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Boicote olímpico
Desporto 3 min. 14.07.2021
Montreal 1976

Boicote olímpico

Montreal 1976

Boicote olímpico

Desporto 3 min. 14.07.2021
Montreal 1976

Boicote olímpico

Luís Pedro Cabral
Luís Pedro Cabral
Depois da tragédia de Munique, dificilmente os JO de Montreal podiam ser piores. A organização gastou o que tinha e o que não tinha. Mas não impediu um boicote de 39 países, na maioria africanos.

Nestes JO de Montreal (Canadá) várias excentricidades se registaram. O facto de ter uma presença significativa na competição feminina era de enaltecer, não fosse a organização ter criado uma regra, no mínimo, polémica. Todas as atletas tiveram de ser submetidas a um teste de sexo. Para aclarar: uma despistagem de género, que lhes desse um comprovativo de ser mulher. Só houve uma excepção: a Princesa Anna, de Inglaterra, inscrita na modalidade de hipismo, a quem se dispensou semelhante bizarria. Depois, algo muito invulgar na cultura canadiana que, tirando os desportos no gelo, não é muito dada a deslizes. A organização destas Olimpíadas bateu o recorde absoluto da derrapagem orçamental. Numa altura que as economias sentiam os efeitos da crise do petróleo, eis que o Canadá se lança numa epopeia despesista, deixando uma pesada factura pós-olímpica. O orçamento inicial de 310 milhões de dólares descambou para uma astronómica despesa final de 1,4 mil milhões de dólares.

Não se esperava destes JO outra coisa se não um sucesso compatível com a despesa. O que parecia já difícil, a menos de um dia da cerimónia de abertura tornou-se impossível. Não menos que 39 nações, 29 destas africanas (por junto, um milhar de atletas) largaram uma bomba política no prejuízo, fruto de dois erros num só. A largos meses dos olímpicos, a selecção neozelandesa de rugby fez uma digressão pela África do Sul, sob o regime de "apartheid". Os "all-blacks", com a sua reconhecida força neste desporto (que não é olímpico), furaram um boicote internacional à África do Sul, o que deixou em fúria a grande maioria das nações africanas. As pressões foram mais que muitas para que o COI tomasse posição firme para com a África do Sul, assim como para a Nova Zelândia. O COI não chegaria tão longe ao ponto de convidar a África do Sul, mas o mesmo não aconteceu em relação à Nova Zelândia. Cumpriu-se, assim, em Montreal uma ameaça que já havia pairado em Munique e na Cidade do México.

Entre os países que não aderiram ao boicote às Olimpíadas, estava a mais recente das democracias europeias, que levou ao Quebec uma delegação modesta, mas transbordante de liberdade, depois das exéquias a 48 anos de ditadura, de um Verão Quente e das primeiras eleições legislativas. Portugal enviou para os JO de Montreal 19 atletas, entre os quais a grande promessa olímpica, de Viseu, de quem se esperava uma medalha. Sabia-se o que valia Carlos Lopes a correr com duas sapatilhas. Fernando Mamede, que também transportava as suas quotas de esperança, esteve discreto, não ultrapassando a eliminatória nos 800 metros. O melhor que conseguiu fazer foi atingir as meias-finais para os 1500 metros. Carlos Lopes ganharia a medalha de prata nos 10 mil metros. Igual feito para o atirador Armando Marques, no fosso olímpico.

Nestas Olimpíadas, que tiveram um alargamento expressivo na participação "comprovadamente" feminina em diversas modalidades, duas mulheres se destacaram: uma rapariga da Roménia, com apenas 14 anos, chamada Nadia Comaneci, que se tornaria na primeira ginasta olímpica a conseguir um "perfeito 10", tendo conseguido o mesmo por sete vezes, conquistando o mundo e três medalhas de ouro. E uma rapariga polaca, na disciplina de lançamento do disco. Danuta Rosati ficou na história dos Olímpicos como a primeira mulher a ser apanhada nas malhas do "doping".

Os detratores destes JO puseram em causa a competição, visto não ter sido global, dada a extensão do boicote. E não gostaram de ver a equipa de hóquei em campo da Nova Zelândia ganhar o ouro. Porém, houve quem não deixasse margem para dúvidas,

como o finlandês Lasse Virén, velho conhecido do ouro olímpico, que ganhou as provas de 5 e 10 mil metros e brilhante 5º lugar na maratona. Edwin Moses, o velocista norte-americano pulverizou o recorde do mundo dos 400 metros barreiras. A selecção de boxe americana, liderada por Sugar Ray Leonard, conquistou cinco medalhas de ouro. No entanto, os EUA ficaram relegados para terceiro lugar. A URSS levou de novo a melhor (49 medalhas de ouro; 41 de prata e 35 de bronze), ficando em segundo uma surpresa: a RDA, com 40 medalhas de ouro, 35 de prata e 25 de bronze. Tudo derretido, daria muito jeito ao Canadá, que ficou com um déficite olímpico.

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