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O homem sonha, o golo nasce. Os heróis de Portugal (parte 1)
Desporto 8 min. 16.06.2021
Euro 2020

O homem sonha, o golo nasce. Os heróis de Portugal (parte 1)

Euro 2020

O homem sonha, o golo nasce. Os heróis de Portugal (parte 1)

Foto: AFP
Desporto 8 min. 16.06.2021
Euro 2020

O homem sonha, o golo nasce. Os heróis de Portugal (parte 1)

Luís Pedro Cabral
Luís Pedro Cabral
Viajar pela seleção portuguesa é como viajar às próprias raízes de Portugal, na sua multiculturalidade, nos seus traços intercontinentais. Talvez resida aqui a chave do sucesso. Uma viagem longa. Que agora recomeça.

Conheça um pouco mais sobre as origens do 'onze' da seleção das 'quinas' na vitória portuguesa por 3-0 sobre a Hungria, na fase de grupos do Euro2020.

Cristiano Ronaldo

Foto: AFP

O que dizer de Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro, nascido no Funchal, ilha da Madeira, no dia 5 de fevereiro de 1985, que já não se saiba? Era suposto ser segredo, mas parece que ele em novo tinha uma costela do Benfica. Pode ser um daqueles mitos que o tempo deixa correr. O tempo, parece que não passa para o CR7, que é Ronaldo porque o seu pai queria que ele tivesse o nome de um presidente USA, com pinta de estrela de cinema: Ronald Reagan. Toda a gente sabe quem é o CR7, o mais novo de quatro irmãos, um multimilionário filho da pobreza, uma máquina de fazer golos, uma máquina de marketing, um insaciável coletor de recordes, alguém focado na conquista, focadíssimo em tornar-se o melhor de sempre em todas as estatísticas possíveis na história do futebol.

Começou no Andorinha FC, pequeno clube da localidade de Santo António, onde o pai era contínuo. A sua primeira transferência foi para o Nacional da Madeira, quando tinha 10 anos. Com 11, veio sozinho para Lisboa, para as escolas do Sporting CP. Aprendeu muitas coisas que não sabia, dribles, táticas, movimentos, toques e as saudades da família. Muitas lágrimas deixou ao telefone. Fez a sua estreia profissional na equipa principal do Sporting com apenas 16 anos. 

Dois anos depois, o gigante Manchester United levou-o para Inglaterra, depois de uma exibição fantástica na inauguração do novo estádio de Alvalade, um jogo particular, no qual Cristiano Ronaldo deixou os defesas ingleses com os olhos trocados. Com o Manchester United, Cristiano Ronaldo ganhou tudo o que havia para ganhar. Tornando-se na estrela maior da constelação do Real Madrid. Já deixou a sua marca na Juventus. Andam para aí uns rumores que se vai transferir neste defeso, antes de cumprir um sonho, que se tornou antigo: acabar a carreira no Sporting. Hoje, quando CR7 aterra na Madeira, aterra no 'Aeroporto Cristiano Ronaldo'.

Raphaël Guerreiro

Foto: Instagram/Federação Portuguesa de Futebol

Em finais dos anos 60, o avô de Raphaël Guerreiro tinha uma mercearia em Faro. Mas a família, como tantas famílias portuguesas, embarcou na grande vaga migratória. Adelino, o seu pai, chegou a França na adolescência. A família encontrou refúgio numa pequena vila, nos subúrbios norte de Paris e o pai encontrou trabalho na fábrica da Orangina (sumos de fruta), onde trabalhou a vida inteira. Blanc-Mesnil é uma vila mais portuguesa que francesa. Foi ali que viria a nascer Raphael Adelino José Guerreiro, no dia 22 de dezembro de 1993, fruto do casamento de Adelino e Claudine, que é francesa. Quando saiu de Portugal, o pai de Raphaël jogava no Sporting Clube Farense. Projetou no filho os seus sonhos e um dia inscreveu-o no Blanc-Mesnil, o principal clube da vila, que lhe proporcionava estudar no colégio Nelson Mandela. 

O rapaz, sempre muito ensimesmado, não era discreto em campo. E acabaria por ser selecionado para a Academia Clairefontaine (Centre Technique National Fernand Sastre), para onde iam os melhores entre os melhores da Île-de-France. Não tardou para que o Caen, clube do norte de França, o chamasse para a sua academia. Foi ali que Raphaël se tornou profissional, não antes sem um enorme susto: uma lesão gravíssima, que abalou o sonho da família. Com a sua força tranquila, de Guerreiro, superou as dificuldades. É hoje uma estrela do Borussia Dortmund. Os seus pais, vivem exatamente no mesmo sítio: Blanc-Mesnil. Raphael quis comprar-lhes uma casa, mas eles preferiram ficar no seu canto. Discretos, como o filho.

Rui Patrício

Foto: Instagram/Rui Patrício

Há uma razão para ser o cidadão mais conhecido da aldeia da Matoeira, freguesia da Regueira da Pontes, distrito de Leiria. É a mesma que em 2014 o imortalizou numa estátua de bronze, com seis metros de altura e quatro toneladas de peso, na cidade desportiva de Leiria. Um momento inesquecível, que talvez não traga boas recordações a Antoine Griezman, na final do Euro 2016, em que Portugal se sagrou Campeão Europeu. Foi uma defesa do outro mundo, onde voam os falcões, mantendo inviolável a baliza de Portugal. Rui Pedro dos Santos Patrício, é filho da terra, nasceu na Matoeira a 15 de fevereiro de 1988. Rui Patrício é filho de Rui Patrício e de Beliza (não confundir com baliza) Patrício, os pais mais orgulhosos daquelas cercanias. 

O miúdo, que se iniciou no Sport Clube Leiria e Marrazes, só despertou para o futebol quando se convenceu (a custo) que em vez de avançado devia ser guarda-redes. Não foi um processo fácil. Certa vez, fugiu a sete pés em pleno treino, só voltando dois dias depois. Foi como guarda-redes que viajou para Lisboa, para a formação do SCP, a sua casa de sempre até se tornar profissional. E voar. Desde 2018, integra a armada lusa do Wolverhampton. E, dizem os experts, está prestes a rumar para Roma, sob os auspícios do imperador José Mourinho.

Nélson Semedo

Foto: Instagram/Nélson Semedo

Filho de caboverdianos, nascido em Mira-Sintra a 16 de novembro de 1993, Nélson Cabral Semedo não foi o primeiro da família a dar um pontapé no destino. O seu irmão mais velho estudou e tirou um curso superior. A família, que vivia com muitas dificuldades nos tentáculos suburbanos de Lisboa, embora no concelho de Sintra, nunca deixou que lhe faltasse o essencial. Ele era um jogador de rua, uma flecha a correr com uma bola de trapos. Como jogador, foi na rua que ele cresceu. Há dois dias que ficam nas suas memórias de infância: aquele em que recebeu uma camisola do Barcelona (premonitório) e quando recebeu uma Playstation pelo aniversário. Só lá ele se imaginava a jogar na equipa de Messi. Aos 15 anos, decidiu jogar a sua cartada, se é que queria ser jogador de futebol. Foi aos testes do Sintrense e acabou por ficar, não demorando muito a chegar à equipa principal. 

O rapaz teimava em ser "carregador de piano", mas os treinadores diziam-lhe que ele era um lateral-direito. Só se convenceu disso quando já estava na equipa B do Benfica. Não sem tira-teimas, foi nessa posição que chegou à equipa principal, antes de um salto de gigante, em 2017, quando foi contratado para o clube secreto do seu coração: o Barcelona, onde cumpriu o mais improvável dos sonhos: jogar com Messi. Joga atualmente no Wolverhampton, onde voltou a ser feliz.

Rúben Dias

Foto: AFP

Rúben Dias é vizinho de Bruno Fernandes na cidade de Manchester. Com Bruno Fernandes, foram dois meteoros que chegaram à cidade, embora representando clubes rivais. O defesa foi campeão nacional pelo Manchester City e foi mesmo considerado o melhor jogador da Premier League, coisa raríssima para um defesa. Rúben Santos Gato Alves Dias nasceu na cidade da Amadora, às portas de Lisboa, a 14 de maio de 1997. O T2 da família era pequeníssimo para seis pessoas. Ruby, como era conhecido, tem duas irmãs e um irmão mais velho, o Ivan. Em casa, a mobília nunca estava segura. 

Os rapazes faziam desta um campo de futebol, driblando os pais, fintando as irmãs, marcando golos na porta da casa-de-banho. Os pais acharam melhor inscrevê-lo num histórico da cidade, para ver como o miúdo se ajeitava com a bola em 120 metros de comprimento, por 90 de largura. Na rua, Ruby já tinha provas dadas. E fama de mau-perder. Passou um ano no Estrela da Amadora, até que um "olheiro" do SLB convenceu os pais a mudar o rapaz para formação do Benfica. Assim foi. Rúben Dias passou sete anos de águia à lapela, saltando de rompante para a equipa principal do Benfica, onde deu um salto de trampolim para o Manchester City. De início, jogava a avançado.

Pepe

Foto: Lusa


Anael e Rosilene Ferreira, os seus pais, gostavam muito de ler enciclopédias e tinham o sonho que o seu primeiro filho - nascido a 26 de fevereiro de 1983 em Maceió, Alagoas, Brasil -, fosse cientista, de preferência astrónomo. Daí o nome que deram ao rapaz: Képler Laveran de Lima Ferreira. Képler, em honra de Johannes Kepler, astrónomo, astrólogo e matemático alemão do século XVII. E Laveran, em homenagem a Charles Louis Alphonse Laveran, médico francês, prémio Nobel da Medicina em 1907. O menino, porém, não manifestava grande interesse pela ciência, a não ser que o futebol se qualificasse como tal. Por vezes, ouvindo alguns discursos de teóricos da bola, dá a impressão que sim. Visto que o menino Képler Laveran só via o mundo esférico, o pai encontrou-lhe uma alcunha apropriada: Pepe, desta vez em honra do extremo-esquerdo do Santos e da seleção brasileira entre 1957 e 1965.

Nunca imaginou o senhor Anael que o seu Pepe seria mais famoso que o outro. Parecia um sonho inconcretizável, quase tanto como se lhe dissessem um dia que ele jogaria pela seleção das quinas. O primeiro clube de Pepe foi a escolinha do Napoli, no Bairro Benedito Bentes, na sua terra-natal. Só depois ingressou no Corinthians Alagoano, onde o mister Nelo Vingada, no périplo pelo Brasil à procura de talentos, viu o seu. Foi assim que aos 17 anos, Pepe viajou para Portugal, cumprindo a profecia da diáspora, em busca de vida melhor. Aterrou na ilha da Madeira em 2001, para integrar o Marítimo B, rapidamente chegando à equipa principal. Os "grandes" estavam atentos. No Sporting CP, Pepe esteve à experiência, onde conheceu um tal de Cristiano Ronaldo. O Sporting demorou e o FC Porto antecipou-se, contratando-o. E Pepe nunca mais parou. Fez história no FC Porto, fez história no Real Madrid, na companhia de tantos galáticos, depois jogou no Besiktas, da Turquia, até regressar ao que ele chama de casa: o Porto.

Depois de obter cidadania portuguesa, Pepe estreou-se na seleção nacional a 21 de novembro de 2007, contra a Finlândia, a convite do seu compatriota Luiz Filipe Scolari, então selecionador nacional, mais conhecido por 'Felipão'.


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