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O jogo da vergonha
Desporto 6 min. 29.11.2021
Belenenses-Benfica

O jogo da vergonha

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O jogo da vergonha

Foto: Lusa
Desporto 6 min. 29.11.2021
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O jogo da vergonha

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
Estádio Nacional é palco de um atropelo à verdade desportiva, à competitividade e à saúde pública.

Julho de 1919, dia 14. Sporting e Benfica terminam o campeonato regional de Lisboa com o mesmo número de pontos e é necessário um play-off a duas mãos para desempatar. Para tão importante compromisso, o Sporting apresenta-se com Quintela; Jorge Vieira e Amadeu; Caetano, Perdigão e Stromp; Jaime Gonçalves, Torres Pereira, José Rodrigues e Marcelino. Não, não está enganado, só estão dez jogadores em campo.

O 11º não vai a jogo no início, só após o intervalo (é ele, Artur José Pereira), tal como o árbitro Luís Plácido de Sousa, substituído à última hora por Carlos Pinto, que expulsa o benfiquista Cândido de Oliveira e valida o golo solitário de Perdigão. A primeira mão acaba com 1:0 para o Sporting e assiste-se pela primeira vez à ausência de um futebolista num jogo. Situemo-nos mais uma vez: estamos em 1919, o futebol está longe de ser profissional (o 11º jogador não vai ao estádio porque tem outros compromissos, esses inadiáveis e de ordem pessoal) e mais se parece com a república das bananas. Noventa e dois anos depois (sim, 92), estamos no final de Abril 2012, o futebol já é profissional e estamos metidos num inesperado molho de bróculos.

O declínio começa na sexta-feira. Com quatro meses de salários em atraso, 16 jogadores do plantel profissional da União de Leiria rescindem colectivamente os contratos que os ligam à SAD e avançam para uma greve aos três últimos jogos do campeonato (Feirense, Benfica e Nacional). Em caso de falta de comparência numa das três últimas jornadas, o regulamento determina punição com derrota por 3:0, multa de 50.000 euros e descida de divisão, a qual poderá ser evitada se for justificada com comprovado motivo de força maior.


Treze casos da Omicron em Portugal são todos no Belenenses
Há casos entre o 'staff' e jogadores.

A administração da SAD chega a admitir declarar o abandono da competição, o que poderia acarretar para o clube penalizações mais drásticas, como a desclassificação no campeonato, a exclusão das competições profissionais entre um a cinco anos e uma multa de 100 mil euros, além de implicar com a classificação de todos os outros clubes. É sábado e ainda ninguém sabe se há jogo com o Feirense.

A partir daqui, só visto:

21h47 – Dominguez convoca todo o plantel

00h31 – Sindicato insiste: os 16 jogadores das rescisões não vão a jogo

00h40 – SAD diz não ter recebido rescisão de contrato dos 16 jogadores

02h00 – SAD quer ir a jogo e convoca todos os jogadores

12h19 – Sete jogadores concentram-se no Hotel Cristal, na Marinha Grande: Oblak, Shaffer, Barkroth (emprestados pelo Benfica), Djaniny (reforço confirmado do Benfica para 2012/13, Gottardi (lesionado) e os juniores Pedro Almeida e Filipe Oliveira

12h58 – Alhafith, central saudita e um dos 16 que havia rescindido o contrato na sexta-feira, junta-se à concentração no Hotel Cristal

14h38 – O Feirense chega ao Municipal da Marinha Grande mas as portas do estádio estão fechadas

15h07 – O sindicato emite um comunicado a criticar Mário Figueiredo, presidente da Liga, acusando-o de telefonar aos jogadores que rescindiram contrato para irem ao jogo

15h36 – Alhafith só vai a jogo se lhe pagarem o que devem. E em dinheiro...

15h48 – Faltam 12 minutos para começar o jogo e chegam mais dois jogadores. o nigeriano Ogu, transportado por um dirigente, e o maliano Keita, de táxi

15h57 – Entram as equipas em campo e o Leiria só joga com oito, apesar de a ficha indicar um nono elemento, Keita de seu nome

15h58 –Equipado, Keita recusa-se a entrar em campo enquanto não lhe pagarem

15h59 – Enquanto os seus companheiros sobem ao relvado, Keita abandona o balneário e entra num carro. Também desaparece uma pasta com seis mil euros do balneário leiriense

16h00 – A táctica do Leiria é 4-3-0 (aí está o Chelsea à portuguesa)

16h39 – Único remate do Leiria à baliza, por Shaffer num livre directo. A bola sai ao lado

16h45 – Primeiro golo do jogo, por Miguel Pedro

16h47 – Intervalo, tempo para Mário Figueiredo garantir não ter aliciado joga[1]dores para estarem em campo

16h49 – João Bartolomeu, presidente demissionário do Leiria, tem coragem para fazer ameaças aos jogadores e apelidar de fugitivos aqueles que não vão a jogo

17h51 – Acaba a partida, com 4-0 para o Feirense, que ultrapassa a Académica e salva-se dos lugares da despromoção, onde já está o Leiria (clube e SAD), Bartolomeu e Figueiredo

Dia de São Nunca à Tarde? – Quando é que se pagam os 400 mil euros dos salários em atraso

Passam-se nove anos e sete meses, a 1.ª divisão segue o seu ritmo pachorrento e, de repente, toma lá disto. No Jamor, o B sad entra em campo com nove jogadores para esgrimir argumentos vs Benfica. Nove jogadores? Ya, é a prova dos nove, uma palhaçada sem fim à vista. Porque o B sad tem 17 infectados com covid-19 e mais uns quantos lesionados, como o guarda-redes Luiz Júnior, que se lesionara há uma semana nas Caldas da Rainha por ocasião da Taça de Portugal, só há nove disponíveis. Desses nove, dois guarda-redes. Desses nove, só é da equipa principal, os restantes pertencem aos sub23. Baaaaaah.


Conta-me como foi da bola
Efemérides e histórias caricatas do futebol pelo jornalista Rui Miguel Tovar.

O Benfica tira proveito da situação e marca sete golos na primeira parte, com destaque para o autogolo de Kau aos 25 segundos e ainda o hat-trick de Darwin, a quem lhe anulam mais dois golos por fora-de-jogo. O B sad encaixa o golpe e demora-se no balneário durante o intervalo. Quando o árbitro Manuel Mota desce às cabinas e chama os jogadores, o espanto é geral. Dos nove, só aparecem sete. No primeiro minuto, João Monteiro (o tal guarda-redes transformado em jogador de campo) faz um remate e cai. Entra a equipa médica e João tem de sair. Com seis, o árbitro é obrigado a acabar o jogo antes de tempo. O número mínimo de jogadores é sete.

 Pela primeira vez na história, um jogo da 1.ª divisão acaba aos 47 minutos. É uma vergonha nacional, um embaraço de todo o tamanho, falado em todo o mundo. Da Liga, presidida por Pedro Proença, zero, nem uma palavra aos jornalistas (só comunicados, a nova forma de comunicação alicerçada na falta de comunicação). Dos clubes em questão, cada qual puxa a brasa à sua sardinha. Rui Pedro Soares fala de ter solicitado o adiamento à Liga 45 minutos antes do pontapé de saída, aquando do conhecimento dos novos resultados dos testes PRC. Em vão, a Liga obriga-o a ir a jogo sob pena de falta de comparência. O Benfica, diz Rui Costa, nada sabe desta movida e entra em campo. O Sindicato de Jogadores insurge-se e pede medidas, Sporting mais Porto idem idem aspas aspas. Cenas dos próximos capítulos? Sejam elas quais forem, o caldo já está entornado. É o episódio mais triste de sempre do futebol português por faltar ao compromisso básico da verdade desportiva, da competitividade e, mais importante, da saúde pública.

(Autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.)

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