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Não vejam a bola
Opinião Desporto 4 min. 15.11.2022
Mundial 2022

Não vejam a bola

O comediante Simon Brodkin atirou um maço de notas ao presidente da FIFA, Sepp Blatter, para criticar a visão monetarista do organismo mundial do futebol.
Mundial 2022

Não vejam a bola

O comediante Simon Brodkin atirou um maço de notas ao presidente da FIFA, Sepp Blatter, para criticar a visão monetarista do organismo mundial do futebol.
Foto: Arnd Wiegmann/Reuters
Opinião Desporto 4 min. 15.11.2022
Mundial 2022

Não vejam a bola

Hugo GUEDES
Hugo GUEDES
O Mundial do Qatar é o expoente máximo de tudo o que está errado com este outrora maravilhoso desporto.

O comediante Simon Brodkin criou em 2015 um vídeo delicioso que vale muito a pena rever por estes dias: vestido com um fato e uma gravata impecáveis e um cartão na lapela com a bandeira da Coreia do Norte, irrompeu pela sede da FIFA onde o então presidente Sepp Blatter se preparava para discursar e tentou entregar-lhe um maço de notas (600 dólares do seu próprio dinheiro) enquanto anunciava: "Isto aqui é para garantir o mundial na Coreia do Norte em 2026, Sepp. Obrigadinho, Sepp". Quando a segurança insistentemente chamada por Blatter chegou, Brodkin fez chover o dinheiro sobre o octogenário homem-forte da FIFA. As fotografias deste último momento são absolutamente brilhantes.

Pelo menos a FPF, juntamente com outras nove congéneres europeias, esteve bem na resposta: 'Os direitos humanos são universais, e também se aplicam no Qatar'.

Claro, a encenação funciona muito melhor porque no centro do palco está Sepp Blatter, um personagem que passaria facilmente por vilão maléfico de uma qualquer banda desenhada. Blatter, nunca é demais recordá-lo, foi condenado por corrupção activa (outro personagem viscoso, Michel Platini, foi o corruptor passivo) e está banido do futebol até 2028. As alegações de assédio sexual a jogadoras e as suas múltiplas declarações racistas e homófobas passaram, até agora, incólumes.

Já a piada do "Mundial da Coreia do Norte 2026" se faz sozinha: a FIFA ofereceu o evento de 2018 à Rússia e o de 2022 ao Qatar, outros dois regimes totalitários. Tudo aconteceu numa vergonhosa noite de Dezembro em 2010 em que os vinte e dois membros do Comité Executivo da FIFA votaram nas suas candidaturas preferidas, e os arquitectos principais desse grande negócio duplo têm nomes: Blatter, Platini, Nicolas Sarkozy, Mohammed bin Hammam (catariano que presidia à confederação asiática), Vitali Mutko (director da candidatura russa) e Vladimir Putin. 

Passaram 12 anos. No total, dos 22 homens que votaram, 16 já foram implicados em escândalos de tráfico de influências (presumo que seja só uma questão de tempo para os restantes seis). Blatter, Platini e Bin Hammam foram banidos do futebol por corrupção. Sarkozy foi condenado a prisão efectiva por corrupção e tráfico de influências. Mutko foi implicado no escândalo de doping que baniu a Rússia das Olímpiadas. Putin manda matar civis ucranianos diariamente, em plena Europa.


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Tudo isto é ANTES de começarmos a falar de direitos humanos, de falarmos sequer no tratamento de trabalhadores imigrantes – para usar o nome correcto e não eufemístico: escravatura. A escravatura do século XXI, que em vez de desumanizar africanos nos campos de algodão desumaniza bangladeshianos (e africanos) nos campos de futebol. Foram mais de 6,000, ou menos de 4.000, os números não são exactos, mas foram muitos os que morreram e muitos mais os que perderam a dignidade e a família para ganhar 200 euros no meio da opulência do deserto.

Tudo isto é ANTES de começarmos a falar do sistema repressivo que incentiva os ataques corporais à comunidade LGBTQI, e pune a mão dada entre dois homens (ou mulheres) com a cadeia. Apenas há uma semana, um 'embaixador' catariano do Mundial explicou-nos que só é homossexual quem tem "danos mentais".


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Tudo isto é ANTES de começarmos a falar na megalomania de construir de raiz oito gigantescos estádios onde eles nunca mais serão necessários, ou na loucura criminosa de, no mesmo momento em que o planeta definha devido a emissões de carbono destruidoras do clima, construí-los no meio do deserto, refrigerados a ar condicionado permanente, ineficiente e movido a combustíveis fósseis.

O pináculo da ironia é que, no meio desta ode ao dinheiro, à venialidade e ao poder mais abjecto, a meia-dúzia de corruptos que ganham com este esquema ainda tentam impingir aos fãs lengalengas estafadas tipo "todos juntos", ou "agora é tudo" (o inspiradíssimo slogan deste mundial). 

Sentindo a falta de interesse que a farsa está a conseguir despertar, a FIFA enviou uma carta ridícula a todas as federações participantes implorando-lhes para "se abster de defender causas". Traduzindo: calem-se e chutem a bola. Pelo menos a FPF, juntamente com outras nove congéneres europeias, esteve bem na resposta: "Os direitos humanos são universais, e também se aplicam no Qatar".

Isto não é futebol, é o seu alter-ego podre. O Mundial do Qatar é o expoente máximo de tudo o que está errado com este outrora maravilhoso desporto. Conheço várias pessoas – algumas delas portuguesas, uma delas eu próprio – que adoram futebol, mas não pactuam com esta farsa corrupta e, por princípio e por defesa da sua qualidade de vida e saúde mental, não vão ver os jogos. Faço a mesma sugestão aqui: tomem uma posição e não vejam.

 (Autor escreve de acordo com a antiga ortografia.)

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