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Nike, Adidas, Puma e o mundo desconcertante das marcas desportiva desde a birra entre dois irmãos alemães
Desporto 7 min. 27.08.2021
Futebol

Nike, Adidas, Puma e o mundo desconcertante das marcas desportiva desde a birra entre dois irmãos alemães

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Nike, Adidas, Puma e o mundo desconcertante das marcas desportiva desde a birra entre dois irmãos alemães

Foto: DR
Desporto 7 min. 27.08.2021
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Nike, Adidas, Puma e o mundo desconcertante das marcas desportiva desde a birra entre dois irmãos alemães

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
Bem-vindo ao desconcertante mundo das marcas desportivas. A crónica semanal do comentador desportivo do Contacto, Rui Miguel Tovar.

De um lado, a selecção holandesa. Do outro a espanhola. Joanesburgo é o palco. A data, 11 Julho 2010. Acrescentamos: de um lado a Nike, do outro a Adidas. Aos 116 minutos, Iniesta faz o golo da final do Mundial. Ganha a Espanha. Ganha a Adidas. E também a Nike. Como assim? Iniesta calça Nike.

Bem-vindo ao desconcertante mundo das marcas desportivas. Adolf Dassler, decore este nome. Ele é a Adidas. “Adi” como diminutivo de Adolf e “das” do apelido Dassler. O homem é o responsável pelo título de campeão mundial da RFA em 1954, na final de Berna com a Hungria. Como chove bem, Adi Dassler dá aos jogadores alemães umas chuteiras modernas com traves rotativas na sola para melhor aderência ao relvado. A imbatível Hungria começa melhor, com 2-0 antes dos 10 minutos, só que a insistente chuva guia a RFA para a inacreditável vitória por 3-2 apelidada de “Milagre de Berna” e já motivo de um filme sobre a odisseia.

A Adidas ganha aqui o seu primeiro ponto. Então e a Puma? É apanhada descalça uma outra vez, nos Jogos Olímpicos Tóquio-64, quando o sprinter norte-americano Bob Hayes corre para a Adidas em segredo. Só durante a primeira corrida é que se dá o tchan tchan tchan tchaaaaaaan. Hayes é campeão olímpico dos 100 metros e ainda dos 4×100 estafetas. Pobre Puma. Quatro anos depois, por ocasião dos Jogos Olímpicos Cidade do México-68, a Adidas (sabe-se lá por alma de quem) manda os seguranças alfandegários confiscar todos os atletas com ténis Puma.

Então e a Puma? (repetimo-nos) A resposta tem de chegar, dê lá por onde der. E serve-se fria. Gelada, até. Que golpe. Avançamos dois anos e continuamos no México. É a euforia do Mundial. Para evitar descalabros, tanto Adidas como Puma assinam verbalmente o pacto Pelé para evitar mais um episódio da guerra surda entre as duas marcas e os dois irmãos (ah é verdade, esquecemo-nos de apimentar a coisa com o nome do dono da Puma: Rudolf, irmão de Adolf). Muito bem, o pacto Pelé estabelece-se e ninguém incomoda o rei do futebol.

Ninguém, mesmo? Nas meias-finais, enquanto o imbatível Brasil elimina o Uruguai na paz, RFA e Itália esgrimem argumentos num dos jogos mais ricos em emoção de sempre. Boninsegna marca aos 7′, Schnellinger (então no Milan) empata em cima do minuto 90. No prolongamento, Müller completa a reviravolta, só que Burgnich e Riva respondem na mesma moeda: 3-2 no final da primeira parte. Aos 110′, o inevitável Müller empata. A bola vai ao meio e, 30 segundos depois, mais coisa menos coisa, Rivera fixa o 4-3.

A final apresenta-nos o fascinante futebol-samba do Brasil, com cinco vitórias em cinco jogos, mais a encantadora máquina da Itália, mais vocacionada para o ataque do que costume no mata-mata (4-1 ao México, 4-3 à RFA) em contraste com a pobreza do 1-0 em golos na fase anterior, num grupo com Suécia, URSS e Israel. Ou seja, todos os caminho vão dar ao golo com Brasil e Itália. O espectáculo está servido. Entram as equipas, soam os hinos, escolhe-se cara ou coroa e siga a marinha. O árbitro está pronto para o apito inicial e Pelé estende o braço como a pedir desconto de tempo. A câmara faz zoom, Pelé agacha-se e aperta os atacadores. Mais zoom, please. A chuteira preta só tem uma risca, é da Puma. Puuuuuuumba, vai buscar ò Adidas.

O Brasil volta a ganhar na paz e Pelé marca o primeiro da final num cabeceamento formidável, além de fazer mais duas assistências, para o 3-1 de Jairzinho e o 4-1 final do capitão Carlos Alberto. O melhor movimento, esse, é o de aperar os atacadores. Que operação de charme, pré-marketing. O pacto Pelé vai para o galheiro. Como assim? A Puma sela o acordo com a Adidas e, ao mesmo tempo, envia o representante Hans Henningsen para o meio da selecção brasileira. Num piscar de olhos, Henningsen faz amizade com Pelé. Que lhe abre a porta para os outros convocados de Zagallo. Esperto, Henningsen faz negócio com este, aquele e o outro. Nada com Pelé. Quando toda a equipa já é da Puma, então Henningsen avança com uma proposta sem consultar a Puma. Em cima da mesa, 120 mil dólares. Uns 620 mil euros no câmbio de hoje. Pelé aceita, sem saber do pacto com o seu nome entre Adidas e Puma. O que ele sabe é que tem de apertar os atacadores antes do apito inicial. Puuuuuumba, parte 2.

Pormenor delicioso. Contado por Tostão, muitos anos depois. “O que muita gente não sabe é que as chuteiras eram Adidas mesmo. Por serem mais confortáveis que as da Puma, o Pelé usava Adidas. Só que o negócio é o seguinte: ele pediu ao massagista para dar uma maquilhada na chuteira e o cara tirou as três tiras da Adidas.” Puuuuuuumba, parte 3. A Adidas entra em conflito com a Puma pela enésima vez, os irmãos Dassler não vão mesmo à bola um com o outro. Segue-se o quê?

O último acto, em 1974, por ocasião do Mundial na RFA. Com a ajuda do presidente da FIFA, o brasileiro João Havelange, a Adidas entra na estrutura do organismo e impõe-se. Além das camisolas, a bola oficial é Adidas, o equipamento dos árbitros é Adidas e parte da publicidade estática nos estádios é Adidas (a par de Coca-Cola, Hyundai-Kia Motors, Emirates, Sony e Visa). Faz parte dos big 6, portanto. O salto do Mundial-74 para o de 78 é espantoso. De um momento para o outro, a Adidas veste a maioria das selecções (nove), incluindo a campeã Argentina. Há ainda Puma (Bulgária), Umbro (Escócia e Áustria) e Levis (Bulgária). Em 1982, o Mundial cresce para 24 participantes e a Adidas aumenta o domínio para 13. A ditadura mantém-se durante anos e anos, com títulos mundiais em 1978, 1990 (RFA), 1998 (França) e 2010 (Espanha). Quatro, ao todo. Quase tantos como todos os outros: Puma (Itália 1982, 2006), Le Coq Sportif (Argentina 1986), Umbro (Brasil 1994) e Nike (Brasil 2002).

Agora, de repente, o monopólio alemão é interrompido pela força norte-americana da Nike. Se a Adidas veste 12 selecções em 2010 contra nove da Nike, seis da Puma e cinco “menores”, o caso muda significativamente de figura em 2014 com dez para Nike, nove para Adidas, oito para Puma e os tais cinco menores. A aposta Nike é Brasil mais Neymar (o factor casa), as novas bandeiras de propaganda são França e Inglaterra. Fiel à Adidas desde 1972, a França mudase a troco de 60 milhões de euros/ano até 2018 (o triplo do anterior contrato). Já a Inglaterra desfaz-se da Umbro e encaixa 20 milhões/ano também até ao próximo Mundial. A Nike baralha o mercado, a Adidas defende-se como pode e renova com Espanha (40 M€ por ano). Segue-se a Alemanha (55), com intervenção de Merkel. O caso da Argentina é ligeiramente diferente: 166 milhões até 2022.

Na loja da Adidas em Nuremberga, perto de Herzogenaurach (local de nascimento de Adolf Dassler), vende-se o equipamento da Alemanha e o da Argentina. No muro lê-se equipa de Adi Dassler e equipa de Messi. Com perfil mais introvertido, a alemã Puma tem oito selecções, metade delas em África (escapa-lhe a Nigéria: Adidas). E o resto? As seis equipas em falta repartem-se por outras tantas marcas: Legea (italiana) para a Bósnia, Uhlsport (alemã) com o Irão, Marathon no (equatoriana) Equador, Joma nas (espanhola) Honduras, Lotto na (italiana) Costa Rica e Burrda (suíça) na Bélgica. Pois é, longe vão os tempos em que o amor à camisola tem outro encanto. Como no Mundial-50, por exemplo, quando o futuro campeão Uruguai entra no Pacaembu em São Paulo (vs. Espanha, 2-2) com o símbolo do clube são-paulino estampado junto ao coração

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