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O que aconteceu a Peng Shuai? O estranho fenómeno das pessoas que desaparecem na China
Desporto 6 min. 23.11.2021
China

O que aconteceu a Peng Shuai? O estranho fenómeno das pessoas que desaparecem na China

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O que aconteceu a Peng Shuai? O estranho fenómeno das pessoas que desaparecem na China

Foto: AFP
Desporto 6 min. 23.11.2021
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O que aconteceu a Peng Shuai? O estranho fenómeno das pessoas que desaparecem na China

Ana Patrícia CARDOSO
Ana Patrícia CARDOSO
A tenista Peng Shuai reapareceu no fim de semana, após semanas sem dar notícias. Diz estar bem e quer privacidade, mas as circunstâncias do seu afastamento continuam por explicar.

Para quem segue os campeonatos de ténis mundial, Peng Shuai não precisa de apresentação. A tenista chinesa, de 35 anos, já foi número um mundial na categoria de pares e, na categoria individual, chegou a uma semifinal do Open dos Estados Unidos, em 2014. Poderia ser conhecida apenas pela carreira de sucesso na modalidade mas o seu nome tem circulado nas notícias em todo o mundo por outra razão. 

No início de novembro, Peng Shuai desafiou o status quo do poder chinês ao acusar Zhang Gaoli, antigo vice-primeiro-ministro da China, de abuso sexual. A revelação foi feita nas redes sociais, através do Weibo (rede social chinesa semelhante ao Twitter). "Sei que alguém como sua eminência, o vice-primeiro-ministro Zhang Gaoli, dirá que não tem medo", afirmou Peng, antes de relatar o momento do abuso.

Tudo começou como um caso extraconjugal intermitente, mantido em segredo durante anos. Gaoli terminou a relação quando ganhou mais influência no Governo. No entanto, Gaoli e Shuai voltariam a encontrar-se em 2018 para uma partida de ténis na casa do político e da mulher, convite que Shuai aceitou. A violação terá acontecido nessa ocasião.

Denúncia de violação só ficou 30 minutos online

"Nunca consenti [a relação sexual] naquela tarde. Chorei o tempo todo. Mesmo que não seja mais do que atirar um ovo contra uma parede, explicarei os factos sobre o que aconteceu", escreveu. Peng acrescentou ainda que a mulher de Zhang sabia do que se tinha passado.

A publicação desapareceu meia hora depois da rede social, mas já tinha sido amplamente divulgada e o escândalo não podia ter sido evitado. É então que Peng Shuai desaparece, o que preocupou o mundo do desporto e até a Organização das Nações Unidas (ONU). 

Dez dias depois do desaparecimento, a comunidade do ténis, sob a hashtag #WhereIsPengShuai (#Onde Está Peng Shuai), mostrava uma preocupação crescente. Colegas do desporto, como Naomi Osaka, Serena Williams ou Novak Djokovic pediram explicações publicamente. 

A 18 de novembro, Steve Simon, presidente da Women Tennis Association (WTA), órgão que regula o ténis feminino mundial, recebeu uma mensagem inesperada. "Não estou desaparecida. As alegações de abusos sexuais não são verdadeiras. Estou a descansar em casa e estou bem. Obrigado pela sua preocupação", escrevia Peng Shuai. Não foi suficiente para descansar aqueles que suspeitavam que algo de errado estava a acontecer com a tenista.

"É difícil de acreditar que Peng Shuai tenha escrito a mensagem que recebemos ou que aquela lhe possa ser atribuída. Peng revelou grande coragem ao descrever as alegações de abuso sexual contra um alto quadro do Governo chinês. A WTA e o resto do mundo precisam de obter uma prova verificável de que ela está segura. Tentei contactá-la de várias maneiras, mas sem sucesso", reagiu Simon, deixando claro que as alegações de Shuai deviam ser "investigadas exaustivamente e sem censura". 

"Os recentes acontecimentos na China relativos a uma jogador da WTA são motivo de profunda preocupação. Como organização dedicada às mulheres, continuamos empenhados nos princípios em que fomos fundados - igualdade, oportunidade e respeito. Peng Shuai, e todas as mulheres, merecem ser ouvidas, não censuradas", acrescentou o presidente do ténis feminino mundial.

Num volte-face dos acontecimentos, Peng surgiu em vários momentos no passado fim de semana, aparentemente bem. O Comité Olímpico Internacional (COI) garantiu que a atleta chinesa está segura e bem de saúde, depois de uma videochamada em que a jogadora aparece em contacto com o presidente do organismo, Thomas Bach.

Thomas Bach com a tenista Peng Shuai.
Thomas Bach com a tenista Peng Shuai.
Foto: AFP

Através de um comunicado, o COI informou que Peng Shuai começou a chamada com Bach agradecendo a preocupação e o esforço do organismo na procura de esclarecimentos sobre o seu paradeiro. "Explicou que está segura, a viver na sua casa de Pequim, mas que pretendia manter a privacidade nesta altura". "Quer passar o tempo com a família e com os amigos. Em todo o caso, continuará a estar envolvida no ténis, o desporto que tanto ama", afirmou o COI.

Antes do encontro já tinham sido divulgadas imagens na imprensa estatal chinesa em que Peng Shuai aparecia em casa, rodeada de peluches, num restaurante com o treinador, ou num torneio infantil em Pequim. 


No entanto, as imagens não parecem convencer a comunidade internacional de que a atleta está livre da repressão chinesa. "Acho este caso muito preocupante", disse o ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Jean-Yves Le Drian, no domingo, pedindo que Peng Shuai seja autorizada a "falar livremente" para esclarecer a sua situação.

 "Estou apenas à espera que Peng Shuai fale. E se as autoridades chinesas quiserem esclarecer, devem permitir a Peng Shuai falar, dizer onde está, como vive, o que faz, como se prepara para os Jogos Olímpicos", disse ainda  Jean-Yves Le Drian.

Outros casos

O exemplo da tenista está longe de ser um caso isolado. Entre desaparecimentos suspeitos ou confissões forçadas, a repressão imposta por Pequim aos que embaraçam o regime é conhecida mundialmente. 

Jack Ma, fundador do Alibaba, maior empresa chinesa de comércio eletrónico.
Jack Ma, fundador do Alibaba, maior empresa chinesa de comércio eletrónico.
Foto: AFP

Um dos casos mais recentes foi o do fundador do site Alibaba (maior empresa chinesa de e-commerce), Jack Ma, que desapareceu três meses depois de ter feito um discurso controverso no final de 2020. Nas suas declarações, criticou abertamente o sistema regulador do país. O desaparecimento do empresário, classificado pela Forbes como a pessoa mais rica da China, desencadeou uma onda de atenção internacional. Ma reapareceu num vídeo para um evento de caridade em janeiro de 2021. Depois do caso, a empresa Alibaba foi multada em 2,8 mil milhões de dólares. 

Também o magnata imobiliário Ren Zhiqiang terá desaparecido no ano passado, depois de ter chamado "palhaço" a Xi Jinging pela sua gestão da crise da covid-19 no país. Mais tarde, foi condenado a 18 anos de prisão por corrupção.     

Fan Bingbing, estrela chinesa conhecida a nível mundial desapareceu misteriosamente em 2018.
Fan Bingbing, estrela chinesa conhecida a nível mundial desapareceu misteriosamente em 2018.
Foto: AFP

Em 2018, Fan Bingbing, uma das atrizes mais bem pagas da China, conhecida pelas participações em filmes das sagas "X-Men" e "Homem de Ferro", desapareceu entre junho e outubro, enquanto enfrentava alegações de evasão fiscal. 

Mais tarde, reapareceu e publicou uma longa declaração a pedir desculpa pelos atos e a concordar com o pagamento de uma multa de 146 milhões de euros.

Em agosto deste ano, a atriz e realizadora Zhao Wei, também conhecida como Vicky Zhao, desapareceu abruptamente e os seus projetos foram retirados dos serviços de streaming chineses.

Os meios de comunicação avançaram que Wei estaria "cercada de processos judiciais" e que tinha sido proibida, em 2017, de negociar nos mercados de valores mobiliários da China por "violações ao mercado não especificadas".   


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