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O Mundial no Qatar em 1995
Desporto 4 min. 23.11.2022
Histórias da Bola

O Mundial no Qatar em 1995

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O Mundial no Qatar em 1995

Foto: António Cotrim/Lusa
Desporto 4 min. 23.11.2022
Histórias da Bola

O Mundial no Qatar em 1995

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
Portugal, Qatar, Mundial. O hat-trick de palavras reúne fervor nacionalista em 1995, por ocasião do Mundial sub-20.

O adversário é o Gana, treinado por um jovem Otto Addo, de 47 anos. Como jogador, é campeão alemão pelo Borussia Dortmund em 2002 e titular da selecção ganesa no Mundial 2006. Antes, ligeiramente antes, em Novembro 1999, joga no Estádio do Bessa para a Liga dos Campeões.

É a última jornada e o Boavista já não passa do último lugar do grupo C. Já o Dortmund sonha com o apuramento como segundo classificado, mediante o resultado do Feyenoord (cinco empates até aí) vs. Rosenborg (líder indiscutível), em Roterdão.

Addo entra de início e joga no apoio ao avançado Bobic. De nada lhe vale, o Boavista de Jaime Pacheco saca do prestígio e ganha 1:0, golo de Pedro Emanuel. Daí para a frente, Addo nunca mais apanha portugueses pelo caminho. Quer dizer, Vítor Pereira apita a final da Taça UEFA 2002 e Addpo entra aos 61 minutos para o lugar de Ewerthon, já com o resultado de 3:2 para o Feyenoord.

Agora sim, Addo nunca mais apanha portugueses. Até agora, dia 24, em Doha, no tal estádio feito com 974 contentores recicláveis. Isso mesmo, quando o Mundial acabar, o estádio simplesmente desaparece. Em contrapartida, a ver se a selecção portuguesa aparece e dá o ar de sua graça. Há material humano, há experiência, há estatuto, há fome de glória. Falta só o futebol.

Retomamos o fio à meada: Portugal, Qatar, Mundial. O hat-trick de palavras reúne fervor nacionalista em 1995, por ocasião do Mundial sub-20. A FIFA antecipa a competição para Abril. Pois claro, o calor infernal de Junho afecta tudo e todos. Mesmo assim, a primavera árabe é tramada. Todos os jogadores sentem o bafo, desde a saída do avião.


Vamos ganhar o Mundial?
O plantel é de qualidade muito acima da média, basta jogar o que se sabe e sem medo da própria sombra.

Ironia do destino, Portugal dá-se bem com o ambiente e faz um Mundial memorável. É uma equipa de gente boa, com currículo assinalável, como Quim e Nuno Gomes. First things first, Portugal é campeão europeu sub18 em 1994. A qualificação já faz ruído, com 7:0 vs Islândia em Reykjavik. Uma semana depois, nas Caldas da Rainha, 3:1. Ao todo, dez golos e cinco pertencem ao extremo-esquerdo Agostinho.

Pergunta de algibeira: Portugal sentirá a ausência do goleador do Vitória SC, por lesão? Nem pensar. A selecção é um todo e finta o problema com a classe que se lhe reconhece. Na fase de grupos, os três adversários nem tocam na bola. A França apanha 3:1 (golos de João Peixe, Nuno Gomes e Dani, de penálti), a Suécia 2:0 (João Peixe e Nuno Gomes) e a Holanda 1:0 (Nuno Gomes). Como só passa o primeiro classificado, Portugal chega-se à frente para a final vs Alemanha, em Mérida.

Já com Dani no onze, recuperado da lesão que o afastara do último jogo, Portugal entra a respeitar a Alemanha e vice-versa. Sem saber muito como, numa jogada sem perigo iminente, um cruzamento larguíssimo de Hahn apanha Gerster ali a jeito entre os centrais. O seu cabeceamento é forte e colocado, a bola entre encostada ao poste mais distante de Quim. Só depois do intervalo é que Portugal empata, na sequência de um lançamento lateral perto da área alemã. Peixe salta e cabeceia ao de leve, Rui Óscar aparece cheio de convicção e atira com o pé direito para a baliza, 1:1.

Até final, nada de mais. No prolongamento, mais do mesmo. Tudo para penáltis. Aí resolve Quim, com duas defesas. ‘O treinador de guarda-redes da selecção já nos tinha alertado para alguns marcadores de penáltis da Alemanha. Vimos uns vídeos antes do jogo, só que a verdade é que não pensei nisso durante o desempate. Procurava confiar no meu instinto para tentar adivinhar o lado da bola.’ E adivinha. Ramirez faz o resto e soltamos o grito de campeões europeus.

Passam-se nove meses e ei-los no Qatar. Um surto de meningite afasta a Nigéria como sede do Mundial sub20 e aproxima o Qatar ao planeta do futebol. Portugal joga nas horas, com princípio, meio e fim. Dani agiganta-se, é um génio com a bola colada aos pés e marca em todos os três jogos na fase de grupos, vs Honduras (3:2), Argentina (1:0) e Holanda (3:0).

O golo à Argentina é um hino, totalmente maradoniano. Finta menos adversários, certo, mas finaliza melhor, por entre as pernas do guarda-redes Irigoytia. No jogo seguinte, vs Holanda, há aquele livre de laboratório em que Dani choca com Bruno Caires, os dois barafustam, os holandeses relaxam, Dani marca o livre para o segundo poste e Agostinho cabeceia para o 3:0. É também ele, Agostinho, o herói dos ¼ final vs Austrália como autor de dois golos, um deles é o de morte súbita aos 99 minutos.


Conta-me como foi da bola
Efemérides e histórias caricatas do futebol pelo jornalista Rui Miguel Tovar.

Na ½ final, Dani está doente, com febre. Corre muito, joga pouco e o Brasil decide em cima do minuto 90, por Caio. Resta-nos a consolação do último lugar do pódio. A Espanha abre vantagem de 2:0 e o terceiro só não sai aos 50’ com dupla defesa de Avelino a remates de Michel e Etxeberría. O que acontece a seguir é divinal. Dani desmarca e Nuno Gomes reduz. Mais à frente, Rui Óscar serve e Dani empata. Mais à frente, Agostinho atira à trave. Finalmente, Agostinho corre e Nuno Gomes completa a mágica reviravolta. O bronze é nosso, coño.

E agora, em 2022, Portugal repete a geração de 1995 e chega à meia-final? O Gana é o primeiro obstáculo.

(Autor escreve de acordo com a antiga ortografia.)

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