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Nossa rica medalhinha
Desporto 3 min. 01.07.2021
Paris 1924

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Paris 1924

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Paris 1924

Nossa rica medalhinha

Luís Pedro Cabral
Luís Pedro Cabral
As Olimpíadas que inspiraram o filme Momentos de Glória, também inspiraram os atletas portugueses. Portugal, que tinha enviado a maior comitiva de sempre, conquistou a sua primeira medalha olímpica. Bronze para o hipismo nacional.

Em 1923, após "putsch" (Golpe de Munique), um ex-cabo do exército bávaro, de bigode pouco expansivo e criterioso, estava na cadeia, condenado a cinco anos por traição, a escrevinhar o ideário do nazismo, não sonhando que o seu "Mein Kampf", havia de se transformar na bíblia do bom xenófobo totalitarista, que ainda hoje tem leitores. Nos EUA, os americanos bebiam copos à sombra da Lei Seca, Hollywood florescia, Charlie Chaplin emudecia multidões. O fascismo emergia. Depois da marcha de Roma (1922), Mussolini tomava a rédeas de Itália. De Portugal, Gago Coutinho e Sacadura Cabral partiam no seu hidroavião para a epopeia aérea. Um pouco por toda a parte, as mulheres conquistavam poder de sufrágio.

Em Paris, o inefável, incontornável e ominipotente barão de Coubertin, estava perante um caso de bipolaridade olímpica. Charles Pierre Fredy, o parisiense, teria de convencer o barão, presidente do COI, a trazer os Jogos Olímpicos de novo para a cidade, ignorando uma dezena de sólidas candidaturas a estas Olimpíadas. O gigantesco fiasco de Paris, em 1900, fora uma humilhação ainda atravessada na garganta de ambos. Charles Pierre dizia que esta imagem que Paris havia deixado teria de ser apagada da História com a organização de uma Olimpíadas inesquecíveis. As melhores de sempre, senhor barão. Mas o barão resistia. E se metessem de novo água, Charles Pierre? Como é que seria? Calma, monsieur de Coubertin, jamais se envergonharia de novo o pai das Olimpíadas modernas na sua terra-natal. Mas foram os piores JO de sempre, Charles Pierre. Eu sei, meu barão, mas desta vez será um evento em grande. Para além disso, a cidade da luz tem uma dívida para com os Jogos Olímpico, não acha? Mas e as outras candidaturas, Charles Pierre? O que lhes vamos dizer? Que somos franceses, que temos de limpar a nossa honra olímpica, senhor barão. Prometes, Charles Pierre?

Não foi difícil. O barão, que por estas alturas já andava a pensar no seu legado, persuadiu-se com o seu próprio argumentário. Desta vez é que era. Paris não havia de o deixar mal na fotografia. As outras candidaturas, lideradas pela cidade de Amesterdão, teriam de esperar sentadas a sua estreia olímpica. Outros valores se levantavam. E eram de berço. E foi assim, movendo influências dentro de uma mente, que pela segunda vez em três décadas a mesma cidade tinha a organização de umas Olimpíadas.

Desta vez tudo foi planeado ao detalhe. Mas os problemas começaram na sua execução, já que as obras de construção do estádio de Colombes ou da magnífica piscina de Tourelles, atrasaram, com o barão quase a perder as estribeiras e a entregar a organização a Amesterdão. Paris acelerou com esmero a sua redenção. Estes JO foram um enorme sucesso, a começar pelo recorde de presenças: 3075 atletas, de 44 países.

Foram estas Olimpíadas que inspiraram o filme Momentos de Glória - cuja banda sonora se tornou um clássico das campanhas eleitorais em Portugal -, que presta homenagem a dois heróis do atletismo britânico: Eric Liddell e Harold Abraham. O primeiro, missionário presbiteriano escocês, conhecido pelo seu estilo pouco ortodoxo, estabeleceu nos 400m um novo recorde mundial. Abraham, escritor e advogado, foi o primeiro atleta europeu a conquistar o ouro olímpico na prova dos 100m. Nestes JO foram retiradas duas modalidades de peso: o ténis e o rugby. Na natação e no pólo aquático nasceu para o mundo um atleta imparável, de nome John Weissmuller, em criança diagnosticado com raquitismo, mais tarde eternizado no papel de Tarzan.

E, finalmente, Portugal, que tinha enviado para Paris a maior comitiva de sempre (25 atletas, para competir em nove modalidades), conquista a sua primeira medalha olímpica, na modalidade de hipismo. Os cavaleiros portugueses Hélder de Sousa Martins, Aníbal Borges de Almeida e José Mouzinho de Albuquerque, trouxeram o bronze na prova de obstáculos. Os atletas franceses bem tentaram oferecer os seus momentos de glória ao barão de Coubertin, mas foram de novo os EUA a confirmar a sua hegemonia olímpica: 99 medalhas, 45 de ouro.

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