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O prodígio português do bilhar
Desporto 3 13 min. 19.11.2022
Bilhar

O prodígio português do bilhar

Campeonato do Mundo de Bilhar 3 Tabelas por Seleções (jogo Portugal-Coreia do Sul).
Bilhar

O prodígio português do bilhar

Campeonato do Mundo de Bilhar 3 Tabelas por Seleções (jogo Portugal-Coreia do Sul).
Foto: DR
Desporto 3 13 min. 19.11.2022
Bilhar

O prodígio português do bilhar

Luís Pedro Cabral
Luís Pedro Cabral
É português, emigrante e engenheiro aeronaútico o bicampeão europeu de bilhar às três tabelas e um dos melhores do mundo. Tem 28 anos, mas da fama de "menino-prodígio" nunca mais se livra. Com apenas 12 anos entrou para a elite do bilhar. Joga pelo Valência e representa sempre que pode o FCP, que hoje é um dos clubes mais importantes do mundo nesta modalidade, por culpa do seu talento. Pelo mundo, representa as cores de Portugal. Mas o seu coração é azul e branco.

Qualquer velho do Restelo da carambola – desses que passam a reforma a jogar bilhar na associação recreativa do bairro, com o cigarro ao canto do lábio, a CRF a envelhecer no cálice, e os dedos azulados do giz -, não terá dúvidas em afirmar que o bilhar às três tabelas não é para qualquer um, muito menos para meninos, que não têm idade nem dinheiro para ter um taco personalizado, os níveis de concentração e a maturidade necessária para entender as amplitudes da primeira lei de Newton, no que diz respeito à relação de forças entre o movimento e a inércia. 

É quase como a lei da vida, só que jogada numa plataforma sedosa, rectangular, sobre ardósia italiana. Dizem os entendidos que o bilhar às três tabelas, sendo um jogo de certo modo popular, é igualmente, à sua maneira, elitista. Jogado ao mais alto nível, já não é bem um jogo. É uma ciência, cheia de ângulos, perpendiculares, rectas e os respectivos segmentos, propulsão e resistência, atrito e gravidade, efeitos, tabelas, tacadas de precisão, silêncio, mesas aquecidas, árbitros de smoking e luvas brancas, carambolas, geometria descritiva em movimento. Em geral, os mais novos, cada vez mais raros nesta modalidade, ficam quanto muito na assistência.

Neste aspecto, João Ferreira foi uma tacada no charco, irrompendo pelo difícil território dos séniores como um fenómeno precoce, que rapidamente se instalou no quadro de honra da modalidade, com o epíteto de menino-prodígio, algo que se transformou numa imagem de marca, no bilhar, assim como na universidade. Aos 23 anos, completou o mestrado em Engenharia Mecânica e foi convidado para professor na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto. Desde os 12 anos que ele brilha na elite do bilhar. 

Aos 28 anos de idade, o actual bicampeão europeu de bilhar às três tabelas, já não encontra concorrência nas mesas nacionais. Radicado em Espanha, onde desenvolve a sua actividade de engenheiro "estrutural" na Airbus, empresa aeronaútica em Madrid, João Ferreira, por razões de logística e de geografia, representa actualmente o Valência, na exigente competição espanhola, onde se encontram os grandes bilharistas da Europa e do mundo. 

Ao longo dos anos habituei-me a aproveitar todas as horas e fazer grandes esforços para ser bem-sucedido na escola e no desporto. Costumava estudar a altas horas da noite para compensar os dias que não tinha ido à escola/universidade.

João Ferreira

Este engenheiro português, levou na bagagem para Espanha mais de 50 títulos nacionais e internacionais. "Começa a faltar-lhe mobília para tantos troféus", ironiza Carlos Ferreira, pai e fã número um de João. Épocas houve, recorda o orgulhoso pai, "em que o João ganhou todos os torneios em Portugal. Lembro-me que numa só época conquistou vinte títulos. Às tantas, e digo isto sem qualquer pretensiosismo, o João abdicava de participar só para que outros tivessem oportunidade de ganhar", acrescenta Carlos Ferreira. 

Só as exigências da sua actividade profissional, as mesmas que o impedem de disputar o campeonato nacional de bilhar às três tabelas, não lhe permitem igualmente disputar os torneios do campeonato do mundo, ainda que João Ferreira se mantenha entre os melhores bilharistas do mundo.

Foi uma questão de escolhas. João Ferreira escolheu outro dos seus amores: a engenharia. As razões que o levaram a emigrar para Espanha são as mesmas que não lhe permitiam tornar o bilhar numa actividade profissional. Algo que nunca esteve em equação, embora em Espanha se encontrem muitos bilharistas profissionais. "Em Espanha, o nível é mais elevado e existe um maior grau de profissionalização. Espanha tem vários jogadores que estão sempre entre os melhores do mundo. Além disso, existe um maior incentivo financeiro. Espanha possui também um Centro de Alto Rendimento, que forma talentosos jogadores desde tenra idade", explica João Ferreira.

Comparada com a vizinhança ibérica, em termos estritamente carambólicos, Espanha é como uma galáxia distante. "É hoje uma das grandes potências do bilhar mundial. Na Europa, só é superada pela Bélgica. E não nos podemos esquecer que o João é vice-campeão de Espanha", remata Carlos Ferreira, uma autêntica enciclopédia do bilhar. "O João fez a opção lógica e coerente de prosseguir a sua carreira na engenharia". 

O João sabe que só alcançou o que tem graças ao entusiasmo e ao esforço do pai e da família. "O meu pai foi sempre quem me acompanhou desde o meu início no bilhar há mais de 20 anos. Sem apoio familiar o meu caminho teria sido muito mais difícil e talvez fosse impossível ter alcançado o que alcancei".

Hoje, o bilhar está para João Ferreira como um hobby de alta-competição. Aliás, acrescenta o pai, "devo dizer que, como atleta de alta-competição, ele nunca usou desse estatuto em relação aos estudos. Nunca quis uma situação de privilégio. Ia às aulas e fazia os testes, como os outros estudantes". 

E não haja confusões: "para chegar ao nível em que ele chegou no bilhar às três tabelas, não basta o talento, é preciso muita dedicação". Sobre o circuito profissional do bilhar, explica Carlos Ferreira, "hoje em dia há bilharistas a ganhar muito dinheiro. Por exemplo: uma competição na Coreia do Sul, que tem muitos e ferrenhos adeptos da modalidade, já tem prémios monetários na ordem dos 400, 500 mil euros".

O próprio João Ferreira não nega que, num momento ou noutro esse pensamento lhe passou pela mente. Mas a verdade é esta: "em Portugal é praticamente impossível ter uma carreira profissional como jogador de bilhar". E, seguindo a sua sina precoce, "desde muito novo que percebi que essa era a realidade e nunca criei falsas esperanças a esse respeito". 

Fora de Portugal, a realidade é outra, mas também não é um mar de rosas. "É possível perseguir esse sonho fora de Portugal. Ainda assim, a vida de um jogador profissional de bilhar não é a mais estável. Eles passam grande parte do ano a jogar competições por todo o mundo. É preciso estar preparado para passar muito tempo a viajar, em aeroportos e hotéis no estrangeiro". No bilhar, todos reconhecem que João Ferreira é um prodígio. Mas há muito que não é menino. A necessidade de uma vida estável maturou com ele.

Quando era mais pequeno do que o taco

João Pedro Mota Ferreira nasceu a 17 de Janeiro de 1994. Cresceu na Maia, Porto. O bilhar, quando ele não tinha mais de sete anos, foi uma descoberta de férias. Todos os verões, João ia de férias com a família para Salou, Terragona (Catalunha). Foi no Sanguli Park, uma espécie de estância de férias, que ele descobriu o seu talento, apesar de mal chegar à mesa e de fazer metade do taco. No regresso dessas férias, Carlos Ferreira, o pai e o seu principal apoiante, resolveu comprar uma mesa de pool para a sua casa. 

Oficialmente, no que isso é possível, João começou a jogar com sete anos. Um ano depois, entrou para o Futebol Clube do Porto (FCP), para o Pool, um parente do bilhar. Foram os primeiros passos de uma longa caminhada. Com 10 anos, participou num torneio inter-escolas, onde estavam jogadores com o dobro da sua idade. Adivinhem quem ganhou? Perante isto, o FCP solicitou à Federação Portuguesa de Bilhar licença desportiva, para que pudesse participar na competição oficial. Foi o atleta federado mais novo de sempre.


A Escuela Libre Paideia é um colectivo libertário na mais pura acepção da palavra.
A escola onde os alunos se fazem anarquistas
Entram com 16 meses, saem com 16 anos. Entram livres, saem libertários. Entram de fraldas, saem com as vestes ideológicas da anarquia. Esta é a história de uma escola livre, autogestionária, em Mérida.

Antes de começar a levar o bilhar a sério, João Ferreira era praticante de Voleibol, no Castêlo da Maia. Com 13 anos, foi campeão nacional de Voleibol. Mas, por essa altura, teve de optar. Os estudos, o voleibol e o bilhar eram uma enorme sobrecarga. E o João optou por conciliar o último com o primeiro. O bilhar às três tabelas só entrou na sua vida em 2005, quando foi convidado para ajudar a organização do 62º Campeonato da Europa, em Espinho, onde pôde ver os craques em acção. Desde aí a carambola é o seu jogo. Nesse ano, disputou o Campeonato Nacional de Júniores (até 21 anos), conseguindo um 8° lugar.

No ano seguinte, o FCP tinha uma grande novidade para a modalidade. Contratara uma grande estrela, o peruano Ramon Rodriguez, que estava no TOP 10 do mundo, vinha representar a equipa sénior e treinar os jovens. João Ferreira apresentou-se no nacional de júniores com seis meses de formação com este mestre. E foi vice-campeão nacional de sub-21. A sua idade invertia o número: tinha 12.

A primeira experiência internacional, foi "doméstica", na qualificação para a Taça do Mundo, em Portugal. Logo depois, em 2007, a FPB chamou-o para representar Portugal em sub-21 na Taça do Mundo, na Holanda. A organização, dado o nível que exibiu, decidiu transferi-lo para a World Cup, escalão sénior, que foi em Portugal. E João Ferreira estreou-se entre os mestres. Em 127 competidores, ficou em 76º. "Não estava nada nervoso. Eles pareciam mais nervosos que eu", recorda.

Com 18 anos já estava habituadíssimo a medir forças com os mestres. Era tri-campeão nacional sub-21, representava a selecção nacional de bilhar às três tabelas, era o 5° melhor jogador da Europa e o 9° melhor do mundo, 1° lugar absoluto no ranking da Federação Portuguesa de Bilhar. Com 18 anos, não era fácil um campeão, com toda a pressão e as solicitações que isso implicava, conciliar a competição ao mais alto nível com os estudos. 

Mas também nisto João Ferreira se mostrava exemplar. Treinava quatro vezes por semana, uma média de cinco horas por treino. Nessa altura, a decisão de estudar Engenharia Mecânica já estava mais do que tomada. Seguiu os estudos, cumprindo o seu trajecto académico, sem nunca abdicar do bilhar.

Num ápice, tinha passado da 3ª para a 2º divisão nacional, onde se tornou número 1. No ano de estreia na 1º divisão, pulverizou todos os recordes. Em 2010, ficou em 23º na Worldcup. E a FPB convocou-o para a selecção nacional no Campeonato da Europa. As suas participações nacionais e internacionais continuam a causar espanto. Em Portugal, dificilmente encontra adversário à altura. 

Mas, onde quer que João Ferreira se apresente, encara a coisa desta maneira: "O meu adversário de estimação sou eu próprio. O meu objectivo contínuo é 'derrotar-me a mim mesmo'. Isto é, jogar melhor do que joguei na época anterior. Não gosto muito de me comparar ou ter como referência o nível de outros jogadores, pois isso pode ser limitativo para a progressão e evolução como jogador". 

O facto de ter começado tão cedo numa modalidade de crescidos, tem destas coisas. Aos 28 anos, fala como um ansião, ou como um aluno, do bilhar: "Ainda hoje, a minha maior motivação continua a ser aprender mais sobre o jogo de bilhar e ser um jogador melhor que ontem. Creio que com essa mentalidade os sucessos chegam naturalmente".

Tacada no charco

Com apenas 11 anos, quando chegou à modalidade de bilhar às três tabelas, a sua presença não era propriamente discreta nas mesas de bilhar do país. Pelo contrário: "Foi um choque bastante grande, porque eu era uma criança. A maior parte dos praticantes (como ainda acontece) tinham 40/50 anos ou mais. Ao princípio as reacções foram de surpresa acima de tudo, pois este é um desporto difícil e bastante técnico, que demora anos a aperfeiçoar. Não era normal ver uma criança/adolescente a jogar e a conseguir ganhar a adultos que praticavam o desporto há décadas". 

E as reacções? "Em geral, as reacções dependiam um pouco das pessoas. Algumas ficavam contentes por ver sangue novo no bilhar e tentavam ajudar e motivar. Outros não gostavam tanto e sentiam a pressão de poder perder com um jovem que praticava a modalidade há muito menos tempo do que eles", recorda João Ferreira.


Há diamantes no cabelo
E se dos cabelos dos mortos se fizessem diamantes? Numa fábrica de diamantes em Espanha isto é uma realidade. E há portugueses entre os clientes.

O bilhar impôs-se na sua vida como ele se impôs no bilhar. "Desde muito cedo que tive de aprender a conciliar o desporto com os estudos, que realmente sempre foram a minha prioridade. Durante o ensino básico tinha mais disponibilidade para treinar porque os estudos não exigiam tanto tempo para ter boas notas". Algo que mudou radicalmente no curso da sua vida. "No secundário e depois na faculdade comecei a ter cada vez menos tempo e tive de adoptar uma abordagem mais organizada, com planos de treino estruturados e objectivos claros. Nesta altura, treinava bastante menos, mas quando acabava cada treino sentia que tinha aprendido algo novo e melhorado algum aspecto do meu jogo".

 Já para não falar nas imensas deslocações que implicavam a alta-competição. "Ao longo dos anos habituei-me a aproveitar todas as horas e fazer grandes esforços para ser bem-sucedido na escola e no desporto. Costumava estudar a altas horas da noite para compensar os dias que não tinha ido à escola/universidade".

Uma e outra coisa compensaram. "Depois de cinco anos de universidade, queria sair e trabalhar na indústria para aplicar os meus conhecimentos e aprender muitas outras coisas num ambiente diferente. Nessa altura, o importante para mim era trabalhar numa área que gostasse, em que não me custasse levantar da cama pela manhã, fosse em Portugal ou noutro país". 

Nesse aspecto, João Ferreira não é diferente das melhores fornadas que emergem das nossas universidades. Teve de emigrar. O Porto está sempre no coração, mas Madrid recebeu-o com a sua movida mítica. "É uma cidade que recebe muito bem os vêm de fora. Muitas das pessoas que vivem aqui não são originárias da região. Madrid é uma 'cidade de todos', muito inclusiva e multicultural". 

No entanto, João Ferreira é jogador do Valência. Não é um problema. "Madrid tem tem conexões bastante eficientes, tanto com Valência (em comboio de alta velocidade), como com o Porto, por via aérea. São viagens rápidas". Aquele adágio do quem corre por gosto não cansa, não é bem assim quando se corre constantemente. Mas também há nisso um fundo de verdade. "Acho que a chave para conciliar tudo é ser movido por paixão, gostar genuinamente daquilo que se faz, sem fazer por obrigação. É a única forma de amenizar e suportar os sacrifícios".

Por falar nisso, há episódios que ficam para a vida. Um deles, exemplifica bem o que foi a sua, quando era menino-prodígio no bilhar e estudante nas horas vagas. "Lembro-me de uma viagem transatlântica, em que todos os passageiros estavam a dormir porque era de noite. E eu a estudar para os exames nacionais, com todos os cadernos na pequena mesa de apoio do avião. São coisas que ficam na memória". Por outro lado, o bilhar deu-lhe enquanto jovem a possibilidade que muitos outros jovens não têm: conhecer o mundo. Mas isto só é possível porque o mundo o conhece a ele. 

Por muito que viaje, a sua mente está sempre no Porto, a cidade e o clube do seu coração. Foi pelo seu taco que o FCP se tornou num dos clubes mais importantes no mundo do bilhar. Foi no FCP que o menino-prodígio conquistou este seu epíteto vitalício. Nas carambolas da vida, qualquer emigrante sabe que do seu sítio nunca se chega verdadeiramente a partir. Não é uma questão de efeito. É de feitio.

(Autor escreve de acordo com a antiga ortografia.)

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