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O regresso do Canibal
Desporto 2 6 min. 10.07.2019

O regresso do Canibal

O regresso do Canibal

Foto: AFP
Desporto 2 6 min. 10.07.2019

O regresso do Canibal

Telma MIGUEL
Telma MIGUEL
Em 1969, Eddy Merckx venceu a sua primeira Volta a França e desde então o mundo do ciclismo não parou de evoluir. O facto de ele ainda ser considerado o maior ciclista de sempre dá conta dos seus feitos. No passado fim-de-semana, com o Grand Départ em Bruxelas, os belgas prestaram homenagem ao Canibal.

Na biografia Metade Homem, Metade Bicicleta, o jornalista inglês William Fotheringham descreve-o observando uma cena do documentário La Course en Tête. “Merckx é um ícone de estilo, mas dos anos 70: as patilhas e as maçãs do rosto, combinadas com as suas camisolas de gola alta, fatos bem talhados, golas largas. Ele é um dos poucos homens que alguma vez ficaram bem de calças à boca de sino”.

A sua boa imagem, uma mistura de Alain Delon e Elvis Presley sobre duas rodas, e os feitos gloriosos não fizeram dele um tipo vaidoso. Introspetivo e tímido, Merckx entregou à mulher, desde cedo, as relações com a imprensa. E embora, nos anos em que ganhava quase todas as provas (uma média de quase uma em cada três), já fosse considerado um atleta soberbo, o belga raramente perdia a concentração e rigidez. “Tornou-se um divertimento para os jornalistas procurar fotos em que Merckx surgisse a sorrir”, escreve Fotheringham.

Eddy Merckx, em 1999
Eddy Merckx, em 1999
Foto: Arquivo Luxemburger Wort

No final de 1997- 20 anos após ter ficado siderado com o relato ouvido no rádio do pai de um dia da Volta à França - , Fotheringham encontra-se com Merckx em Bruxelas. Duas coisas não esperava. O facto de, tendo chegado num voo atrasado, ser o próprio ciclista, e não alguém por ele, quem o esperava no aeroporto de Zaventem, sem dar sinais de impaciência. E o rosto de Eddy Merckx que pairava acima de toda a gente, mais alto do que seriam os padrões de um ciclista dos anos 70, e, aparentemente, sem ser reconhecido pela multidão.

Embora gozando menos do estatuto de celebridade, o biógrafo de Merckx e jornalista do Observer e do Guardian compara-o a outras estrelas: Mohamed Ali, Pelé, Ayrton Senna, George Best. Desportistas que o tempo não tira de uma espécie de Olimpo. Mas ali em Zaventem ele passava despercebido. Um super desportista na reforma que iria encontrar-se com um fã e biógrafo cujo intuito era perceber não só como Merckx tinha alcançado o que alcançou, mas o porquê de tantas vezes se ter superado no limite da resistência física e psicológica. A resposta que Merckx dava constantemente, “por paixão”, não lhe parecia suficiente.

O maxilar desfeito a seis dias do fim

No Tour de France de 1975 (depois de já ter ganho cinco), Merckx continua a correr através dos Alpes após ter desfeito o maxilar superior numa queda e perante a súplica do médico da equipa para que parasse. Merckx, desfigurado, não iria ganhar a Volta. Nesse primeiro dia de seis, após uma corrida intensa, a tremer de dores, nem Merckx conseguia explicar às câmaras de televisão porque continuava a pedalar. “O estoicismo do homem que dominara o ciclismo durante sete anos era uma maravilha de contemplar”, afirma Fotheringham. Acabaria por abandonar as competições só em 1978, com 32 anos, após uma série de complicações de saúde.

Há recordes na carreira de Merckx que meio século depois ainda não foram batidos. A década entre 1967 e 1977 é conhecida como a ‘era Merckx’, de tal forma o belga foi uma figura dominante. Venceu 445 das 1585 de todas as provas em que entrou, quase um terço. Ganhou cinco vezes a Volta a França e a Volta a Itália e uma vez a Volta a Espanha, um total de 11 vitórias que ainda não foi ultrapassado. Pisou 34 vezes um lugar no podium no Tour e tem o recorde do maior número de dias com a camisola amarela na Volta a França: 96.

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Citado pelo Velo News, o antigo ciclista e agora director da volta à Flandres, Scott Sunderland, acredita que os feitos de Merckx são atualmente insuperáveis, mesmo com todo o avanço da tecnologia e da ciência. Também Merckx era um desportista ‘avant garde’ : “Com o que comia, como treinava, como encarava a competição. O que ele fazia estava anos à frente dos outros”.

E também na determinação, ele era um fora de série. Uma vontade de ganhar a todo o custo, que fez com que a filha de um ciclista da sua equipa lhe atribuísse a alcunha de Canibal. O seu estilo era o de atacar sempre, seguir à cabeça do pelotão, o que ficaria conhecido como “la course en tête”.

No passado fim-de-semana, com a capital da União Europeia virada do avesso e sem trânsito para os dois dias de partida da Volta à França, milhares de pessoas vestiam a camisola amarela com um “Je suis Eddy” gravado. Um feito também ele notável, tendo em conta o relativo desinteresse que os belgas dedicam aos seus ícones. Com 74 anos, Merckx, que nos últimos tempos é o responsável pela improvável volta em Omã e no Qatar, abriu cortejos, apareceu na rádio e na televisão e era ele a cara do Grand Depart, com bandeirinhas por toda a cidade. “As pessoas começam a perceber o que Merckx realmente alcançou”, resume Sunderland.

Édouard Merckx nasceu na vila de Meensel-Kiezegem, a 17 de Junho de 1945. Com a Bélgica já liberta da ocupação nazi, um ano depois os Merckx mudam-se para a capital para tomar conta de uma mercearia no pacato bairro de Woluwe-Saint Pierre. É aí que nasceriam as duas gémeas da família.

As voltas do Médio Oriente

Desde que começou a pedalar como amador, Eddy decidiu que o ciclismo seria o seu ganha-pão. Com 19 anos, em 1965, torna-se profissional e a primeira grande vitória surgiria apenas um ano mais tarde, em Itália, na prova Milão-San Remo. Ao mesmo tempo que entrava no ciclismo profissional, Merckx começou a namorar a filha do treinador da equipa nacional de ciclistas amadoras. Casaria cinco anos depois com Claudine Acou. Em 1970, nasceu a primeira filha do casal, Sabrina, e mais tarde, Axel, que também se tornaria ciclista profissional.

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Após abandonar as corridas, Merckx criou uma marca de bicicletas para profissionais com o seu nome, a Eddy Merckx Cycles, fabricadas na Bélgica e testadas por ele. Embora tenha abandonado a direcção da empresa e vendido quase todas as ações, continuou a ter funções de consultor na produção de novos modelos. Num desenvolvimento surpreendente na sua atividade como embaixador do desporto, Merckx foi o impulsionador da Volta ao Qatar, que arrancou em 2002. Neste momento, ele é o co-proprietário de duas corridas no Médio Oriente; a do Qatar e a de Omã. De uma maneira ou de outra, desde que ganhou a primeira bicicleta com quatro anos, a sua vida foi dedicada ao ciclismo.

Em 1996, o Rei dos Belgas, Alberto II, deu-lhe o título de barão; em 2011, o presidente Sarkozy atribuiu-lhe a legião de Honra do Estado francês; a Itália, onde ganhou cinco ‘Giros’, fê-lo Cavalieri.