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Micau Tavares, o profissional dos ringues
Micau Tavares continua a treinar com grande intensidade à espera de novos combates.

Micau Tavares, o profissional dos ringues

Foto: Steve EASTWOOD
Micau Tavares continua a treinar com grande intensidade à espera de novos combates.
Desporto 5 4 min. 16.05.2018

Micau Tavares, o profissional dos ringues

Alvaro Antonio SILVA DA CRUZ
Alvaro Antonio SILVA DA CRUZ
Chegou tarde ao boxe profissional e diz que as artes marciais lhe mudaram a vida. É ambicioso, tem ’fome’ de combates, mas queixa-se da falta de apoios por parte da federação luxemburguesa da modalidade. Entretanto, continua a treinar-se à espera de melhores dias.

Amilcar de Jesus Tavares Monteiro é atualmente o único pugilista profissional do Luxemburgo. Decidiu dedicar-se a tempo inteiro à ’nobre arte’ há pouco mais de um ano, mas nem tudo tem corrido como desejava. A falta de combates, nos últimos meses, tem sido uma contrariedade para a evolução da carreira do lutador da categoria de ’super-pluma’ que quer voltar aos ringues o mais rapidamente possível.

“Cheguei ao boxe muito tarde, mas sei que tenho valor. Infelizmente não tenho combatido nos últimos meses, e isso deixa-me ansioso porque treino-me intensivamente seis vezes por semana e invisto a 100%”, desabafa, entre dentes, ’Micau Tavares’, como é mais conhecido.

Nasceu no Grão-Ducado e cresceu em Larochette. Fez música com o irmão gémeo nos Twin Brother Clain e começou a praticar MMA (Artes Marciais Mistas) por influência do primo, Nélson dos Reis, por quem nutre grande amizade.

“Joguei futebol quando era miúdo, em Larochette, mas desde muito cedo o meu primo Nélson dos Reis, que foi campeão do Luxemburgo de MMA, incentivava-me para praticar a modalidade. E foi já quase com 28 anos que comecei a praticar artes marciais na academia de Dudelange, o que acabou por mudar a minha vida. Treinava MMA durante toda a semana, porque, quando decido fazer uma coisa, faço com o máximo empenhamento”, precisa.

A evolução foi galopante e o primeiro combate amador surgiu em junho de 2015, em Charleroi, na Bélgica. O segundo, semanas depois, em Basileia, na Suíça. Micau venceu ambos com evidente supremacia.

“Nunca mais vou esquecer esses momentos. Foi uma grande motivação para mim ter subido ao ringue e vencer de forma tão convincente. Fiquei bastante orgulhoso”, recorda.

O apoio importante do primo e da mulher

Apoiado pelo primo Nélson e pela mulher, Sofiane Nesnas, Micau Tavares mudou-se para a academia de boxe de Rumelange, cujo treinador lhe programou sete combates amadores internacionais, em 2016, que Micau Tavares venceu de forma categórica: “O treinador de Rumelange acreditou nas minhas qualidades e isso foi fundamental. Além do meu primo, o apoio da minha minha mulher foi determinante. Ela teve uma influência decisiva na minha carreira e incentivou-me, sempre, a tentar chegar mais longe. Combater e ganhar uma cerveja não era para mim, queria ser pago como os melhores”, diz o pugilista de origem cabo-verdiana que entretanto conheceu René Cordier, antigo pugilista profissional e conceituado treinador francês que o aconselhou a entrar no mundo profissional.

Só faltava o ’empurrão’ final para Micau Tavares concretizar o sonho, que chegou pela mão de Toni Tibéri, secretário da Federação Luxemburguesa de Boxe profissional, que o enviou à Suíça para um estágio.

“Estive vários dias em Neuchâtel, na Suíça, com François Furtado, treinador de boxe de origem cabo-verdiana. Foi horrível. Treinava-me várias vezes por dia. Até vomitei devido à intensidade, mas foi nesse momento que tive a certeza de que queria ser pugilista profissional. Deixei a MMA e direcionei-me para o boxe inglês, porque era muito forte com as mãos”, recorda. Furtado tornou-se treinador e manager de Micau Tavares que combateu, pela primeira vez como profissional, em março de 2017, em Cernay (França), frente a um adversário arménio mais experiente.

“Entrei muito nervoso e o primeiro ’round’ não correu bem porque não obedecia ao treinador. Furtado disse-me para o ouvir e seguir as suas instruções e acabei por ganhar por KO. Fui ao céu”, recorda.

A 29 de abril do ano passado, Micau teve pela primeira vez a sua foto em cartazes, de novo em Cernay, mas o adversário sofreu um acidente e a alternativa foi combater frente ao campeão francês amador. Voltou a vencer, mas teve má experiência meses mais tarde. A ausência de combates levou-o a aceitar um frente a um adversário conceituado da categoria de -66kg, que lhe foi fatal.

Aceitar sem refletir e pagar por isso

“Queria muito voltar aos ringues e, quando me propuseram o combate, aceitei sem refletir. Frente a um adversário com mais de cem combates e de outra categoria, perdi no primeiro ’round’. Queria defrontar um adversário de grande qualidade para aferir as minhas capacidades e ser respeitado, mas foi um erro que não volto a repetir. Custou-me muito perder com a minha mulher, o meu filho, família e amigos a assitir ao combate”, explica.

Desde então, Micau Tavares nunca mais subiu a um ringue como profissional e isso incomoda-o: “Treino-me arduamente seis dias por semana, por vezes em sessões bi-diárias entre Hussigny Gobrange, em França, e o Luxemburgo, e não consigo um combate”, diz com o semblante abatido.

“Anularam a Gala no dia 5 de maio, em Dudelange, e continuo sem combater. Sou um competidor, não posso ficar assim”, lamenta Micau Tavares, que aponta o dedo à Federação Luxemburguesa de Boxe Profissional.

“Fazem-se poucas galas e combates de exibição no Luxemburgo. Continuo a investir no boxe e não tenho retorno. Pago ao meu treinador, Alexis Wernet, criei a minha equipa, ’Team Tavares’, para representar o Luxemburgo em competições internacionais e não consigo um combate. Começo a desesperar perante a falta de apoios. Tenho de trabalhar porque as contas chegam no final de cada mês. Estou a pensar seriamente em voltar a estudar e concluir a minha formação de educador para garantir o futuro”, conclui Micau Tavares que continua à espera de mostrar nos ringues as qualidades que lhe são reconhecidas e dar seguimento à carreira que escolheu. Á. Cruz

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