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O empresário de futebol que trabalhou na construção civil e não quer ser apenas mais um
Desporto 5 min. 12.03.2020

O empresário de futebol que trabalhou na construção civil e não quer ser apenas mais um

Celso Duarte é agente de futebol e fundou a Distinty Sports Management.

O empresário de futebol que trabalhou na construção civil e não quer ser apenas mais um

Celso Duarte é agente de futebol e fundou a Distinty Sports Management.
Foto: Pierre Matgé
Desporto 5 min. 12.03.2020

O empresário de futebol que trabalhou na construção civil e não quer ser apenas mais um

Álvaro CRUZ
Álvaro CRUZ
É um dos agentes oficiais sediados no Grão-Ducado e chegou ao país com 24 anos. Foi jogador, treinador e teve várias outras ocupações. Orgulha-se de ser honesto e de ter uma forma diferente de estar na profissão.

Celso Duarte Neto tem 41 anos e nasceu em Niterói, cidade vizinha do Rio de Janeiro, perto da escola de samba Viradouro, a vencedora do último Carnaval.

Foi num clube modesto que despontou para o futebol, antes de ter passado pela formação do Vasco da Gama, o clube de muitos portugueses na metrópole carioca.

“Até nem gostava muito de futebol, mas ia aos treinos com um primo e as coisas começaram a acontecer naturalmente”, recorda.

Com 15 anos chegou a Portugal para fazer testes no Sporting e Vitória de Guimarães, mas acabou por rumar ao Rio Ave onde estudou e esteve alguns anos. Passou pelo São Romão, pela ilha da Madeira e regressou ao norte para jogar no Amarante. “Foram bons tempos. Ainda guardo amizade com gente que gosto muito e com quem mantenho fortes ligações afetivas”, sublinha. Com 24 anos decide vir para o Luxemburgo para representar o FC Mondercange. Entretanto, a carreira de futebolista não foi tão auspiciosa como projetara e teve de começar a fazer pela vida e pelos seus sonhos.

“Já há muito tempo que tinha na cabeça a ideia de ser agente desportivo. Como jogador e treinador já fazia trabalhos de informador e ’scout’ para alguns clubes sobre jogadores. Mas depois, comecei a fazê-lo só para mim. Fiz agenciamento para outras empresas, e acabei por criar a Distinty Sports Management há um ano, com um sócio, e as coisas têm corrido bem.”

Mercado italiano é o privilegiado

Mas nem tudo são rosas nesta profissão. “Quando se fala em empresários de futebol, toda a gente acha que ganhamos mundos e fundos e isso está longe de corresponder à realidade. Por vezes, os negócios passam por tanta gente que a nossa parte é irrisória. Os grandes, como Jorge Mendes é que ganham muito dinheiro”, esclarece.

Uma das grandes descobertas de Celso Duarte foi o lusodescendente Dany Mota, atualmente avançado do Monza, em Itália, e internacional sub-21 por Portugal, que já teve, também, uma passagem pela Juventus. “A descoberta do Dany foi uma situação engraçada. Na altura trabalhava na formação do Fola e queria ir buscar um jogador a um determinado clube, mas um amigo disse-me que havia outro com mais qualidade. Fui ver e descobri o Dany, no Pétange, que confesso, impressionou-me logo pela técnica e grande força física, mas senti que havia ali muito potencial para desenvolver. A partir daí, falei com ele e fui fazendo um trabalho direcionado para o ajudar a melhorar até que o levei a Itália para fazer testes. Agradou aos dirigentes e ao treinador e felizmente tem tido uma ascensão considerável, ao ponto de ter concretizado o sonho de ser internacional português sub-21.”

A preferência por jogadores jovens e pelo mercado italiano são algumas das particularidades que o empresário brasileiro desmistifica: “Desde muito novo, ainda em Portugal, habituei-me a ver na televisão o campeonato italiano que sempre me fascinou pela qualidade e rigor das grandes equipas. Sobre o facto de trabalhar com jogadores jovens é porque eles têm uma grande margem de progressão e podem melhorar bastante se forem integrados em clubes que se dedicam a trabalhar bem os jovens talentos, como é o caso de muitos em Itália. Analiso os jogadores que têm o perfil mais adequado e depois elaboramos, juntamente com os clubes, um plano de trabalho”, explica.

Confiança e transparência num meio complicado

Mas no mundo do futebol, a imagem dos empresários nem sempre é a melhor. Para uns são mercenários, para outros, um mal menor, ideias que Celso rejeita: “Não gosto de falar dos outros, mas sei que há alguns que não têm escrúpulos. Quando entro num trabalho, a minha grande preocupação é que tudo seja feito com clareza e transparência. Por exemplo, com os jogadores mais jovens, prefiro abordar primeiro os pais e explicar como as coisa funcionam. Tenho alguma experiência nesse domínio porque eu também sofri muito no futebol. Venderam-me sonhos que nunca se concretizaram e eu não quero que isso aconteça com os meus jogadores”, explica. “Tem de haver acompanhamento e comunicação com os familiares e os próprios miúdos. Quando eu digo uma coisa, cumpro. As pessoas têm de sentir confiança mútua. Não me considero um empresário, não é a palavra mais indicada. ’Agente’ espelha melhor a situação e no meu caso concreto, sou também conselheiro, porque em algumas situações é fundamental os jogadores serem bem aconselhados e esclarecidos. Eles e as próprias famílias. É que hoje todos querem ser Cristianos Ronaldos e, na realidade, as coisas não são assim”, alerta. Trabalha com vários jogadores seniores em clubes luxemburgueses e no estrangeiro e mantém boas relações com a Federação Luxemburguesa de Futebol.

“Falo regularmente com os meus jogadores para saber como as coisas estão a correr. Nutro um grande carinho por todos eles. Preocupo-me para que nada lhes falte e se concentrem apenas em jogar e dar o seu melhor diariamente”, vinca.

Não se envergonha de ter lavado pratos, trabalhado na jardinagem e quatro anos na construção civil, o que considerou “um tremendo aprendizado de vida”. “Tive até uns colegas que gozavam comigo... por isso tenho os pés bem assentes no chão e sei onde quero chegar, com trabalho, humildade e transparência”, enfatiza.

Sofri muito no futebol. Enganaram-me e venderem-me sonhos que nunca se concretizaram e não quero que isso aconteça aos meus jogadores.” Celso Duarte, agente de futebol". 

“Por vezes, o mais difícil é não ter tempo para a família porque viajo muito”, lamenta. “Não é uma corrida pelo dinheiro, é também a paixão pelo que faço. Por exemplo, agora estou a começar uma parceria com o Uruguai. Felizmente tenho boas relações com empresários e dirigentes de outros países. Observo as suas estratégias e revejo as minhas para que as coisas corram bem e possa explorar outros mercados.”

“A dependência de clubes e jogadores aumenta a importância dos agentes e hoje qualquer um pensa que pode ser empresário, mas acima de tudo é fundamental estar bem preparado”, lembra.

“O meu raio de ação é muito abrangente. Trato das carreiras dos atletas, das renovações contratuais, do alojamento, do carros, na construção da própria imagem e para isso é fundamental ter uma estrutura dinâmica e competente. Trabalho com um advogado italiano com grande experiência no ramo, porque nada pode ser deixado ao acaso. Sei de onde vim e onde quero chegar”, conclui. 

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