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Um boicote chamado Afeganistão
Desporto 3 min. 15.07.2021
Moscovo 1980

Um boicote chamado Afeganistão

Moscovo 1980

Um boicote chamado Afeganistão

Desporto 3 min. 15.07.2021
Moscovo 1980

Um boicote chamado Afeganistão

Luís Pedro Cabral
Luís Pedro Cabral
As Olimpíadas de Moscovo foram marcadas pela ausência de 65 países, encabeçados pelos EUA, que condenaram a invasão do Afeganistão pela URSS. A história provaria a ironia disto. Mas não em Moscovo.

Acontecesse o que acontecesse nos JO de Moscovo, era provável (ou talvez não) que passasse na CNN, que fazia a sua estreia nos ecrãs. Já não pôde noticiar a morte de Mao Tse Tung, em 1976, mas podia tentar uma entrevista a Deng Xiaoping. Em Inglaterra, Margaret Thatcher, a "Dama de Ferro", iniciava o primeiro de três mandatos em Downing Street. Os EUA, sob a presidência de Jimmy Carter, com a pesada derrota no Vietname (1975), enfrentavam incessantes convulsões sociais e a escalada de violência urbana. Na URSS, nada de novo. Ou melhor, havia a organização de um evento planetário, que obrigaria a União Soviética a abrir a sua janela para o mundo, coisa que não era muito do agrado do imperturbável Leonidas Brejnev, que a escassos meses dos JO de Moscovo ordenou a invasão do Afeganistão. Este acto de guerra condicionaria (e muito) estas Olimpíadas.

Se alguém julgava que o recorde absoluto do boicote de Montreal jamais seria quebrado, enganava-se. O futuro encarregar-se-ia de demonstrar a vã ironia das coisas, mas os EUA, pela voz do seu chefe de Estado, fez da invasão do Afeganistão uma bandeira americana, o que fazia desta uma bandeira internacional. No longo decurso da Guerra Fria, ainda duradoura, os EUA não perderam oportunidade de movimentar as suas pedras no xadrez internacional. Como era esperado, o Afeganistão e os rebeldes "mujaheddin" tornaram-se causa do mundo ocidental, chocado com a prepotência soviética. Estava encontrado o pretexto para um fortíssimo ataque político a Moscovo. Os EUA, arquirrival histórico da URSS em tantas coisas e na competição olímpica também, empenharam-se em boicotar as Olimpíadas soviéticas. Tomava forma o maior boicote de sempre a um evento olímpico.

Do outro lado da Cortina de Ferro, a URSS mantinha-se impávida e, cada vez mais, só, sentindo até dificuldade em reunir o tradicional apoio dos países do Bloco de Leste, a começar pela Polónia, onde um electricista de farto bigode, à bolina dos acontecimentos internacionais, desencadeava um movimento de contestação imparável, dos estaleiros de Gdansk para o mundo. Lech Walesa e a sua "Solidariedade" haviam de conseguir abalar as fundações do poder de Moscovo, encontrando o mais improvável dos aliados: a Igreja Católica. Depois do curto pontificado de João Paulo I, que foi sumo-pontífice pouco mais de um mês, fumo branco havia de escolher o cardeal Wojtyla, polaco, que na História ficaria como João Paulo II.

Nos bastidores diplomáticos do boicote ao gigante olímpico, os EUA conseguiram reunir largos apoios, entre os quais não se incluia a Grã-Bretanha, que anunciou a sua presença em Moscovo. Portugal, tendo então Francisco Sá-Carneiro por primeiro-ministro, oficialmente não apoiou o boicote, sem deixar de o apoior. Sá Carneiro chegou mesmo a apelar aos atletas portugueses classificados para os JO para a não-comparência. Apoiou o boicote, não o decretando.

Por motivos distintos, alguns atletas de peso ficariam mesmo em Portugal. Desde logo Carlos Lopes, que não iria defender a sua medalha de prata nos 10 mil metros por estar a contas com uma lesão. Fernando Mamede aderiu ao boicote, o mesmo acontecendo com Alexandre Yokochi, que nesse ano tinha conquistado a medalha de prata no campeonato da Europa de natação. Mamede e Yokochi não estiveram sozinhos. O apoio ao boicote foi generalizado. Em Moscovo não compareceram 65 nações, o que acabou por transformar as Olimpíadas soviéticas numa das menos participadas de sempre: 80 países. Para encontrar um número tão reduzido de países em competição ter-se-ia de viajar até Melbourne, em 1956.

Friamente, a URSS encarou o fenómeno como uma acentuada diminuição da concorrência. Se em circunstâncias normais já era esperado que dominasse as suas olimpíadas, não era preciso um mago para perceber quem seria o grande vencedor destes JO. E até já se sabia quem ocuparia o segundo lugar do pódium: a República Democrática da Alemanha (RDA). A lógica desta profecia cumpriu-se amplamente. A URSS conquistou o maior número de medalhas de ouro da História dos JO: nada mais, nada menos, do que 80 (num total de 195 medalhas). Se em Moscovo faltou claramente quantidade de atletas, não faltaria a qualidade. Caíram 34 recordes mundiais. 

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