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O melhor do mundo já foi apanha-bolas a mil escudos por jogo
Desporto 5 min. 28.07.2022
Futebol

O melhor do mundo já foi apanha-bolas a mil escudos por jogo

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O melhor do mundo já foi apanha-bolas a mil escudos por jogo

Foto: DR
Desporto 5 min. 28.07.2022
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O melhor do mundo já foi apanha-bolas a mil escudos por jogo

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
Tudo o que quis saber sobre o Cristiano Ronaldo mas nunca ousou perguntar. Por Rui Miguel Tovar.

Capítulo 11. Apanha-bolas a mil escudos por jogo

Mil-nove-e-noventa-e-sete. Abril, dia 2. Quem abre o jornal madeirense Diário de Notícias na secção de desporto, a manchete é sobre Ronaldo, Cristiano Ronaldo. O título diz isto aqui ó: "Ronaldo pretendido pelo Sporting C. P.". No antetítulo, "Infantil do Nacional". Por baixo, uma fotografia a três colunas com o miúdo em causa, acompanhado por Fernão Sousa (padrinho) e João Marques de Freitas (sócio fundador do núcleo Leões da Madeira).

A notícia ocupa toda a primeira página e reza assim o texto. "O Sporting, clube que dispensa especial carinho pelas camadas jovens, assumindo-se, com verdade, como um dos maiores, se não o maior, viveiro do futebol português, também está atento ao mercado madeirense."

(…)

"O clube de Alvalade pretende o concurso de Ronaldo, um jogador integrante da equipa de infantis do CD Nacional, pelo qual se sagrou campeão da Madeira na pretérita temporada. Jovem talentoso que iniciou a carreira ao serviço do CF Andorinha, foi alvo de uma acesa disputa, no final da penúltima época, entre o Marítimo e o Nacional."

(…)

"Médio ofensivo, Ronaldo acompanhou ontem o IV Torneio de Escolas, disputado em Câmara de Lobos, e aproveitou para ter uma conversa com Leonel Pontes, técnico ligado ao Sporting Clube de Portugal. O jovem madeirense esteve acompanhado por João Marques de Freitas, um indefectível leão, e por Fernão Sousa, elemento do departamento de futebol jovem nacionalista."

(…)

"De acordo com as conversas havidas, existe a possibilidade de Ronaldo estar alguns dias em Alvalade a testar não só as suas qualidades, mas também a adaptação a uma possível nova realidade que se lhe deparará."

Fim do texto. Início da aventura. Duas semanas depois, Ronaldo viaja sozinho para Lisboa pela TAP, faz o tal teste e passa com (natural) distinção. De volta ao Funchal, com uma camisola do Sporting para mostrar aos companheiros de equipa, Cristiano está nas nuvens. Ao contrário do Nacional, campeão regional em título e afastado da luta pelo bi à conta de uma goleada por 5:1 em Câmara de Lobos, uma equipa conhecida pela quantidade inaudita de mães dos jogadores petizes à volta do recinto de jogo a incentivar (cof cof cof). Escusado será dizer, o golo do Nacional é de Ronaldo. Como? Essa é boa, de livre directo.

O Sporting passa a ser a sua nova realidade a partir da época desportiva 1997-98. Instalado no Lar do Jogador, dentro do Estádio José Alvalade, a vida de Ronaldo muda significativamente e passa a morar sem o apoio físico da família. O seu quarto é dividido com Fábio Ferreira, Edgar Marcelino e Américo Monteiro. Com 12 anos, Ronaldo é o mais novo dos 29 jogadores da formação ali deixados à sorte do Sporting. Por isso mesmo, pela tenra idade ao pé dos outros todos, o Jornal do Sporting entrevista-o.

Há quanto tempo jogas futebol? 

Não sei bem, mas já algum. Na Madeira, jogava no Nacional na categoria de infantis e já gostava do Sporting.

E queres de verdade ser mesmo jogador?

Sem dúvida. E sempre do Sporting.

Gostas de marcar golos. O que sentes quando a bola chega ao fundo da baliza?

Uma grande alegria. Gosto muito de marcar golos.

Já arranjaste namorada aqui em Lisboa?

Até mais do que uma. [risos dos outros colegas]

Para a história, o primeiro jogo de Ronaldo ao serviço do Sporting é em Setúbal, no dia 11 de Outubro 1997. Acaba 17:0 vs Grupo Desportivo e Recreativo O Sindicato. Titular e totalista, Cristiano marca quatro golos na primeira parte. É dele o primeiro da manhã, aos dois minutos. E depois marca três de enfiada, entre os 14 e 21’. Desse onze, só um ainda joga (além de Ronaldo, claro). Chama-se José Semedo e é hoje em dia capitão do Vitória FC, na Liga 3.

Adiante, essa época 1997-98 é a primeira de Ronaldo à Sporting. O seu dia a dia é movimentado. Sem contar com as aulas e os estudos, treina de 2.ª à 5.ª, folga à 6.ª, joga ao sábado e é apanha-bolas aos domingos, sempre no José Alvalade. Por jogo, ganha mil escudos (cinco euros). Estamos a falar de um Sporting errático, com quatro treinadores entre Octávio Machado, Francisco Vital, Vicente Cantatore e Carlos Manuel. 

Em casa, há erros de casting com empates vs Varzim, Estrela, Braga, Vitória SC, Marítimo e Rio Ave. Sem esquecer aquele 1:4 vs Benfica. Seja como for, é a oportunidade de conviver com Pedro Barbosa, Oceano, Leandro Machado, Iordanov e Edmilson, entre outros.

"O dinheiro não representava nada quando comparado com a emoção de estar lá em baixo, no relvado, ao lado dos jogadores e da oportunidade de poder brincar com a bola ao intervalo. No fim dos jogos, eu, o Semedo, o Fábio e o Zezinando íamos até uma pizzaria e fazíamos uma festa, porque, nessa altura, ofereciam duas pizzas por cada uma que se comprasse. Nós juntávamos dinheiro, comprávamos uma e íamos para o Lar do Jogador. E era uma bela jantarada."


Cristiano Ronaldo, celebra um golo contra a seleção da Holanda. EPA/OLIVER BERG
Tudo o que sempre quis saber sobre Cristiano Ronaldo mas nunca ousou perguntar
Histórias sobre o lado menos conhecido do jogador português. Por Rui Miguel Tovar.

Por falar em comida, Cristiano também devora hambúrgueres do McDonald’s. "Era um período complicado, com muitos jogadores novos e sem família por perto. As saudades apertavam e a nossa safa era sair às dez e tal da noite do Lar do Jogador para um McDonald’s ali perto do Estádio José Alvalade e as senhoras davam-nos os hambúrgueres por vender."

Só mais esta história de comida, agora relacionada com sopa. Conta o próprio Ronaldo, confirma a mãe Dolores e o pai desportivo Aurélio Pereira. "Incentivado pela minha mãe, meti na cabeça que tinha de comer dois pratos de sopa antes de cada refeição para forçar o meu crescimento. E a verdade é que, de repente, dei um salto. Todos repararam no meu crescimento súbito e eu não cabia em mim de tanto orgulho." Ainda hoje, desconfiamos.

(Autor escreve de acordo com a antiga ortografia.)

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