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O estado da alma
Opinião Desporto 4 min. 08.08.2021 Do nosso arquivo online
Olimpíadas de sofá

O estado da alma

O atleta português Pedro Pichardo porta-estandarte para Portugal durante o a cerimónia de encerramento dos Jogos Olímpicos Tokyo 2020.
Olimpíadas de sofá

O estado da alma

O atleta português Pedro Pichardo porta-estandarte para Portugal durante o a cerimónia de encerramento dos Jogos Olímpicos Tokyo 2020.
Fot: Lusa
Opinião Desporto 4 min. 08.08.2021 Do nosso arquivo online
Olimpíadas de sofá

O estado da alma

Luís Pedro Cabral
Luís Pedro Cabral
A missão nacional terminou na pista, em altíssima velocidade. Pedro Pichardo foi porta-estandarte no encerramento dos JO de Tóquio, onde Portugal conseguiu a melhor prestação de sempre. A telenovela do triplo salto, porém, está para durar.

Para o final da missão portuguesa nos JO de Tóquio 2020 (chamemos-lhe assim), a apenas três anos dos JO de Paris 2024, apresentou-se em pista uma estreante. Maria Martins e a sua bicicleta formavam uma unidade. De alto rendimento? Veríamos, na medida em que isso é possível. As provas de ciclismo de pista são de uma rapidez incrível. Uma pessoa dá por si a pedalar no sofá. Numa altura destas nem se pensa no menisco, nos ligamentos cruzados, nas tendinites, nas artroses, na perigosa condromalácia patelar, sempre à espreita. 

"Anda, Maria!" Houve momentos em que Maria Ribeiro Gomes Martins, de 22 anos, parecia estar prestes a descolar do velódromo para outra galáxia. Ainda bem que a pista é oval e que ela vestia equipamento apropriado para uma viagem espacial, apanágio do ciclismo pós-moderno. Na prova de Omnium (tradução livre: "todos"), a ciclista portuguesa estava na sua praia, algo que não existe na freguesia de Moçarria, Santarém, onde não havia uma alminha que não estivesse de olhos pregados na tv. Não é todos os dias que se vê uma filha da terra numas Olimpíadas. "Anda, Maria! Força, pá!".

A prova de Omnium integra diversos estilos. É dividida em quatro corridas. A primeira - "Scratch" - é de resistência. Trinta voltas à pista em velocidade pura, que nos melhores dias ultrapassa os 60 quilómetros por hora. A atleta portuguesa encontrava-se entre as 18 melhores do mundo na especialidade, com natural destaque, informaram os comentadores, para a campeoníssima Laura Kenny, britânica, com mais medalhas na sua carreira do que algumas bicicletas têm de mudanças. Ficou logo demonstrado que esta Maria era perfeitamente capaz de ir com as outras, concluindo a primeira corrida em 6º lugar. "Maria! Maria! Maria!"

Maria Martins preparava-se para a segunda corrida da prova, a chamada Tempo Race. Mais trinta voltas à pista, com 26 "sprints" intercalares, cada um deles pontuáveis. Embora não perdendo o rasto do diploma olímpico, a prova não correu exactamente de feição, descendo para o 8º lugar da geral. "Mau, Maria!" A seguir vinha a prova de Eliminação, onde as piores vão ficando de fora. Foi com o pressionómetro no máximo que a ciclista portuguesa arrancou a melhor performance, um brilhante 5º lugar, pedalando para o 6º lugar na geral. "Força, Maria! Estamos contigo". 

E o Comité Olímpico Português também. No Twitter, juntava-se à claque: "Let´s go, Maria! Let´s go Portugal". Let´s go num instantinho buscar uma bebida isotónica, versão sofá, que a coisa estava emocionante. Vinha aí a corrida das corridas: 80 voltas à pista, com oito sprints intermédios, a valer ouro. Maria Martins estava perfeitamente na luta pelas medalhas. Só conseguia imaginar como estariam os 136 habitantes (Censos de 2011) de Moçarria. De momento, 135. Os acontecimentos precipitavam-se. Já não havia sequer tempo para fundar uma causa no Facebook, do género "Somos todos moçarrienses!". God speed, Maria.

Maria deu tudo o que tinha nesta corrida, chegando em certas alturas a dar mais do que era esperado, circulando dentro das medalhas como um furacão. Querem ver que este ainda acabava por ser baptizado de Maria? Como sabemos, há uma tradição internacional de dar nomes aos fenómenos meteorológicos extremos. Em onomástica, Portugal não podia estar melhor representado. Nas últimas e decisivas voltas, à beira do sprint final, Maria Martins oscilava entre a 5ª e a 7ª posição, numa cadência segura de 6ª, diziam as vozes na tv. O problema foi a super-campeã. 

Laura Kenny, com total supresa pela posição que ocupava, deu o máximo para subir na geral, embora já não lhe alvitrassem medalhas. A britânica acabou por vencer o "duelo" com a portuguesa, que ainda assim concluiu de forma magnífica a sua estreia olímpica, num 7º lugar. Estava conquistado o 15º diploma olímpico para Portugal, ultrapassando largamente o objectivo geral da missão Tóquio: Duas medalhas, 12 diplomas, era o mínimo que se exigia aos 92 atletas presentes.

Finda a missão, era tempo para um balanço, o que aconteceu logo pela manhã, no fuso horário português. José Manuel Constantino, presidente do COP, começou por anunciar o porta-estandarte eleito para a cerimónia de encerramento destas olimpíadas, as melhores de sempre para as cores nacionais, tanto em medalhas (uma de ouro, uma de prata, duas de bronze), como em diplomas. E o eleito por era... Pedro Pablo Pichardo.

Entre a cerimónia de abertura e de encerramento, encerrou-se mais do que um ciclo olímpico: Nelson Évora entregava o testemunho a uma outra geração de ouro. Como sabemos, esse cerimonial foi tão azedo quanto tem sido a relação destes atletas. E o presidente do COP referiu-se a isso, referindo-se em particular ao facto de Évora ter aplaudido o atleta do Burkina Faso que, excluindo por lesão o próprio Nelson Évora, era o principal adversário de Pichardo na final do triplo salto. 

"Nenhum destes nossos talentos está acima de Portugal. Estamos aqui a representar Portugal e não a nós próprios. Uma representação nacional deve exigir de todos um sentido de companheirismo, de colaboração e entreajuda. Quem sai a ganhar é Portugal. Independentemente dos estados de alma que cada um tenha em relação aos seus colegas de profissão ou de missão". As palavras valem para Tóquio, como para Paris. Dixit.

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