica).

Há casos do arco da velha. Como este aqui de Paulo Emílio, um treinador brasileiro contratado pelo Sporting de João Rocha para travar o Benfica, de olho no tetra em 1977-78. Com um currículo admirável, entre 51 jogos sem derrotas na Desportiva de Espírito Santo em 1967 e o título de campeão carioca pelo Fluminense em 1975, o bom do Paulo aterra em Lisboa para acabar com a seca de títulos. À falta de resultados convincentes juntam-se faltas de comparência. Valores mais altos se levantam. A mulher de Paulo Emílio que o diga. E Artur Correia também.

Há casos do arco da velha, parte 2. Como este aqui de Artur Correia, mais conhecido como ruço. Sim, ruço – com cedilha em vez de dois esses. É um benfiquista dos sete costados. Corre-lhe nas veias. “Sou sócio do Benfica desde que nasci.” Na Luz, colecciona títulos de campeão. Ao todo, cinco. Um deles é daqueles para a história, sem qualquer derrota, entre 26 vitórias e dois empates (1972-73). Quando celebra o tri, em 1977, dá-se o impensável e Artur salta para o “outro lado da Segunda Circular”.

“Nunca pensei jogar naquela equipa [Sporting], mas o Benfica mandou-me embora. Na prática, foi assim. Durante seis anos [de 1971 a 1977] estive sempre a ganhar o mesmo: 34 contos por mês. Em 1974, o presidente Borges Coutinho prometeu-me 500 contos e uma festa de homenagem quando renovasse o contrato, em 1977. Ora, em 1977 fomos campeões, com o Mortimore, e o Romão Martins [director-desportivo do Benfica] ofereceu-me uma festa de homenagem de 200 contos e 27 contos de ordenado. Onde é que já se viu passar de 34 para 28 contos? Como é possível baixar de ordenado? Ameacei com a saída e disseram-me que, como eu era benfiquista, nunca sairia. Mas estavam a empurrar-me para fora do meu clube e saí. O João Rocha apanhou-me descontente e fui parar ao outro lado da Segunda Circular.”

Um pentacampeão do Benfica a jogar no Sporting? Isso é histórico. A mudança não é completamente pacífica. Nunca é. “No início, ainda fazia a minha vida normal. Mas depois já não dava. Entrava num restaurante, num bar, num café, numa loja qualquer, até a andar na rua, e ouvia as pessoas a falarem de mim à minha volta. Ouvia muitas coisas, a mais suave era ‘traidor’. A partir de certo momento, a minha vida começou a ser casa, treino, casa, jogo, casa.” Para apimentar a coisa, o sorteio dá um Sporting-Benfica a abrir o campeonato. Veja-se só a coincidência, hein?!

“Na altura, a equipa visitante entrava primeiro em campo, depois os árbitros e no fim a equipa da casa. Quando entrei e vi aquelas camisolas vermelhas do outro lado, até fiquei confuso. E triste. Como lateral-direito, tive de marcar o Chalana. Um tipo cinco estrelas. E um jogador admirável. No Benfica só tinha que o defrontar nos treinos. No Sporting, estava ali à minha frente. Quando o jogo começou, voltei-me para ele e disse-lhe “não te ponhas para aí com coisas, que eu perco a cabeça e levas uma paulada”, e ele responde-me “ó ruço, não há problema, estamos em família”. 

Logo na primeira jogada, passou-me a bola entre as pernas. Era a pior coisa que me podiam fazer. Depois [aos 8’] há um canto e… golo do Benfica, foi o Chalana de cabeça. Voltei-me para ele e disse-lhe “agora estás tramado” e o Chalana só me dizia “ó ruço, foi sem querer, a bola bateu-me na cabeça…” E por acaso tinha sido. Mas o Fraguito empatou [aos 20’] e ninguém perdeu.”

Nessa época 1977-78, o Sporting não é campeão. Nem o Benfica. É o FC Porto de Pedroto, que interrompe uma seca de 19 anos. A Taça de Portugal, essa, voa para o Sporting. Numa final polémica com o FC Porto. O treinador sportinguista é Rodrigues Dias, adjunto de Paulo Emílio. Nascido na cidade mineira de Espera Feliz, e campeão em cinco estados (Espírito Santo, Amazonas, Pernambuco, Bahia mais Rio de Janeiro), o brasileiro é contratado por João Rocha para travar o Benfica mas não está para aí virado. 

Ao empate na estreia, com o Benfica, seguem-se duas vitórias com chapa 5 (Académica em Coimbra, Braga em Alvalade). À quarta jornada, o Vitória troca as voltas ao Sporting (2-1). A isto, junta-se a eliminação na Taça UEFA, à primeira, culpa de um Bastia fortíssimo. A estrela de Paulo Emílio empalidece e tudo piora com o 3-0 nas Antas. Há uma nuvem negra. O 5-0 ao Feirense desanuvia o ambiente ligeiramente e segue-se a polémica viagem até ao Parque Dias de Oliveira, em Pousada de Saramagos, ali no Minho.


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É a casa do recém-promovido Riopele, treinado por Ferreirinha (pela sexta época seguida). E o Sporting treinado por Paulo Emílio. Ou não? Tem a palavra Artur Correia. “Ele quis levar a mulher para conhecer o Minho e esqueceu-se das suas obrigações. Na manhã do jogo, nada do treinador. Almoçámos e nada do treinador. Fomos para o jogo e ele continua desaparecido em combate. O Manuel Marques, chefe do Departamento de Futebol, lá me disse para orientar a equipa. Ao intervalo estávamos a perder 2-1. Fiz uma substituição [entrada de Baltasar e saída de Cerdeira] e ganhámos 3-2. No final do jogo apareceu o treinador com uma conversa do género: ‘Não há problema, eu sabia que vocês ganhavam.’ Fez uma brincadeira igual na semana seguinte, na Madeira [4-0 ao Marítimo]: levou a mulher e faltou ao jogo.”

Atento aos acontecimentos, o presidente João Rocha deixa a água correr por debaixo da ponte. Pelo menos até Dezembro, altura em que o campeonato pára durantre quatro semanas e o Sporting está estacionado no terceiro lugar, a quatro pontos do invicto Benfica. Então o impensável acontece. Paulo Emílio faz as malas e vai para o Brasil. Falha assim o compromisso dos jogos da Taça de Honra, com Benfica, Belenenses e Estoril. É-lhe instaurado um processo disciplinar. “Tudo um equívoco”, diz o brasileiro. “Disse adeus, até ao meu regresso. Vou voltar. Não sou nenhuma criança, tenho 41 anos.” Voltará? 

Na terça-feira, dia 27 Dezembro, o Sporting emite um comunicado bem explícito. “A direcção considerou que a atitude do treinador Paulo Emílio ao deslocar-se ao Brasil, após ter sido negada autorização para o efeito, constitui grave infracção contratual atentória dos legítimos interesses do clube pelo que resolveu confiar o assunto ao seu advogado.” Significativamente, o texto remata assim. “No prazo de 48 horas, será emitido um comunicado final sobre o caso.”

Passadas as tais 48 horas, o Sporting demite Paulo Emílio no dia em que perde a Taça de Honra para o Benfica após um carrossel de 16 penáltis, no Restelo, onde um adepto invade o campo e desata ao murro com Botelho, guarda-redes que defendera a grande penalidade do benfiquista Vítor Martins, ainda durante o tempo regulamentar. Sem Taça nem treinador, o Sporting acaba o dia com o último comunicado sobre o caso do momento. 

“Em face da apreciação de todas as circunstâncias, designadamente a recusa para aquele técnico se ausentar numa época em que a equipa principal se encontra embrenhada na discussão de um título oficial, na linha, aliás, do procedimento idêntico desde sempre seguido por futebolistas brasileiros, concluiu-se pela existência de fundamentos para a decisão da rescisão de contrato de Paulo Emílio. Aproveita-se o ensejo para lamentar a distorção da verdade que resulta das afirmações repetidamente produzidas por aquele treinador sobre a matéria em questão.”

Uma semana depois, a 5 Janeiro 1978, Paulo Emílio assina pelo Goiás, sem sequer ter assinado a carta de rescisão do Sporting. Em Alvalade, o brasileiro é substituído por quem? Artur Correia? Não, esse continua a jogar (e bem) a lateral-direito. A partir daí, o homem do leme é Rodrigues Dias, vencedor da Taça de Portugal (2-1 ao FC Porto, na finalíssima).

(Autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.)

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