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O sonho português que um miúdo do Luxemburgo pode realizar hoje

O sonho português que um miúdo do Luxemburgo pode realizar hoje

O sonho português que um miúdo do Luxemburgo pode realizar hoje

O sonho português que um miúdo do Luxemburgo pode realizar hoje


por Álvaro CRUZ/ 05.09.2019

Dany Mota nasceu no Luxemburgo, tem Cristiano Ronaldo como ídolo, e desde pequeno que sonha com a seleção portuguesa. Hoje, o jogador da Juventus pode estrear-se nos sub-21 com a camisola das quinas. A família explica o que ele andou para aqui chegar.

“Ele ligou-me e disse-me: Pai vai ver a convocação dos sub-21 de Portugal e depois diz-me o que achas”, conta José Ramiro. “Quando vi o nome do meu Dany, meu Deus, que alegria... liguei logo à minha mulher para lhe dar a novidade”, diz emocionado.

“Sabíamos que este era um dos grandes sonhos dele e, naturalmente, ficámos radiantes. Nem tenho palavras para explicar o que senti, até chorei de alegria”, lembra Conceição.

DR

 A viver um conto de fadas, os pais, José Ramiro e Conceição Mota, contaram ao Contacto como o miúdo tímido, mas forte, foi concretizando os seus sonhos.

“Olho para a vida do meu Dany e ainda ainda nem acredito no que está a acontecer. Tem sido tudo tão rápido. Estou muito feliz e orgulhosa do meu filho”, diz Conceição, mãe do jovem lusodescendente que nasceu no Luxemburgo e foi chamado para representar a seleção portuguesa de sub-21 que defronta hoje a congénere de Gibraltar e no dia 10 a da Bielorrússia.

Filho mais novo de uma família de futebolistas

Filho mais novo de três irmãos futebolistas, Dany, que completou recentemente 21 anos, foi o que chegou mais longe. Rui, o mais velho, jogou em clubes como o Pétange, Bertrange e Rodange, enquanto Renato, o do meio, esteve no Sanem, mas últimamente tem-se dedicado ao futsal em clubes com o Union Titus Pétange e o RAF Team. A chamada de Dany à seleção veio mexer com a família e com os amigos – nesta casa o telefone não para de tocar.

“Estou sempre a receber os parabéns. Uma amiga até me disse em tom de brincadeira 'então tens um filho famoso e não dizes nada? Qualquer dia estás como a Dolores, a mãe do Ronaldo'”, atira com uma gargalhada.

“O futebol foi sempre a coisa mais importante na vida dele”, enfatiza o pai. “Dos três irmãos, é o que sempre teve maior paixão pela bola. Todos eles gostavam muito de jogar mas, para o Dany, o futebol era tudo”, vinca.

Para o Dany, o futebol era tudo.

Benfiquista assumido desde pequeno, não perdia um jogo da na televisão. Mas quando os encarnados perdiam, desaparecia de vista.

“Ele sofria muito. Trancava-se no quarto e até chorava”, recorda José Ramiro.

Jogou em Lisboa e brilhou

“Uma vez ele esteve em Lisboa e foi convidado para jogar num torneio internacional. Eram muitas equipas e mais de mil jogadores. No final, ficou entre os 20 melhores. Quando chegou a casa disse-nos: ’Se fui distinguido entre tantos jogadores é porque tenho algum valor’. Acho que foi a partir desta altura que ele meteu na cabeça definitivamente que queria ser jogador profissional”.

Aluno aplicado, Dany dividia escola e futebol, sem causar problemas de maior aos pais.

Dany Mota (à direita) com os pais e os irmãos
Dany Mota (à direita) com os pais e os irmãos
DR

“Foi sempre um menino tranquilo. Não tinha más notas, mas não participava nas aulas porque não gostava muito de falar”, precisa a mãe.

A sua conversa era com a bola. “Nem ligava aos carrinhos. Tinha um saco com soldadinhos que alinhava e, com bolas pequenas, tentava derrubá-los e passar a bola entre eles”, recorda.

Experiência negativa nas seleções jovens

Por volta dos 11 anos começou a jogar nos campeonatos luxemburgueses pelo CS Pétange e deu nas vistas. Além do clube, passou a integrar os treinos das seleções jovens luxemburguesas, mas não se sentia feliz.

“Muitas vezes chegava a casa zangado porque não jogava na seleção. Reclamava porque estava sempre nos treinos e alguns dos jogadores que faltavam acabavam por jogar e ele não. Considerava uma injustiça e revoltava-se”, recorda a mãe.

De jogador infeliz na seleção, passou a influente no CS Pétange. Ainda com idade de juvenil integrou a equipa principal sénior e deu nas vistas. Muitos dos principais clubes luxemburgueses quiseram contratá-lo, mas acabou por ir para o Virtus Entella, equipa da Série B italiana, com apenas 16 anos –pela mão do agente Celso Duarte.

“Sofri muito nessa altura. Foi uma grande mudança na vida dele e na nossa também porque nós somos muito chegados”, recorda a mãe. “Disse-lhe que ele iria enfrentar muitas dificuldades sozinho, mas como sempre o apoiámos, era importante que ele seguisse o coração e concretizasse o sonho de tentar chegar a profissional. Felizmente, as coisas correram bem.”

Pedi três dias de férias”, diz a mãe. Ramiro não precisou porque já está reformado. Os pais de Dany vão a Lisboa vê-lo jogar contra Gibraltar.

O pai, José Ramiro, nunca teve dúvidas sobre as qualidades do filho: “Se hoje ele está na Juventus, deve a ele próprio. O Dany sempre soube o que queria e lutou por alcançar os objetivos. Acompanhei-o na grande maioria dos jogos e sei que ele tem muita qualidade. Tenho a certeza que vai chegar longe, ele é muito determinado.”

A vida não é só bola e Ramiro também reconhece no filho qualidades fora de campo: “Sempre foi honesto, educado e respeitador. Acredito que mesmo que um dia venha a ganhar milhões, vai continuar a ser o mesmo miúdo humilde de sempre.”

Conceição Mota e José Ramiro vão a Lisboa ver o seu ’mais que tudo’ jogar contra Gibraltar e já contam as horas para apanhar o avião.

“Pedi três dias de férias”, diz a mãe. Ramiro não precisou porque já está reformado. O pai sonha com o primeiro golo do filho com as ’quinas’ ao peito e aproveitou para evocar os dois primeiros tentos que Dany marcou ao serviço da Juventus, no domingo, frente ao Siena: “Que golos. Então o pontapé de bicicleta... até me faltou o ar”, disse, olhando para a mulher que não conseguia esconder as lágrimas.

“Oxalá corra tudo bem. Ele merece. É o meu menino”, diz uma mãe muito babada.

Irmão mais velho vai ter casa cheia para ver a estreia de Dany contra Gibraltar

Rui Mota, irmão mais velho de Dany, já convidou o irmão Renato e vários amigos para assistirem juntos ao jogo dos sub-21 Portugal – Gibraltar. E a festa promete.

“Hoje tenho lotação esgotada lá em casa para vermos o jogo. Espero que o Dany jogue e marque. Se marcar, vai ser uma festa de arromba. O meu irmão merece tudo, é um rapaz incrível e humilde”, sublinha.

“Desde criança que é louco pelo futebol. Ainda pequeno, jogava com rapazes muito mais velhos. Ele não desistia, queria era jogar”, lembra.

Benfiquista tal como Dany, Rui recorda a rivalidade com o irmão Renato, que é do Sporting.

“Quando éramos mais pequenos discutíamos por causa dos clubes, mas hoje já não – apesar do Dany ser ’doente’ pelo Benfica. Estou convicto de que ele vai realizar o sonho de vestir, um dia, de águia ao peito. Está num dos maiores clubes do mundo e ainda é muito novo, mas todos sabemos que o grande sonho dele é jogar pelo Benfica. Aposto que vai conseguir.”

Treinador referência e grande amigo de Dany

Daniel Flammang foi treinador de Dany no CS Pétange durante alguns anos, nas camadas jovens. Foi também amigo e confidente e hoje orgulha-se pelo percurso do seu pupilo.

“Estou muito feliz pelo Dany. Foi sempre um miúdo incrível. Era uma apaixonado pelo futebol. Conheci-o desde pequeno e desde cedo vi nele qualidades excecionais”, recorda.

José Ramiro e Conceição Mota, pais de Dany Mota, têm sido um apoio importante na vida do filho
José Ramiro e Conceição Mota, pais de Dany Mota, têm sido um apoio importante na vida do filho
Foto: Álvaro Cruz

“Treinei-o vários anos e acompanhei a evolução das suas qualidades. Era muito forte fisicamente, tinha grande velocidade e um remate bastante forte. Deu nas vistas, naturalmente. Um dia, fui com ele e o pai fazer testes ao FC Metz, em França. Eles quiseram logo ficar com ele, mas eu disse-lhe que ainda era cedo, que precisava melhorar em vários aspetos e ele ouviu-me”, recorda emocionado.

“Aliás, o Dany tinha essa qualidade de saber ouvir. Era humilde, simples e muito dedicado. Não me espanta que tenha chegado a um grande clube europeu e à seleção portuguesa. Estou muito feliz por ele e auguro-lhe um grande futuro. Quando vem ao Luxemburgo, encontramo-nos e falamos bastante. Não é vaidoso e é amigo dos seus amigos. Fico muito feliz por o ter ajudado a crescer como jogador e homem e espero que possa chegar o mais longe possível”, remata.

Hoje, Dany Mota pode escrever mais uma bela página da sua história.