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“O Luxemburgo tem de ter uma seleção de futsal”
Desporto 4 5 min. 06.10.2021
Pedro Costa

“O Luxemburgo tem de ter uma seleção de futsal”

Pedro Costa somou 119 internacionalizações e 53 golos pela seleção nacional.
Pedro Costa

“O Luxemburgo tem de ter uma seleção de futsal”

Pedro Costa somou 119 internacionalizações e 53 golos pela seleção nacional.
Foto: António Pires
Desporto 4 5 min. 06.10.2021
Pedro Costa

“O Luxemburgo tem de ter uma seleção de futsal”

Tiago RODRIGUES
Tiago RODRIGUES
Pedro Costa, ex-internacional português a viver no Grão-Ducado, vibrou com a conquista de Portugal no Mundial. Agora jogador do CS Sanem, acredita que o futsal também tem futuro no Luxemburgo. Mas só com a aposta da Federação.

Na noite do último domingo, Pedro decidiu ficar por casa, em Sanem. Convidou o amigo Zé Maria, outro ex-internacional português com quem partilha os pavilhões de futsal pelo Luxemburgo, quando joga pela equipa local. Queria estar "tranquilo" para assistir à final do campeonato do mundo, entre Portugal e Argentina. Ainda não tinha visto nenhum jogo da seleção do princípio ao fim, porque tem duas filhas pequenas e "não é fácil". Mas aquela final na Lituânia era especial, porque era a primeira para a equipa das quinas.

O jantar foi do mais típico português: bacalhau à Brás que a mulher cozinhou, com um vinho rosé a acompanhar. "E umas cervejas de aperitivo". Portugal ia ganhando e lá em casa já se fazia a festa. "O brinde já tinha sido feito, já estávamos a premeditar o que ia acontecer", recorda, entre sorrisos. No fim, saltaram do sofá com uma "alegria enorme" pela vitória. "Chorámos de emoção. Era como se estivesse com aquele grupo e senti-me como qualquer outro dos portugueses que estão em Portugal ou espalhados pelo mundo, com um orgulho enorme por aquilo que fizeram".

Em verdade, e apesar de achar que "nada tem a ver com esta conquista", Pedro também já voou alto com uma camisola da seleção nacional. Estreou-se em competições oficiais logo num Mundial, em 2000, na Guatemala, e ajudou Portugal a alcançar a medalha de bronze. Desde aí até ao Europeu 2014, o seu último, somou 119 internacionalizações e 53 golos. Que não é coisa pouca para quem acompanhou o crescimento da modalidade e participou nas primeiras provas internacionais. Com duas lesões pelo meio, que lhe roubaram alguns jogos. "Poderia ter mais, mas foi um percurso bonito", reconheceu.

Na seleção atual, ainda jogam ex-colegas que lhe dizem muito, como o guarda-redes Bebé, "um dos melhores amigos", e outras pessoas "muito especiais" como o Ricardinho, o João Matos e o Bruno Coelho. "Vibrei por eles e fiquei muito feliz pelo que conquistaram". Mas, para Pedro, quem brilhou foram os "meninos" da nova geração, cujo exemplo maior é o herói da final, Pany Varela. "É fantástico vê-los. Parece que estão a jogar num torneio de escolas", brinca, destacando a "personalidade e maturidade" destes jovens, que "permitem a Portugal encarar o futuro com muita tranquilidade".

Nova vida no Luxemburgo

No dia a seguir à final, ainda na ressaca da celebração do título, Pedro acordou cedo para ir trabalhar. Às 7h00 tinha de estar no escritório da empresa, em Esch-sur-Alzette. Trabalha na construção civil. Uma nova experiência profissional, mas de "grande responsabilidade".

Desde que emigrou para o Luxemburgo, em agosto do ano passado, a sua vida foi alternada entre o novo ofício e os treinos no CS Sanem. Tinha chegado para ser treinador-jogador, mas cedo percebeu que não ia resultar, "porque não dá para tocar dois instrumentos ao mesmo tempo". Em dezembro, decidiu que seria mais útil a jogar. "Também me divirto mais", explica.

Pedro treina no Complexo Desportivo de Sanem
Pedro treina no Complexo Desportivo de Sanem
Foto: António Pires

A segunda-feira é dia de treino. Às 17h30 já estava no Complexo Desportivo de Sanem para calçar as sapatilhas e deslizar no piso onde se sente mais feliz. O nível é diferente ao que Pedro estava habituado quando jogava em Portugal, em clubes como Sporting e Benfica, ou no Japão, nos Nagoya Oceans, onde terminou a carreira profissional de jogador e iniciou a de treinador, entre 2011 e 2019.

No Luxemburgo, a modalidade ainda é amadora. "Quase todos jogam e trabalham. Ninguém vive só do futsal".

Para o ex-internacional, essa realidade significou o início de uma nova vida. Depois do Japão, Pedro regressou a Portugal para trabalhar como vendedor numa empresa de fardamentos, com a "ilusão de que ainda poderia aparecer um projeto para treinar a nível profissional". Não apareceu. Foi então que surgiu a hipótese de conciliar o futsal com o trabalho num novo país e começar uma outra carreira profissional, "porque o futsal é muito incerto". Aos 42 anos, viu no Grão-Ducado a oportunidade de "organizar o final da vida ativa".

O português sempre jogou futsal, desde que se lembra. Agora, "é um hobby". A modalidade que o apaixona passou a ser "um escape". "Como jogador, não tenho mais objetivos, a não ser tentar ajudar esta malta e este clube que me abraçou". No ano passado, o CS Sanem, que é composto praticamente só por portugueses, desde os jogadores a treinadores e dirigentes, foi vice-campeão nacional. "Este ano vamos tentar ganhar o campeonato do Luxemburgo. Era engraçado", imagina Pedro.

Modalidade está a crescer

O caso do Sanem não é único no país. Na verdade, o futsal no Luxemburgo tem "um 'handicap' por ser quase 80% praticado por portugueses". Mesmo há 20 anos existiam torneios organizados pelos emigrantes, que depois deram origem, "com muito trabalho", a uma liga. Algo que, considera Pedro, não é bem visto pela Federação. "Talvez seja por isso que as coisas não desenvolvem tanto. Se fossem luxemburgueses a tratar da modalidade… O futsal tem tudo para ser profissional, mas só com uma visibilidade diferente da que tem neste momento", alerta.

O ex-internacional não acha que o facto de Portugal ter ganhado o campeonato do Mundo vá alterar alguma coisa. Mas acredita que a modalidade pode crescer no Grão-Ducado, se houver uma aposta da entidade responsável. "Estão a chegar muitos jogadores, as equipas estão a apostar, mas a Federação tem que acompanhar esse ritmo, senão vai estagnar. Tem de olhar para o futsal como uma modalidade que está em expansão". Para Pedro, a solução passa por "juntar todos" e ouvir as opiniões dos dirigentes, para pensar no futuro e fazer com que "o futsal no Luxemburgo seja cada vez maior".

Além dos clubes, o português afirma que o "mais urgente" é criar uma seleção nacional. "Se é difícil? É. Mas há jogadores para isso. Se é fraca? Têm de se começar por algum lado. O Luxemburgo não tem seleção nacional de futsal, não disputa competições internacionais". É também para isso que Pedro está no CS Sanem, para "poder ajudar o futsal a crescer". "Só me preocupo em treinar, divertir-me, jogar e tentar ganhar, porque para perder, mesmo com 42 anos, ficava em casa", disse enquanto se ria.

Quanto ao futuro, Pedro admite que possivelmente vai querer voltar para Portugal, mas a prioridade neste momento é a família. "Recebi dois convites durante a época passada para voltar, mas não estavam reunidas as condições. Desfrutei do futsal durante muitos anos e agora tenho de estar focado naquilo que é realmente importante". Se surgir uma oportunidade, vai "pensar duas vezes", porque tem as filhas a estudar aqui no Grão-Ducado. Mas, por enquanto, "o foco está no Luxemburgo". E na bola de futsal, enquanto houver pernas para correr.

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