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"O meu filho é uma força da natureza"
Desporto 5 min. 23.07.2022
Futebol

"O meu filho é uma força da natureza"

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"O meu filho é uma força da natureza"

Foto: AFP/Arquivo
Desporto 5 min. 23.07.2022
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"O meu filho é uma força da natureza"

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
Tudo o que quis saber sobre o Cristiano Ronaldo mas nunca ousou perguntar. Por Rui Miguel Tovar.

Capítulo 9. ‘O meu filho é uma força da natureza’

Por ordem numérica, o ataque do Sporting 2002-03 é assim ó: número 7 Niculae, 9 Kutuzov, 10 Sá Pinto, 16 Jardel, 19 Lourenço, 20 Quaresma e 28 Ronaldo. Se fizermos o ranking por idades, Ronaldo é também o último. Só tem 17 anos. Agora a surpresa maiúscula: à oitava jornada, é ele o melhor marcador da equipa na 1.ª divisão, com três golos.

Os dois primeiros chegam no mesmo dia, a 7 Outubro, no José Alvalade. É a estreia do Moreirense na 1.ª divisão, com João Ricardo à baliza. E é a estreia de Ronaldo a jogar os 90 minutos pelo Sporting, na ressaca de um jogo europeu à porta fechada, em Belgrado, vs Partizan, para a Taça UEFA (3:3 após prolongamento). Com a corda toda, Cristiano obriga João Ricardo à defesa da noite aos 19 minutos num remate (quase) imparável após cruzamento de Beto.

Aos 35’, recebe a bola do calcanhar de Toñito e desbrava caminho como se fosse Maradona. Até o guarda-redes João é driblado sem apelo nem agravo antes de soltar o grito de golo, 1:0. Perto do fim, canto de Rui Jorge e cabeceamento de Ronaldo para o 3:0 final. Um bis e o direito à flash-interview da SportTV. ‘Hoje fui opção, amanhã posso já não ser. Por isso, tenho de continuar a trabalhar para que seja uma opção válida todos os fins-de-semana.’

Nas bancadas, a mãe Dolores assiste ao jogo brilhante do filho na companhia da inigualável Isabel Trigo Mira. E o pai? Está na Madeira, a curtir o momento do filho pela televisão. Dois dias depois, dá uma entrevista ao Record e faz manchete pela frase: ‘O meu filho é uma força da natureza’. Dentro do jornal, José Dinis fala do trajecto de Ronaldo desde tenra idade. ‘Desde muito novo só via futebol à frente e nunca quis outro presente, que não uma bola (…) Não quero a fama por ser pai, mas sim que chegue o mais longe possível à custa do seu trabalho.’

José Dinis viria a Lisboa para o Sporting vs Belenenses, no dia 20 Outubro. É o regresso de João Vieira Pinto após a suspensão da FIFA na sequência do murro ao árbitro argentino Ángel Sánchez em pleno Mundial-2002, vs Coreia do Sul, e a figura de Ronaldo passa ligeiramente ao lado do jogo. Todos os focos incidem sobre JVP; autor do 1:0. A verdade é que Cristiano faz gato-sapato de Orestes na ala esquerda e faz uns quantos remates à baliza de Marco Aurélio. É um perigo constante até ser substituído por Quaresma aos 76’. O pai, radiante.

Na jornada seguinte, o Sporting visita o Bessa e Ronaldo vira herói pela primeira vez como autor do decisivo 1:2 aos 88 minutos – tão-só sete após a entrada para o lugar de Quaresma. Na baliza do Boavista, o titular da selecção portuguesa (Ricardo). É obra. Eis os três golos na 1.ª divisão a garantirem a momentânea liderança dos melhores marcadores do Sporting.


Ronaldo e mãe, Dolores Aveiro, em 2008.
A mãe de Cristiano Ronaldo (e o sete) sempre presente
Tudo o que sempre sonhou saber sobre Cristiano Ronaldo mas nunca ousou perguntar. Por Rui Miguel Tovar.

Até final da época, Ronaldo visita duas vezes a Madeira para jogar pelo Sporting. Na primeira, em Março, o pai José Dinis espera-o no aeroporto do Funchal com o jornal desportivo debaixo do braço, uma imagem de marca. Ronaldo substitui JVP aos 75 minutos e participa no 0:3 vs Marítimo. Na segunda, em Abril, os adeptos do Nacional aplaudem-no a cada toque na bola durante todos os 90 minutos no empate a um golo. Em ambas as ocasiões, a felicidade estampada na cara de Ronaldo por jogar em casa é uma delícia.

É Verão, de novo. E a selecção portuguesa apresenta-se em Toulon para o mais reputado torneio de jovens de que há memória. O seleccionador Rui Caçador tem a equipa na cabeça, entre Bruno Vale; Miguel Garcia, Zé Castro, Pedro Ribeiro e Vítor Rodrigues; Meireles, Faria, Davide e Ronaldo; Lourenço e Hugo Almeida. O começo é de sonho com 3-0 vs Inglaterra.

Nessa tarde 11 Junho, a magia de Ronaldo salta a fronteira de Portugal e abraça o mundo. Que o diga Bobby Charlton, glória inglesa do Manchester United. ‘Estava a ver o jogo e fiquei admirado pelo toque de bola, pela vontade do um para um e pela coragem constante. Decorei o nome dele e, pouco tempo depois, sorri quando o vi apresentado como reforço do Manchester United.’ Acaba 3:0, com Ronaldo a fechar a conta.

Na jornada seguinte, 3:0 vs Argentina de Mascherano (eleito o melhor jogador desse torneio). Segue-se a derrota no último minuto vs Japão (0:1) e a vitória vs Turquia (3:1). Entre esse jogo e a final vs Itália, há uma série de notícias sobre Ronaldo. A mais sensacional é a assinatura de um contrato com o Liverpool, por 7,5 milhões de euros.

O seleccionador Rui Caçador passa-se. ‘É particularmente importante as pessoas perceberem que uma notícia a dizer que um jogador acaba de ser vendido por sete milhões e meio de euros para o Liverpool destrói por completo a cabeça desse jogador. E não é justo que isso seja feito quando ele está a jogar o seu futuro imediato e pode ser prejudicado por coisas especulativas que podem não ser verdade’.


Cristiano Ronaldo, celebra um golo contra a seleção da Holanda. EPA/OLIVER BERG
Tudo o que sempre quis saber sobre Cristiano Ronaldo mas nunca ousou perguntar
Histórias sobre o lado menos conhecido do jogador português. Por Rui Miguel Tovar.

Agarramo-nos à palavra verdade e passamos a bola ao treinador desse Liverpool, um francês chamado Gérard Houllier. ‘De facto, Ronaldo esteve quase quase quase a assinar. Só que ia custar muito dinheiro e rebentar com o nosso orçamento. Além disso, tínhamos no plantel um jovem australiano chamado Harry Kewell que prometia muito. Ele era bom de bola, mas uma lesão retirou-lhe muito do seu talento e do seu estilo bravo, muito parecido ao do Ronaldo.’

Quem for ao Youtube e escrever Ronaldo + Italy + Toulon + 2003, delicia-se com seis minutos de imagens muito cristianas entre jogadas mirabolantes, passes arriscados para a frente, travagens repentinas, dribles estonteantes, pés por cima da bola e outras ronaldices. Portugal ganha 3:1, Ronaldo é o finalista mais jovem entre os 22 titulares.

Daí a um mês, veja lá bem, Ronaldo salta para o Manchester United e, depois, ainda no mês de Agosto, faz-se internacional AA. O céu é o limite. E todos o querem. Basta ver os pósteres do Torneio Toulon nas duas edições seguintes, em 2004 e 2005: Ronaldo e mais Ronaldo. O seu nome é imortal, a sua figura omnipresente.

(Autor escreve de acordo com a antiga ortografia.)

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