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O refugiado que chegou à Europa de barco e joga futebol no Luxemburgo

O refugiado que chegou à Europa de barco e joga futebol no Luxemburgo

Cartoon: Florin Balaban
Desporto 7 min. 21.03.2018

O refugiado que chegou à Europa de barco e joga futebol no Luxemburgo

Alvaro Antonio SILVA DA CRUZ
Alvaro Antonio SILVA DA CRUZ
Yao Kanouté (nome fictício) deixou a Guiné-Conacri aos 12 anos, à revelia dos pais, com o sonho de ser futebolista profissional. Esteve pouco mais de um ano numa Academia na Costa do Marfim, mas passou por outros países africanos e acabou por desembarcar na Europa, três anos depois. Agora joga no Luxemburgo, mas o sonho de ser jogador profissional e disputar o Campeonato Africano das Nações (CAN) mantém-se vivo.

“O meu maior sonho é um dia poder representar, como jogador profissional de futebol, a Guiné-Conacri no Campeonato Africano das Nações”, diz Yao Kanouté (nome fictício) com os olhos brilhantes.

E foi este sonho de criança que o fez deixar a sua Guiné natal, com 12 anos apenas e à revelia dos pais. Fugiu para a vizinha Costa do Marfim, onde integrou por pouco mais de um ano uma Academia para jovens jogadores. Aqui começava a sua odisseia.

Depressa percebeu que nem tudo iria correr como pensara. As ilusões que levava na cabeça de menino não corresponderam às suas expetativas imediatas: “As academias em África não são como na Europa. Há um mundo de diferenças em todos os aspetos. Os campos e as condições de treino não se podem comparar. Aqui, muitos clubes têm campos sintéticos e material de treino como os clubes profissionais. E já nem falo da organização e das condições de vida. Lá, muitos dos campos nem são relvados e, dos que são, muito estão mal tratados. Os alojamentos deixam muito a desejar e falta comida. Só as academias que são patrocinadas por grandes clubes europeus é que oferecem melhores condições, mas são inacessíveis. As outras só dão para ir construindo o sonho – como o meu e de muitos milhares de miúdos em África que não têm nada – de poderem vir a ser profissionais e ter uma vida melhor”, conta com amargura.

Entretanto, os pais insistiam para que Yao regressasse a casa, mas, apesar das dificuldades, o futebol continuava a ser tudo para ele. Depois da Costa do Marfim, o menino chegou conforme pôde ao Gana e, três dias mais tarde, ao Togo. E enfrentou mais obstáculos: “Jogava nas academias de bairro e, apesar de me dizerem que era bom jogador, nunca recebi uma proposta concreta de clubes conhecidos. Queria muito ir para uma academia no Gabão, um país do qual saem muitos jogadores para a Europa, mas nunca consegui. Os treinadores diziam que ainda não estava pronto para dar o salto, mas eu continuava a sonhar”, relata o jovem, agora com 19 anos.

Para lutar contra a desilusão, sempre que podia Yao assistia com os amigos a alguns dos jogos dos principais campeonatos europeus. E o sonho de ser profissional voltava a ganhar força com as imagens do sucesso de alguns jogadores africanos em equipas conhecidas do velho continente. “Cada jogo na televisão era uma festa”, confessa, a sorrir. “Assim que acabava, íamos todos jogar até a noite cair e tentar imitar, na rua, as fintas, os dribles e os golos dos craques da televisão”, recorda com nostalgia.

Sofrer, sofrer, sofrer

Ao sofrimento no Togo seguiu-se mais sofrimento pela causa do futebol. Viajou para o Benim, enfrentando calor, frio, solidão e fome, num caminho que haveria de levá-lo ao Níger e à Nigéria. Passou a trabalhar para assegurar dormida e alimentação. Trabalhava onde calhava, nas condições mais difíceis e com horários de exploração. Mesmo assim, ainda encontrava energias para jogar em torneios organizados por empresários locais que prometiam levar os jovens para a Europa. Juntava todo o dinheiro que podia dos biscates que lhe apareciam. Nada era fácil, mas, bem no fundo de si mesmo, mantinha o sonho, apesar dos obstáculos.

“Tinha dias em que desanimava e pensava em regressar a casa para junto dos meus pais e do meu irmão”, admite. “A escola foi deixada para segundo plano e a vida era feita de poucos altos e muitos baixos”.

Certo dia, destacou-se num dos jogos em que participou e um empresário propôs-lhe ir jogar para a Líbia, com o pretexto de que lá apreciariam as suas qualidades de esquerdino. Foi instalado numa zona de Trípoli, capital da Líbia, mas voltou a deparar-se com situações inesperadas. As condições pouco ou nada melhoraram e, além dos treinos e alguns jogos que fazia “por uns trocos”, voltou ao trabalho duro, desta vez numa empresa para perfuração de poços de água.

“Andava sempre com a mesma roupa no corpo e dormia, muitas vezes, em casa de amigos, até que depois encontrei uma casa para jovens”, explica. “O meu objetivo era chegar à Europa. Foi na altura em que os barcos de migrantes começaram a partir com regularidade para Itália. Tinha de deixar aquela vida de saltimbanco entre os jogos de futebol, num trabalho precário e com condições de vida miseráveis”, conta, em tom de revolta.

Barco ao fundo

Foi por intermédio de um amigo que conheceu um ’passador’. Garantiu a travessia do Mediterrânio para Itália pelo equivalente a 400 euros, em dinares argelinos, mas a ’aventura’ foi rocambolesca: “Quando cheguei à praia, a alguns quilómetros de Trípoli, ao entardecer, já lá estava muita gente. Vi a embarcação, um conjunto de pneumáticos com tábuas à volta e um motor. Fiquei cheio de medo! Perguntava-me como iríamos caber todos, porque não havia espaço para mais de 40 pessoas, mas éramos 89, entre homens, mulheres e algumas crianças”, sublinha.

“Ninguém escondia o medo e o nervosismo. Havia os riscos de atravessar todo o Mediterrâneo num barco frágil e muitas incertezas. Por exemplo, como seríamos recebidos do lado de lá?

Mas a ansiedade por chegar a um novo mundo deu-nos forças e lá partimos como sardinhas em lata”, recorda, como se as imagens estivessem a desfilar à sua frente.

Fizeram-se ao mar, que estava ’picado’ e dificultava a navegação da embarcação com a rebentação das ondas. “Logo nos primeiros instantes ficámos encharcados”, lembra, arrepiando-se ao mesmo tempo. Mas ainda vinha aí maior drama. “Quando tudo parecia correr bem, a cerca de 600 metros da praia, a embarcação partiu-se ao meio e naufragámos. Foi o pânico geral! Felizmente que os dois condutores do barco tinham experiência naquelas situações, agarrámo-nos aos pneumáticos e às tábuas e voltamos para a praia.”

Havia muito trabalho para fazer. “Levámos a noite toda para reparar o barco. Exaustos, voltámos ao mar nas primeiras horas do dia seguinte. Navegámos o dia inteiro, sempre com sobressaltos, enjoos e vómitos. Era noite quando chegámos a uma praia italiana, escoltados pela marinha, que foi ao nosso encontro já perto da costa”, conta.

“A Cruz Vermelha e a polícia foram receber-nos. Vendo o estado em que estávamos, deram-nos comida e bebidas, colocaram-nos em autocarros e levaram-nos para um hotel, onde ficámos alguns dias”, relembra.

A estadia de Yao em Itália foi curta, mas apreciada. Passou pela Catânia, na Sicília, e depois por Roma, que considera a cidade “mais linda” que já viu. O caminho ainda não chegara ao fim. Nem as dificuldades. Depois de Roma, apanhou o comboio para Nice e foi a até Marselha, onde passou a noite. Na manhã seguinte viajou para Metz, cidade que escolheu como destino final. Estava-se em abril de 2014.

Em Metz foi à polícia pedir ajuda e colocaram-no num centro de acolhimento, onde esteve cerca de dois anos como requerente de asilo e transferiu-se para um lar, no qual é independente. Aqui retomou os estudos e está na via profissional de um curso de construção civil. Além das aulas, participa em trabalhos específicos nesta área.

Nos dois últimos anos jogou em pequenos clubes de Metz e prestou provas na academia do principal clube da cidade francesa, o FC Metz. “Disseram-me que gostaram e que me iriam contactar, mas até hoje, nada”, resume.

Aposta no Grão-Ducado

Até que, em julho de 2017, pela mão de um amigo, veio ao Luxemburgo prestar provas e agradou aos responsáveis de um dos maiores clubes do país.

Atualmente, integra a equipa de sub-19 desse clube e diz-se muito feliz: “Tem sido uma experiência bastante agradável. Fomos campeões e disputámos a Youth League com o Sparta de Praga, uma das melhores equipas europeias de jovens. Apesar de termos sido eliminados, foi uma sensação muito boa participar na minha primeira prova europeia de renome. Cumpri o desejo de estar entre os melhores e jogar com clubes de referência. Agora já me sinto mais jogador”, reconhece, com a alegria espelhada no rosto. Mas o futuro ainda é uma incógnita. Yao Kanouté continua a fazer o trajeto entre Metz e o Luxemburgo cinco vezes por semana, à espera da passagem para o campeonato sénior. Garante que, caso tenha boas condições, está disposto a permanecer no Grão-Ducado e provar que tem qualidade para chegar longe.

“Gosto do Luxemburgo. É um país tranquilo e com bom nível de vida. Aqui fui sempre bem tratado. Acredito que posso jogar no principal campeonato, chegar às competições europeis e provar o meu valor. Depois de todas as dificuldades que vivi, renovei as minhas forças e desejo, cada vez mais, cumprir o sonho de me tornar profissional e representar o meu país no Campeonato Africano das Nações”, remata.

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