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Morreu o melhor jogador desconhecido de sempre
Desporto 4 min. 11.05.2020

Morreu o melhor jogador desconhecido de sempre

Morreu o melhor jogador desconhecido de sempre

Foto: El Ciudadano
Desporto 4 min. 11.05.2020

Morreu o melhor jogador desconhecido de sempre

Bruno Amaral de Carvalho
Bruno Amaral de Carvalho
Diz-se que podia ter sido o melhor jogador de sempre e era admirado por Maradona, Bielsa e Pekerman. Tomás Felipe Carlovich, conhecido como El Trinche, desconhecido no mundo inteiro, era uma lenda no seu país e abdicou do estrelato para viver no seu bairro e jogar com os amigos em escalões inferiores.

Se na Argentina, e em boa parte do mundo, Diego Armando Maradona é considerado o deus do futebol, ao ponto de os seus fãs terem criado a igreja maradoniana, o astro que espalhou magia pelos relvados considerou Tomás Felipe Carlovich o melhor de sempre. “Trinche, foste melhor do que eu”, escreveu Maradona há três semanas ao seu ídolo. Mas quem é este jogador absolutamente desconhecido que conquistou seguidores como os ex-jogadores e treinadores argentinos Marcelo Bielsa, José Pekerman e César Luis Menotti, para além do próprio “Pibe”? É tal a mitologia criada à volta de Carlovich que não se sabe se tudo o que se diz sobre ex-jogador é verdade. Tampouco se é mentira. Porque sempre vestiu a pele de anti-herói e, sobretudo, porque nunca jogou no escalão maior do futebol argentino, o único de que há imagens registadas em vídeo. 

Diz-se que uma vez disputou uma partida durante 90 minutos jogando a bola apenas com o calcanhar. Também reza a lenda que Trinche, como também era conhecido, teria o recorde individual de posse de bola. Dez minutos que só não foram mais porque foi travado por uma falta violenta de um adversário. Noutra ocasião, terá sido expulso pelo árbitro que foi obrigado a retirar a cartolina vermelha devido à reação do público que ali se tinha dirigido sobretudo para o ver. Na Argentina, onde a poesia também se escreve com o esférico, diz-se que a esquerda de Carlovich não tinha rival e que realizava uma jogada chamada “doble caño”, que consistia em passar a bola duas vezes entre as pernas do adversário, já que a considerava mais elegante do que passar a bola debaixo das pernas apenas uma vez. 

Por tudo isto, Tomás Felipe Carlovich, ‘El Trinche’, ficará na memória como o melhor jogador desconhecido de futebol de todos os tempos. A sua morte, na sexta-feira, aos 74 anos, durante um assalto, adensa a lenda de um homem que nunca se achou melhor do que ninguém. “Diego, foste o melhor que vi na vida”, respondeu em fevereiro aos elogios de Maradona. 

Mas se era tão bom por que nunca soubemos dele no resto do mundo? Esta personagem peculiar que nasceu em 1946 num bairro pobre de Rosario não queria saber de ganhar ou perder. Era filho de um canalizador jugoslavo e tinha seis irmãos. Formou-se no Rosario Central, clube de que era adepto outro dos mais famosos argentinos, Ernesto ‘Che’ Guevara, e acabou a jogar no Central Córdoba entre 1972 e 1986. Mas, na cidade onde viriam a nascer Messi, Di Maria e Lavezzi, Trinche faltava aos treinos, a rebeldia que lhe pulsava no sangue não o deixava submeter-se a qualquer disciplina e não alcançou o estrelato. Gostava do desporto como forma de arte e de prazer. 

De acordo com o El País, em 1974, jogou com um grupo de jogadores de Rosario num amigável contra a seleção argentina de Kempes, Babington, Houseman, entre outros, que se preparava para o Campeonato do Mundo na Alemanha Ocidental. Os atletas de Rosario foram para o intervalo a vencer por 3 a 0, com El Trinche em grande exibição. Foram tantos os estragos que o selecionador argentino Vladislao Cap suplicou para que o retirassem do relvado antes que desmoralizasse mais os seus jogadores.

Apesar de não jogar no escalão máximo do futebol argentino, dois anos depois, César Luis Menotti convocou-o para a seleção. Carlovich não apareceu. O próprio selecionador explicou que o jogador preferiu ir à pesca. Em 1979, o modesto Andes Talleres, de Godoy Cruz, convidou-o a integrar a formação para jogar em Mendoza contra o AC Milan, que visitava a América Latina. Segundo o El País, os jornais da época dizem que El Trinche enlouqueceu um jovem defensor do clube italiano, de 19 anos, chamado Franco Baresi.

“Eu não tive outra ambição a não ser jogar futebol. E, sobretudo, não me quis afastar do meu bairro, da casa dos meus pais, de estar com Vasco Artola, um dos meus melhores amigos. Sou uma pessoa solitária. Gosto de estar tranquilo, não é por má vontade”, explicava Carlovich. Viveu até sexta-feira na casa dos pais, onde nasceu, num bairro operário de Rosario. Na última quarta-feira, saiu de casa e roubaram-lhe a bicicleta em que se deslocava. Foi vítima de agressão e transportaram-no para o hospital com um derrame cerebral mas nunca mais recuperou a consciência. O mundo perdeu o homem que abdicou de ser astro de futebol para continuar a viver no seu bairro. Milhares de adeptos encheram o humilde estádio do Central Córdoba, apesar da pandemia, para a despedida a Trinche.

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