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Mundial 2002: o desastre português faz 20 anos
Desporto 5 min. 15.06.2022
Histórias da Bola

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Mundial 2002: o desastre português faz 20 anos

Desporto 5 min. 15.06.2022
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Mundial 2002: o desastre português faz 20 anos

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
Contado nem se acredita: só pode ser uma narrativa de ficção científica, a aventura de Portugal na Coreia.

Ponto de partida, porquê Júlio? Sim, porquê Júlio Verne? O nome do homem é Jules Verne, porquê aportuguesá-lo? Por acaso, dizemos Alfredo Hitchcock, João Malkovich ou Pedro O’Toole? Adiante, Jules Verne diz de sua justiça. ‘A ciência compõe-se de erros que, por sua vez, são os passos até à verdade’. Se ele conhecesse a selecção portuguesa do Mundial-2002 e o treinador António Oliveira, o género literário da ficção científica ganharia outro élan.

Porquê? Simples, o erro repete-se 16 anos depois. No Mundial México-86, um caso de doping atira Veloso (Benfica) para fora dos convocados, substituído por Bandeirinha (Académica). No Mundial Coreia do Sul/Japão-2002, é Kenedy (Marítimo) quem sai à última hora. "Tomei um comprimido para emagrecer durante a minha semana de férias, entre o fim do campeonato e o início do estágio. É um dia triste para mim." Mais à frente, Kenedy dá uma bicada. "Apanhei por tabela, estou metido numa guerra entre a federação e os responsáveis pelo controlo antidoping, mas não quero ir por aí. Só quero deixar claro que não me dopei." Hugo Viana é repescado.

A esta confusão alia-se a lesão de Figo, provocada por Deco num Real-Porto em Fevereiro desse ano, para a Liga dos Campeões. Três meses depois, o melhor do mundo para a FIFA ainda tem o pé direito do tamanho de uma batata. O jogo de estreia é com os EUA e o início é desastroso com 3:0 aos 36 minutos. Acaba 3:2, o embaraço é mais-que-evidente. Segue-se a Polónia. Em dia de aniversário, 10 de Junho, Oliveira aparece em campo de muletas por ter torcido o pé esquerdo num choque com o adjunto José Romão na biblioteca do hotel e acerta a táctica com o regresso do 4-2-3-1 da fase de qualificação após a infeliz experiência do 4-1-3-2 vs EUA. Para tal, Paulo Bento entra para jogar ao lado de Petit. Fortalecido o meio-campo, Oliveira abdica de um elemento no ataque. Pauleta é o 9 de eleição, João Pinto recua para 10, Rui Costa encosta. Pauleta exibe-se ao seu melhor nível e assina um hat-trick. O 4:0 final é uma jogada entre suplentes, cruzamento de Capucho, toque hábil de Rui Costa.

Quatro dias separam o 4:0 vs Polónia do jogo com a anfitriã Coreia do Sul. Nesse período, França e Argentina fazem as malas. O seleccionador António Oliveira continua de muletas e só faz uma alteração, com a troca de lateral-direito: reentra Beto para o lugar de Frechaut. De resto, o mesmo esquema do 4-2-3-1 com João Pinto entre Figo (direita) e Conceição (esquerda) a alimentar Pauleta. De fora, outra vez, Rui Costa. À partida, Portugal está obrigado a ganhar – o empate também serve para passar a fase de grupos, se os EUA perderem vs Polónia.

Antes do jogo, a fadista Mariza canta o hino e há uma emoção diferente entre os jogadores. Que o digam Jorge Costa e Conceição em animada cavaqueira naquele alinhamento para a fotografia. São 12h30 da tarde em Portugal continental. O jogo começa à hora marcada, com João Pinto a dar para Pauleta. Um minuto depois do primeiro remate do jogo, a Polónia dá-nos uma alegria com o golo de Olisadebe. No instante seguinte, 2:0 da Polónia. Quer isto dizer, o nulo em Incheon vale o apuramento directo para Portugal e fecha a porta do Mundial aos EUA. Dentro do relvado, ninguém sabe de nada. Ordens de Oliveira, e porquê? Sabe-se lá, taras e manias. Isto é como o Jules e o Júlio.

O pior nem é isso. Aos 23 minutos, João Pinto apanha uma valente traulitada de Kim. O árbitro argentino Ángel Sánchez mostra cartão amarelo ao sul-coreano- João Pinto levanta-se pior que estragado e, três minutos depois, apanha um adversário ali a jeito. O pobre rapaz chama-se Park Ji-Sung e é vítima de uma tesoura no meio-campo. A entrada é violenta, a bola não é tida nem achada no assunto. Ángel Sánchez nem pensa duas vezes e puxa o cartão vermelho, João Pinto enerva-se ainda mais e dá-lhe um murro no estômago com o punho direito. O esgar do juiz sul-americano, num misto de incredulidade e dor, é um poema.

Na segunda parte, a Coreia cresce e incomoda Baía com dois cabeceamentos a rasar o poste. De Portugal, zero. E tudo piora aos 66’, com o segundo amarelo a Beto e o corresponde vermelho – e a falta até é inexistente (mergulho de Lee). Com nove em campo, Oliveira tira Pauleta e coloca Jorge Andrade. A ideia de defender o 0:0 cai por terra aos 70’, num remate de Park (o tal da entrada dura de João Pinto). O extremo do PSV recebe com o peito, ludibria Conceição com uma simulação com o pé direito, mete para dentro e toma lá disto com o pé esquerdo. A bola voa a meia altura, por entre as pernas de Vítor Baía.

A Polónia continua a ajudar (já vai em 3:1). Um golo é o suficiente para chegar aos oitavos-de-final, espera-nos o México. Ou não? É mais isso. Nuno Gomes falha um golo na cara do guarda-redes, Vítor Baía sacode a pressão só com Song pela frente, Sérgio Conceição atira ao poste (89’), Baía salva novo contra-ataque (90’) e Conceição obriga o guarda-redes a defesa por instinto para canto (90’+3). Quando Ángel Sánchez apita para o fim, o adeus ao Mundial é inevitável.


Conta-me como foi da bola
Efemérides e histórias caricatas do futebol pelo jornalista Rui Miguel Tovar.

A chegada ao aeroporto da Portela, faz hoje 20 anos, é um misto de emoções desmedidas. João Pinto é mais aplaudido que assobiado. ‘Não agredi ninguém’, diz o 8. Errrrrr. A FIFA suspende-o por quatro meses, e só voltaria a jogar em Outubro, pelo Sporting (marca até um golo no 2:0 vs Belenenses). Pela selecção é que nunca mais.

(Autor escreve de acordo com a antiga ortografia.)

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