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O campeão português de 2002. Entre a Ásia e a azia
Desporto 5 min. 03.08.2022
Histórias da Bola

O campeão português de 2002. Entre a Ásia e a azia

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O campeão português de 2002. Entre a Ásia e a azia

Foto: Manuel de Almeida/EPA
Desporto 5 min. 03.08.2022
Histórias da Bola

O campeão português de 2002. Entre a Ásia e a azia

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
Mais uma história do futebol português desencantada por Rui Miguel Tovar.

O Mundial é de quatro em quatro anos de forma ininterrupta desde 1950. Só uma vez é na Ásia, em 2002. É um Mundial para esquecer. Da selecção portuguesa, quero dizer. Na sequência de uma qualificação sem derrotas, com sete vitórias mais três empates, uma inenarrável fase de grupos sem pés nem cabeça e o adeus prematuro na noite em que João Vieira Pinto dá um murro no estômago do árbitro argentino Ángel Sánchez por ocasião do cartão vermelho directo ao fantasista português vs Coreia do Sul.

Esse Mundial é o do Brasil de Scolari, com sete vitórias em sete jogos. Na final, bis de Ronaldo e 2:0 vs Alemanha em Yokohama, onde o FC Porto se sagraria campeão mundial daí a dois anos. Para o terceiro e quarto lugares, a Turquia faz gala da sua geração de ouro e derruba a anfitriã Coreia do Sul. Agora, 20 anos depois, eis outro Mundial asiático, agora no Qatar e a meio da época desportiva, em Novembro e Dezembro.

Pergunta de algibeira: quem é campeão nacional no ano do Mundial-2002? Ah pois é, Sporting. E o arranque em nada faz prever esse final. À terceira jornada, a equipa do romeno Bölöni só acumula três pontos, garantidos na jornada de abertura, vs FC Porto, obra do compatriota Niculae. Daí para a frente, o Sporting perde feio no Restelo por 3:0 (Niculae falha penálti ainda com 0:0) e apanha valente desilusão em pleno José Alvalade vs Alverca (0:1) em pleno José Alvalade numa tarde em que Rui Jorge e João Vieira Pinto vêem o cartão vermelho directo do bracarense João Vilas Boas, já a caminho do balneário. O desnorte é considerável.

Para evitar mais uma época insossa, o presidente Dias da Cunha saca Jardel ao Galatasaray e o brasileiro cumpre a tradição de ser o rei do golo em Portugal, tal e qual no tempo do FC Porto entre 1996 e 2000. Super-Mário ajusta-se a João Vieira Pinto e marca sempre nos primeiros cinco jogos até ao 0:0 vs Santa Clara no José Alvalade. Depois, mais 11 golos em sete jornadas para provar a boa forma. Ao título de campeão de inverno, o Sporting junta o mais importante, o de campeão nacional, a uma jornada do fim.

Cumprida a formalidade no adeus à 1.ª divisão, com 2:1 vs Beira-Mar (e mais um bis de Jardel), falta só Taça de Portugal. O Leixões, da 2.ª B, é um digno adversário e só cai com outro golo de você-sabe-muito-bem-de-quem. Com a dobradinha no papo, a primeira desde 1982, a JuveLeo tem direito a 'assaltar' o top discográfico nacional com os seus cânticos. Eles lá sabem porque não ficam em casa.


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Então e a concorrência? Acredite, o rival mais competente é o Boavista de Jaime Pacheco, campeão nacional em 2001 e a cinco pontos do Sporting. Insistimos na pergunta, com outros contornos: então e os outros grandes? Em terceiro e quarto. Começamos pelo início, salvo seja. Octávio Machado, um histórico do FC Porto como jogador (campeão nacional em 1978) e adjunto de Artur Jorge (tricampeão nacional e campeão europeu), reentra no clube, agora para treinador. O começo é arrebatador com o título da Supertaça nacional, ganha vs Boavista em Vila do Conde com um golo do central Jorge Andrade.

O apuramento para a segunda fase de grupos da Liga dos Campeões garante (mais um) sucesso financeiro e serve para trocar de treinador. Em Janeiro 2002, então em quinto lugar, Octávio bate com a porta envolto em problemas infinitos, o mais bicudo relacionado com a braçadeira de capitão de Jorge Costa, entretanto emprestado ao Charlton (Inglaterra) para poder ir ao tal Mundial na Ásia.

Sem Octávio, o FC Porto volta-se para o treinador da U. Leiria, surpreendente quarto classificado. É jovem, fala nas horas e chama-se Mourinho, José Mourinho. Estamos a 21 Janeiro, dia em que Jorge Jesus é despedido do Vitória FC, penúltimo classificado. 

Na primeira conferência de imprensa, Mourinho promete o título nacional para 2002-03. Com ele, também chega um avançado sul-africano bom de bola. É jovem, joga nas horas e chama-se McCarthy, Benni McCarthy – faz 12 golos em 11 jogos de 1.ª divisão. A dupla de sucesso garante o terceiro lugar e a consequente qualificação para a Taça UEFA, conquistada no ano seguinte com pompa e circunstância vs Celtic em Sevilha (3:2 após prolongamento).

Revisão da matéria dada: Sporting 75 pontos, Boavista 70, FC Porto 68. Fora do pódio, Benfica 63. Uauuu, a 12 pontos do Sporting. Incrível, ninguém diria. O Verão 2001 é movimentado na Luz com as chegadas de Sokota, Simão, Zahovic, Drulovic, Mantorras, Argel e Caneira. Há matéria-prima. De sobra. Ainda por cima, o Benfica conta com Toni no banco desde o início da época pela primeira vez desde a época 1993-94, época do 6:3 no José Alvalade. E ainda acusa zero pressão europeia, na ressaca do desastroso sexto lugar em 2000-01.

O começo até é regular e a invencibilidade segura-se até à 13ª jornada, com sete vitórias e seis empates. Nada de especial, é um facto. Depois, o comboio descarrila. Uma derrota em Paços de Ferreira, um empate em casa vs Sporting consentido nos últimos cinco minutos com bis de Jardel (2:2) e a eliminação da Taça de Portugal vs Marítimo atiram Toni para o desemprego. A Direcção de Manuel Vilarinho elege o adjunto Jesualdo Ferreira para agarrar a equipa até Maio. E nada muda.


Conta-me como foi da bola
Efemérides e histórias caricatas do futebol pelo jornalista Rui Miguel Tovar.

O Benfica continua sem eira nem beira e acumula só dez vitórias nos 19 jogos em falta. Como resultado, o tal quarto lugar e mais um ano fora da Europa, algo impensável para um clube da dimensão do Benfica. Por ironia do destino, é o Benfica a garantir o título de campeão do Sporting. 

Na penúltima jornada, e já no dia seguinte ao 2:2 entre Vitória FC e Sporting no Bonfim, o Boavista vai à Luz na tentativa de apertar o líder. Em vão, Mantorras isola-se, William escorrega e o Benfica fixa o 2:1. O Sporting é campeão no hotel e o benfiquista Argel recebe uma chamada de agradecimento do compatriota Jardel, bêbado de champanhe e golos (Bola de Prata e Bola de Ouro, graças aos 42 golos).

(Autor escreve de acordo com a antiga ortografia.)

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