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O futebol dos fumadores
Desporto 5 min. 17.11.2021
Histórias da bola

O futebol dos fumadores

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O futebol dos fumadores

Fot: Luxemburger Wort
Desporto 5 min. 17.11.2021
Histórias da bola

O futebol dos fumadores

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
Passámos pelo dia do não fumador a 17 Novembro e lembrámo-nos de falar dos exemplos mais flagrantes.

Sim, agora é impossível. É impraticável ver algum treinador de cigarro em punho a meio de um jogo. Tal como é impensável ver-se um apresentador de um qualquer programa de televisão a fumar desalmadamente enquanto debita resultados de noites eleitorais ou conversa com um convidado. Outros tempos, os gloriosos anos 70 e 80.

Quarta-feira, dia 17. Passámos pelo segundo dia mais antitabagista do ano, depois do 31 Maio (Dia Mundial sem Tabaco). No dia 17, Dia do Não Fumador, puxámos pela cabeça e lembrámo-nos de onze exemplos de fumadores compulsivos no futebol. Como seria a carreira deles se não fumassem? Leia e faça o seu exercício de imaginação.

À cabeça, Ferenc Meszaros. Esse msmo, o guarda-redes húngaro do Sporting campeão nacional e vencedor da Taça de Portugal em 1982. O homem tem um bigode faz favor. E tem estilo. E presença na baliza. Um dia, faz dois jogos. Ya, faz dois jogos no mesmo dia. Um pela Hungria, outro pelo Sporting. Um dia (outro), dá uma passa a meio do jogo. Como é que é? Estamos na época 1982-83 e o Sporting recebe o invicto Benfica de Eriksson no dia 2 Janeiro.

Conta Meszaros: ‘Ganhámos 1-0, penálti do Jordão, depois de passarmos o Ano Novo em estágio. O Benfica quase não atacou e até me deu tempo para fumar um cigarro.’ Como? ‘Estava na baliza sem fazer nada e vi um fotógrafo a fumar atrás da baliza. Pedi- -lhe o cigarro, dei uma passa, devolvi-lho e continuei a jogar. O fotógrafo tirou-me uma foto no momento, claro. Foi uma situação excepcional. Nunca tinha feito isso nem nunca mais fiz. Foi uma brincadeira. Antes, os fotógrafos estavam ali, encostados aos guarda-redes.’

E mais, mais fumadores? Cesar Luis Menotti. No Mundial-78, o banco de suplentes da Argentina é uma névoa de fumo. Por culpa do seleccionador. ‘Nunca o vi comer, só fumar, fumar fumar.’ Quem o diz é Ricardo Lavolpe, terceiro guarda-redes dessa Argentina e depois seleccionador do México no Mundial-2006. Aliás, Lavolpe tem uma história com piada nesse Mundial. ‘A FIFA lançou muitos alertas sobre o tabaco antes da competição. Nem quis saber. Fumei, e bem. No primeiro jogo, com o Irão, vieram ter comigo e ameaçaram suspensão mais multa. Disse-lhes que não valia a pena ameaçarem-me, mais depressa largo o futebol que o tabaco.’

Então e Marcelo Lippi? Cabelo grisalho, óculos fashion e mais o quê? O homem levanta a taça do mundo em 2006 com uma cigarrilha na boca. Verídico, é ver para crer. Diz Alex Ferguson. ‘O meu lema é aprender com os outros. Mesmo quando o United dominou a Europa, gostava de estudar as equipas de topo ou em ascensão. A Juventus de Lippi foi uma equipa de topo, chegou a três finais seguidas da Liga dos Campeões. Há uma eliminatória europeia inesquecível em que estou a ser completamente dominado e qual não é o meu espanto quando olho para o lado e vejo o Lippi a fumar uma cigarrilha como se estivesse numa esplanada. Fiquei perplexo, depois ri-me por dentro. Que homem se apresenta assim durante uma fase avançada da UEAF? Só mesmo Lippi, o mais cool de todos.’

Continua Ferguson. ‘Claro, a seguir apanhei o Ancelotti na Juventus e deparei-me com o mesmo estilo. Por isso é que a Juventus continuava dominante’. Italian way é o que é. Carlo Ancelotti começa a fumar aos 25 anos e nunca mais pára. ‘Uma vez, na campanha europeia 2002-03 do Milan, marcámos um golo ao Ajax no último minuto e o Gattuso atirou-se a mim no banco. O gesto foi tão irrefletido que quase engoliu o cigarro.’

Talvez o italiano mais carismático com um cigarro na boca seja Vialli, Gianluca Vialli. O homem nasce em Cremona, filho de gente rica. Diz Di Canio, um génio com os pés, um malandro com a cabeça. ‘O jogador mais impressionante que apanhei foi o Vialli. Dividi balneário com ele na Juventus. Nós treinávamos todos, o básico e o normal. Pois bem, fizesse chuva, fizesse sol, Vialli ficava a treinar remates depois do treino. Eu olhava para aquilo e pensava ‘este gajo é rico, tem uma mansão em Cremona com 30 quartos e está ali à chuva a treinar remates à baliza’.’ Vialli. Pouco há a dizer sobre um jogador que é substituído, senta-se no banco de suplentes, veste o fato de treino e tira um maço do bolso. Vialli, mais uma vez. Faz isso até no Mundial-90.


Conta-me como foi da bola
Efemérides e histórias caricatas do futebol pelo jornalista Rui Miguel Tovar.

Por cá, Paulo Futre é um dos reis. Ainda hoje. ‘É o meu maior vício. Comecei aos 12 anos. Quando era jogador, tinha um calendário. Fumava 12 cigarros na terça-feira, dez na quarta, oito na quinta, seis na sexta, quatro no sábado e um no domingo, depois do almoço, antes do jogo.’ É assim a vida de um super-herói nos anos 80. Já o lateral-direito Miguel é mais comedido, embora tenha dado nas vistas em Valencia com estas declarações em 2008. ‘Fumo há 14 anos e não há muito a fazer. Mas sei controlar-me, fumo dois ou três cigarros, não fumo um maço por dia.’ E para acabar com estilo, outro 10. Rui Costa joga 18 ao mais alto nível. Ao todo, qualquer cloisas como 743 jogos oficiais entre Fafe, Benfica, Fiorentina e Portugal. ‘Já posso dizê-lo: sempre fumei. Sei que não é bom para um desportista e é um mau vício.’ Agora é o presidente (fumador) do Benfica.

Só para fechar em beleza, três nomes incontornáveis. Enzo Bearzot, campeão mundial pela Itália em 1982. Ele e o seu cachimbo, uma dupla inseparável. Malcolm Allison, um inglês very special. Porque o homem não fuma para acalmar os nervos, nada disso. Big Mal fuma porque sim. Durante o seu tempo em Portugal, fosse Sporting, Vitória FC ou Farense, os seus charutos xxl fazem parte da sua imagem icónica. Johan Cruijff, óbvio. Aos 20 anos, os dentes amarelos e a pele enrugada denunciam-no. Ele fuma até no intervalo dos jogos, mas pode – é um génio, um revolucionário da bola. Como treinador (Ajax e Barcelona), fuma 20 cigarros/dia. Um duplo bypass obriga-o a trocar o tabaco por chupa-chupas.

(Autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.)

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