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O ex-jardineiro do Luxemburgo que é o novo herói da Liga dos Campeões
Desporto 8 1 9 min. 07.10.2021
Entrevista Sébastien Thill

O ex-jardineiro do Luxemburgo que é o novo herói da Liga dos Campeões

Entrevista Sébastien Thill

O ex-jardineiro do Luxemburgo que é o novo herói da Liga dos Campeões

Foto: AFP
Desporto 8 1 9 min. 07.10.2021
Entrevista Sébastien Thill

O ex-jardineiro do Luxemburgo que é o novo herói da Liga dos Campeões

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
O golo que marcou ao Real Madrid na Champions transformou-o num herói repentino. Em entrevista ao Contacto, Sébastien Thill fala dessa noite louca, da vida em Tiraspol e da paixão por Portugal. Por estes dias já está com a seleção no Luxemburgo para os próximos jogos contra a Sérvia e Portugal.

A entrevista com o luxemburguês Sébastien Thill, jogador do Sheriff Tiraspol, equipa do campeonato moldavo que derrotou o Real Madrid na Liga dos Campeões, até podia ter decorrido em português. Desde pequeno que este jogador, de 27 anos mas profissional de futebol apenas há um, convive e tem amigos portugueses na sua terra natal, em Rodange. E é em português que fala agora com os seus colegas brasileiros e espanhóis da equipa multicultural do Sheriff, traduzindo até as ideias dos treinadores aos parceiros.

"Compreendo bem o português, mas falar assim para uma entrevista já é mais difícil", começa por dizer, a rir, Sébastien Thill na videochamada a partir do seu apartamento em Tiraspol, na Transnístria, um enclave separatista da Moldávia, mas cujo clube joga no campeonato moldavo.

Desde a proeza de terça-feira da semana passada no estádio Santiago Bernabéu, em Madrid, no qual este médio ofensivo fez o remate perfeito que entrou na baliza espanhola à guarda de Courtois dando a vitória por 2-1 à sua equipa, que os convites para entrevistas não param. Sébastien Thill, nome até agora desconhecido para a maioria dos amantes da competição prestigiada, surge agora em graus de títulos na imprensa de todo o mundo. No Google, a busca pelo seu nome disparou estratosfericamente, tendo agora mais de dois milhões de entradas.

"É engraçado e dá-me prazer ver a quantidade de notícias sobre mim, suscitar tanta curiosidade e claro que estou feliz. Era praticamente impensável o clube mais modesto e pequeno desta Champions vencer o Real Madrid, o que mais vezes conquistou a vitória na história deste torneio. Mas, vencemos e estou muito feliz por mim e pelo meu clube", conta, com um sorriso rasgado, Sébastien Thill, sentado na sua sala decorada em tons claros em Tiraspol, onde a sua figura com t-shirt preta e as suas tatuagens ganham ainda mais destaque.

Aliás, a sua tatuagem mais recente, na barriga da perna esquerda, feita "há cerca de um mês aqui, após a segunda pré-eliminatória" da Liga dos Campeões, tem sido tão comentada quanto o seu golo. O luxemburguês ri-se de novo e solta um "é incrível". O desenho gigante na perna tem um jogador de costas com uma camisola 31, o seu número do xerife, e uma taça e a bandeira do Luxemburgo por cima da cabeça, mais pequenas.

Veja ou reveja o golaço de Thil contra o Real Madrid que ficará na história da 'Champions':

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O futebolista aproveita logo para esclarecer que não desenhou a taça a pensar que iria erguer a "orelhuda" da Liga dos Campeões. "A taça significa que quero dar o meu melhor na 'Champions' e ganhar títulos e representar com orgulho o meu país, o Luxemburgo. O número 31 da camisola escolhi-o porque é uma homenagem ao meu futebol, o alemão Bastian Schweinsteiger".

A tatuagem não foi uma premonição, mas terá inspirado o jogador a rematar certeiro na direção da baliza do guarda-redes belga do Real, nos derradeiro minuto da partida.

Foi a primeira vez que um jogador luxemburguês marcou um golo na Champions.

Sébastian Thill

Depois de já ter corrido 12 quilómetros, o ainda jogador do FC Progrès Niederkorn, que está emprestado ao Sheriff, decidiu agir e tentar desempatar o jogo a favor da sua equipa. "Quando recebi a bola chutei com o meu pé esquerdo e lembro-me do flash de pensar 'será que vai entrar, será que não vai entrar', mas entrou, e foi uma alegria enorme. Todos ficámos loucos de felicidade, corremos por todo o lado", relembra. Mas nem tiveram tempo de festejar: "Fizemos uma pequena festa no balneário, mas depois apanhámos o avião para casa, estávamos tão fatigados e cansados ​​que aproveitámos a viagem para descansar. Só chegámos aqui às 8h da manhã".

O primeiro luxemburguês

Esta é a primeira vez que o Sheriff integra a Liga dos Campeões e, com a vitória em Espanha, está agora isolado com seis pontos na liderança do Grupo D, até ao próximo dia 19 de outubro, data em que irá defrontar outro grande, o Inter de Milão, no Giuseppe Meazza. Por estes dias, não se pensa neste próximo jogo no Sheriff: "Agora estamos concentrados no campeonato moldavo, somos campeões e queremos manter o título. Quando chegar a altura pensaremos nisso, mas pensamos jogo a jogo, damos o nosso melhor e vamos ver" .

Mas a alegria e orgulho do golo vão ficar na sua memória e o feito pode até ficar gravado na pele. "Foi a primeira vez que um jogador luxemburguês marcou um golo na Champions. Não vou fazer um desenho, mas talvez tatuar a data", prevê a rir. Sébastien Thill admite que para quem há pouco mais de um ano era um jogador amador, no FC Progrès Niederkorn, a proeza ainda é maior.

Desde há duas gerações que a sua família respira futebol. "O meu avô e a minha avó eram futebolistas, o meu pai e a minha mãe foram futebolistas, e os meus dois irmãos mais novos também. Eu acalentava o sonho de ser futebolista, mas só há um ano decidi ser jogador profissional", conta. Antes de sair do Luxemburgo, emprestado pelo clube luxemburguês - primeiro com destino aos russos do Tambov, onde só ficou quatro meses, e agora ao Sheriff -, que o jovem tinha outra profissão. 

"Era jardineiro municipal e cuidava do relvado do estádio Josy Barthel, onde depois jogava à noite. Como no Luxemburgo não há campeonato profissional, eu não me via a ser jogador profissional, só decidi ser quando saí para um clube estrangeiro". A vida de futebolista é feita de vontade, mas também de muito esforço, dedicação e uma vida contida e certinha, relembra. "Passamos os dias a treinar, estamos sempre a viajar para jogar e mesmo no final dos jogos não podemos festejar, nem ir a festas durante a semana", vinca.

Sébastien Thill com os irmãos e o agente Ahmed Nouma.
Sébastien Thill com os irmãos e o agente Ahmed Nouma.
Foto: DR

Para um luxemburguês ainda é mais difícil pois tem de "sair do seu país, deixar a família e ir viver para outro lugar, com um idioma diferente": "Estamos sempre com saudades da família e só podemos visitar a nossa terra nas paragens do campeonato."

Os pais de Sébastien Thill vivem no Luxemburgo e os seus dois irmãos, Olivier e Vicent, ambos estão no Vorskla Poltava, na Ucrânia. Mesmo residindo num país vizinho do seu, a uma distância de cinco horas de viagem, Sébastien Thill e os irmãos não têm tempo para se encontrar. "Como jogamos em clubes profissionais, não conseguimos ter três dias de descanso e andamos sempre os três a viajar com os clubes", explica.

Contudo, como os três irmãos representam a seleção nacional do Grão-Ducado, este ano têm estado juntos de quando em quando, nas pausas dos clubes, para treinar e jogar pelo seu país. Neste momento, já estão juntos no Luxemburgo em estágio para os jogos da seleção contra a Sérvia, dia 9 e Portugal, dia 12, na fase de qualificação para o mundial.

Lágrimas de alegria

Na terça-feira da semana passada, o craque do Sheriff não teve a família no estádio madrileno, mas teve claque luxemburguesa. Nas bancadas, a assistir à sua façanha, estiveram "a minha mulher e uns amigos de Rodange". Em casa dos pais, no Luxemburgo "as emoções foram muito grandes, a minha mãe deve ter chorado de felicidade e o meu pai ficou louco de alegria".

Sébastien vive com a companheira, que é luxemburguesa, em Tiraspol, uma cidade "tranquila, simpática, que se parece até um pouco com Esch, pelo que gostamos de viver cá". Tiraspol é a capital de Transnístria, uma região que se autoproclamou independente da Moldávia em 1990, mas não tem reconhecimento internacional. Como está situada dentro das fronteiras da Moldávia, reconhecidas internacionalmente, para o resto do mundo ainda pertence a este país. É assim um enclave que se mantém independente, graças à Rússia. O Conselho da Europa considera este um "conflito congelado".

A namorada de Sébastien Thill.
A namorada de Sébastien Thill.
Foto: DR

O luxemburguês garante que ali se vive tranquilamente, sem conflitos. "Temos é a fronteira com a Moldávia, onde precisamos de fazer check in e check out", afirma, e o Sheriff de Tirispol continua a fazer parte do campeonato nacional de futebol da Moldávia, onde aliás é o atual campeão, somando 18 títulos conquistados.

Por agora, Sébastien Thill não pensa em outros voos. "Gosto de estar no Sheriff, sinto-me feliz. De momento, não penso em regressar ao Luxemburgo, o meu país, do qual tenho muitas saudades, mas quero continuar a jogar e a melhorar".

O bacalhau à Braz e o Sporting

Aliás, no Sheriff, Sébastien Thill é o elemento de integração numa equipa composta por jogadores de várias nacionalidades. "Como falo várias línguas, porque sou do Luxemburgo e falo um pouco de russo, os treinadores pedem para eu explicar aos meus colegas o que pretendem. Tenho colegas espanhóis, e brasileiros, e com eles falo português, conto piadas em português", revela a rir.

Este luxemburguês reconhece que tem uma ligação especial aos portugueses e a Portugal. "Sempre tive muitos amigos portugueses no Luxemburgo, adoro bacalhau à Braz e Portugal é o meu país preferido para férias. Vou muitas vezes a Portugal, onde me sinto bem. Adoro Lisboa onde um amigo meu tem casa e já conheço o Douro. O Algarve ainda não conheço, mas quero ir lá". Um dos seus irmãos, Vicent Thill, jogou pelo Nacional da Madeira e, quando esteve no Funchal, o irmão mais velho foi visitá-lo. "Estive uma semana na Madeira e também gostei".

 A pergunta impôs-se: "E jogar num clube português, pensa nisso?". Pergunta devolvida: "Se gosto de Portugal e do seu povo então porque não jogar no campeonato português?". Se houver alguma oportunidade é para ser pensada a sério.

De seguida, a conversa fixa-se no clube preferido do futebolista na liga portuguesa. Ele ri-se e confidencia que gosta do Sporting: "No Luxemburgo, reunimo-nos nos cafés para ver os jogos e todos os portugueses lá são do Benfica. Então, para os enervarmos um pouco no bom sentido, eu e os meus amigos torcemos pelo Sporting".

Quem sabe um dia. Para Sébastien Thill com "empenho, dedicação e muita força e vontade podemos concretizar os sonhos no mundo do futebol" e é esta a mensagem que deixa no final aos jovens do Luxemburgo que querem seguir esta carreira. Mas têm de "querer mesmo e ser fortes porque têm de deixar o seu país e ficar longe da família". Mas… "vale a pena", considera o luxemburguês mais falado do momento no desporto-rei.

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As diferenças entre os jogadores internacionais luxemburgueses e portugueses acentuam-se, em certos casos de forma abismal, no que respeita a estatuto e rendimentos auferidos, mas que muitas vezes se esbatem no relvado.