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Setembro Negro
Desporto 3 min. 12.07.2021
Munique 1972

Setembro Negro

Munique 1972

Setembro Negro

Desporto 3 min. 12.07.2021
Munique 1972

Setembro Negro

Luís Pedro Cabral
Luís Pedro Cabral
Na noite de 4 de Setembro, operacionais pró-Palestina entraram na aldeia olímpica, espalhando o terror, que acabou num aeroporto de Munique num banho de sangue, em directo na tv. Os JO não foram interrompidos. Carlos Lopes teve estreia azarada.

Em 1969, a pegada do Homem e uma bandeira americana em solo lunar tinham proclamado o grande vencedor da corrida espacial. Em directo na tv, a Apollo 11 tinha aterrado na Lua, como se aterrasse numa ficção. Visto da Terra, talvez não fosse mau sítio para se estar. Cá em baixo, novas e velhas guerras decorriam, vivendo o mundo sob ameaça nuclear. Os EUA estava à beira de sofrer a mais pesada das derrotas no Vietname, onde chovia Napalm. A grande maioria das cidades norte-americanas estavam a ferro e fogo. Richard Nixon afundava rumo ao escândalo final da sua presidência: o Watergate. No Médio Oriente, paz impossível. Um pouco por toda a Europa vigorava a lei da bomba. No Reino Unido, o IRA. Em Espanha, a ETA. Em Itália, as Brigadas Vermelhas. Na República Federal da Alemanha (RFA), a Baader-Meinhof. Impunha-se a violência como uma espécie de moda. Nada como a interminável história do conflito israelo-palestiniano, que havia de escrever um capítulo sangrento nos JO de Munique, os primeiros na Alemanha depois da magna encenação nazi de 1936.

Em 1972, já muitas feridas da História contemporânea se tinham amenizado, enquanto outras se reabriam. A organização alemã estava apostada em fazer desta competição na Baviera um hino ao desporto olímpico. O COI esfregava as mãos de contente com o número de presenças sem precedentes: 7121 atletas, de 121 países. Só não estiveram mais porque o COI, temendo os previsíveis boicotes africanos, baniu a participação da Rodésia (actual Zimbabwe). Munique parecia não ter descurado o ínfimo pormenor para recolocar a Alemanha no grande pódium dos eventos olímpicos. Mais de quatromil jornalistas tinham confirmado presença para a cobertura do evento, outra marca mundial. A televisão já era, decididamente, o grande ópio do povo. Em frente ao ecrã, as imagens de morte já se haviam tornado quase banais. Mas ninguém estava preparado para o Setembro que aí vinha.

Na noite de 4 de Setembro, toda a delegação de Israel se deslocou para assistir a uma peça de teatro: O Violino no Telhado - baseado nos contos de Sholom Aleichem -, era uma peça judia, sobre o despertar do antissemitismo numa pequena vila russa, sob o regime czarista, no início do século XX. Uma ironia histórica, em solo alemão. O regresso à aldeia olímpica seria tranquilo, mas o mesmo não aconteceria de madrugada. Elementos do Setembro Negro, uma facção armada da OLP (Organização de Libertação da Palestina), conseguiram ultrapassar a frágil segurança, entrando na Olímpiapark, em busca da delegação israelita. Um treinador e um dos seus atletas foram mortos a sangue-frio, fazendo outros nove reféns. Estas Olimpíadas deram lugar a um filme de terror em directo. Num ápice, o número de jornalistas presentes duplicou.

Numa operação de resgate atabalhoada, a situação foi agudizando até a um banho de sangue no aeroporto de Furstenfeldbruck, em Munique. Os terroristas acabariam por matar os reféns, a polícia acabaria por abater os terroristas, um polícia alemão foi morto. O mundo tinha os olhos em Munique, escandalizado. Imersos em choque e violência, ainda assim, por decisão do COI, os JO prosseguiram. A Noruega, a Holanda e as Filipinas decidiram abandonar. Todos os feitos ali alcançados seriam obviamente secundarizados. Só mais tarde, na caminhada para as próximas olimpíadas, se reconheceu a importância da prestação extraordinária de Mark Spitz, nadador americano, que conquistou sete medalhas de ouro e outros tantos recordes do mundo.

Na delegação portuguesa, viajava um jovem atleta, que transportava todas as esperanças nacionais. A estreia olímpica de Carlos Lopes, porém, foi azarada, não tendo passado da prova de qualificação dos 5 mil metros. O grande campeão português foi pisado à passagem dos 3 mil metros e teve de correr o resto da prova sem uma sapatilha.

A URSS (50 medalhas de ouro; 27 de prata; 22 de bronze) sobrepôs-se de novo aos EUA (33 medalhas de ouro; 31 de prata e 30 de bronze). A derrota mais difícil de digerir foi, sem dúvida, na final de basquetebol, que acabou em duplo escândalo. Primeiro, porque a "dream team" nunca tinha perdido uma final, depois porque o árbitro, quando os EUA ganhavam por um ponto a um segundo do fim, resolveu andar com o cronómetro dois segundos para trás. A URSS fez um cesto de ouro. Um fenómeno que nunca mais se repetiu.

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