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O primeiro jogo internacional na RTP
Desporto 4 min. 25.11.2021
Histórias da bola

O primeiro jogo internacional na RTP

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O primeiro jogo internacional na RTP

Foto: Museu virtual RTP
Desporto 4 min. 25.11.2021
Histórias da bola

O primeiro jogo internacional na RTP

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
Faz 61 anos a transmissão em directo do Barcelona vs Real Madrid para a Taça dos Campeões.

Barcelona e Real Madrid dividem-nos. A nós, comuns mortais. Pela efervescência regional, pelo elitismo da capital, pelas cores do equipamento, pela grandeza dos estádios, pela arquitectura das cidades, pela qualidade absurda de jogadores-estrela, pelaquantidade xpto de episódios recambolescos com portugueses envolvidos.

Veja-se o caso de Mourinho, ainda adjunto de Robson em 1996. Se há treinadores irritantes, um deles é inequivocamente o francês Luis Fernández, pelo seu estilo energético/histérico/descontrolado/sei lá mais o quê. Um dia, em Bilbao, por ocasião da 13.ª jornada da Liga espanhola, um invencível Barça perde 2:0. O gosto amargo da derrota provoca azia. O primeiro indignado é Figo a reagir mal a umas bocas de Fernández. A discussão vale-lhe um amarelo e o número 7 até escapa à expulsão numa nova troca de insultos na linha lateral, com Fernández dentro do campo, de dedo em riste. Quando o jogo acaba, Mourinho e Fernández pegam-se e vale Guardiola a meter-se no meio dos dois para serenar os ânimos. Lá fora, o caos. Fernández: ‘Não falo com tradutores.’ Mourinho: ‘Só falo de pessoas educadas, não de miúdo mal-criados.’

Nessa mesma época 1996-97, o Real Madrid convive com Secretário. O lateral-direito faz um bom Euro-96 e capta a atenção do treinador italiano Capello. O problema é a adaptação do português. Começa como titular e, aos poucos, a sua figura torna-se caricata aos olhos dos adeptos, ao ponto de Capello ter chamado Panucci no mercado de inverno. Um dia, em pleno Santiago Bernabéu, por ocasião da 2.ª mão dos oitavos-de-final da Taça do Rei, vs Barcelona, acontece o impensável: Secretário entra ao intervalo como substituto de Panucci e é substituído aos 80’ por Fernando Sanz. Conta o Mundo Deportivo, de Barcelona. ‘A lesão de Panucci obrigou Capello a utilizar Secretário na segunda parte e a defesa do Real Madrid afundou-se completamente. Só com a entrada de Fernando Sanz é que o jogo ficou finalmente equilibrado, mas já era tarde para dar a volta ao jogo, e à eliminatória.’ Três dias mais tarde, Capello dá outra oportunidade a Secretário em Hércules. Um golo oferecido ao adversário resulta na substituição ao intervalo e nunca mais o lateral calça.

Só mais uma história para acabar o top 3. Figo, mais uma vez. Como persona non grata em pela transferência-surpresa no Verão 2000, o seu primeiro clássico em Camp Nou como jogador do Real Madrid é uma dor de cabeça. Poucos toques de bola, muitos assobios e marcadíssimo em cima por Puyol. A culpa é do então capitão Guardiola. No início da semana, sem que nada o fizesse prever, Pep envia um sms a Puyol a dizer só isto. ‘Estuda bem o português.’ Sem mais conversa, Puyol devora todos os passos possíveis e imaginários de Figo e seca-o na vitória por 2:0, golo de Luis Enri[1]que e Simão. Começa aí a carreira exuberante do central, depois capitão, finalmente referência incontornável. Quanto a Figo, que nesse dia até joga como interior em vez de extremo para evitar mais problemas, só volta a Camp Nou dois anos depois. E para marcar os cantos. Num deles, recebe como presente uma cabeça de porco. Que tem uma página no Facebook. Barcelona e Real Madrid. 


Conta-me como foi da bola
Efemérides e histórias caricatas do futebol pelo jornalista Rui Miguel Tovar.

Pois é. Está a acabar o mês de Novembro e temos meeeesmo de contar a história sobre o primeiro jogo internacional transmitido em directo na RTP. Em campo, Barcelona e Real Madrid. Em causa, um lugar nos ¼ final da Taça dos Campeões. Portugal, Espanha, Suíça, Qatar, Inglaterra, Suécia, EUA, França, Noruega, México, Alemanha, Roménia, Argentina, Itália, Bulgária, Brasil, Dinamarca, El Salvador, Holanda, Polónia, Japão, Bélgica, Rússia, China, Áustria, Sérvia, Andorra e Turquia. Ena, tantos países. Ao todo, 28. Todos eles representados em Camp Nou. Um total de 891 profissionais acreditados, entre jornalistas, fotógrafos, comentadores, cameramen e técnicos.

Em Novembro 1960, já há agitação e mediatismo à volta do clássico. E, desta vez, faz-se história com a primeira eliminação do Real Madrid na Taça dos Campeões, após cinco épocas seguidas a ganhar o título desde a estreia, em 1955-56. O pormenor mais destacado desta efeméride tem a ver com a RTP, cujo sinal da TVE é captado em Portugal e interrompe-se a programação habitual para passar o jogo. Reforçamos a ideia, o Real Madrid é pentacampeão em título e é o natural favorito ao hexa. Só que dois árbitros ingleses desequilibram a balança a favor do Barcelona. Na primeira mão, no Santiago Bernabéu, o 2:2 final resulta de um penálti inexistente (a falta do guarda-redes Vicente sobre Kocsis é fora da área), numa jogada em que o fiscal-de-linha assinara fora-de-jogo e o árbitro Ellis deixa passar em claro.

Em Barcelona, no tal jogo dado em directo pela RTP, o anti-madridismo atinge proporções inaceitáveis. O árbitro Leafe tem a coragem de anular quatro golos ao Real Madrid, um na primeira parte (num lance em que Canario é claramente pontapeado para penálti e Del Sol marca na ressaca; o árbitro nem uma coisa nem outra – assinala falta de Canario!) e três na segunda (dois por fora-de-jogo incríveis, o outro porque a bola não cruza a linha de golo). Isto só visto, porque contado nem se acredita em tamanho roubo de igreja.

(Autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.)

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