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Menino d´Oiro
Opinião Desporto 4 min. 05.08.2021 Do nosso arquivo online
Ouro de Portugal nos JO

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Ouro de Portugal nos JO

Menino d´Oiro

Foto: Lusa
Opinião Desporto 4 min. 05.08.2021 Do nosso arquivo online
Ouro de Portugal nos JO

Menino d´Oiro

Portugal tem um novo campeão olímpico no triplo salto. Sem espinhas, Pedro Pichardo conquistou a primeira medalha de ouro nos JO de Tóquio para a nação que o acolheu. A rivalidade com Nelson Évora está ao rubro. Não é coisa que se recomende a atletas, mas... vejam lá se fumam o cachimbo da paz.

Determinado, concentrado, abstraído, obstinado, imparável, elástico, ambicioso, irrepreensível, impetuoso, pujante, ligeiro, esvoaçante, explosivo, magnífico, brilhante, vitorioso, dourado. 17 adjectivos não bastam. Traduzindo em metros, 17,98 seria a medida exata para qualificar a final olímpica do triplo salto, onde a bandeira portuguesa passeou, para citar Mário de Carvalho, como um deus à brisa da tarde, enrolada num atleta que em Portugal tomou pátria e agora a eleva ao lugar mais alto de todos os pódiuns. 

Pedro Pablo Pichardo conseguiu a primeira medalha de ouro para as cores nacionais nos JO de Tóquio, juntando-se à medalha de prata de Patrícia Mamona - para traduzir uma certa hegemonia e uma certa longevidade portuguesa nesta especialidade, tornando idos os tempos em que o leste tinha domínio -, e às medalhas de bronze do judoca Jorge Fonseca e do canoísta Fernando Pimenta. Com estas quatro medalhas, Portugal garante desde já a sua melhor participação de sempre na história das Olimpíadas.  

À semelhança do que já tinha demonstrado na prova de qualificação, que acabou por transformar-se numa emotiva e dolorosa despedida de Nelson Évora, também ele campeão olímpico no triplo salto nos JO de Pequim, em 2008, Pedro Pichardo deixou a léguas a concorrência logo no primeiro salto, como se estivesse a competir apenas com ele próprio, numa galáxia à parte. 

O primeiro ensaio do atleta luso-cubano foi homologado em 17,61 metros. No segundo, estava-se mesmo a ver que este era um dia propício a esoterismos olímpicos: 17,61 metros. Pichardo sorriu, abanando a cabeça em sinal de insatisfação. No final da qualificação, que se tornou polémica por não ter cumprimentado Nelson Évora na derradeira despedida olímpica, fruto de uma rivalidade que já vai longa (talvez demais), ele já tinha confessado ter em mente os 18 metros, nunca revelando o seu desejo mais secreto: 18,29 metros, que é o recorde do mundo, marca que o britânico Jonathan Edwards detém desde 1995.


TOPSHOT - Portugal's Pedro Pablo Pichardo competes in the men's triple jump final during the Tokyo 2020 Olympic Games at the Olympic Stadium in Tokyo on August 5, 2021. (Photo by Jonathan NACKSTRAND / AFP)
"O ouro é para agradecer ao país que me apoiou", diz Pedro Pichardo
Pichardo venceu na final do triplo, conquistando a primeira medalha de ouro da missão portuguesa nos Jogos Olímpicos no Japão.

Salvo algum acontecimento do outro mundo, que não é assim tão incomum em eventos olímpicos, com apenas um salto, que o segundo confirmou, o ouro já não fugia. Mas, naquela competição particular entre o seu corpo e a sua mente, as coisas estavam muito longe de estar resolvidas. Não seria a primeira vez que um triplista se tornava campeão olímpico com uma marca pessoal inferior à que fizera na prova de qualificação. No caso, 17,71 metros. Há provas  de qualificação que são autênticas finais, assim como há finais que, para aquele que competem numa classe distinta, se transformam em meras cerimónias de consagração. Para se manter focados e com os níveis competitivos nos píncaros, os atletas têm de encontrar dentro de si objetivos. 

E o de Pichardo, assim como do seu pai, que é o mais exigente dos seus fãs, estava posicionado nos 18 metros. Qualquer coisa com mais de 29 centímetros seria como a cereja no topo do Olimpo. Um sonho lindo, ali tão perto. Tirar uma daquelas fotos para a eternidade, em que se está na posição medieval de um cavaleiro prestes a ser nomeado, junto a um painel eletrónico que diz: "WR: 18...m. Mr. Pichardo. Portugal".

Antes de um salto, os triplistas têm estranhos rituais de automotivação, que também podia ser um stand de automóveis. Uns ficam numa espécie de transe, outros dão bolachadas na própria face, uns gritam, outros falam consigo, e quase todos continuam a pedir o que nestes JO foi impossível: que o público nas bancadas marcasse com palmas a cadência do seu salto. Teriam de ser aplausos imaginários. Supõe-se que os atletas de alta competição tenham já desenvolvido este mecanismo mental. Ao terceiro salto, fez-se história: o luso-cubano voador pulverizou o recorde nacional, ficando pertíssimo dos 18 metros, embora os centímetros tenham outra cotação a este nível: 17,98 metros. Seria a melhor marca de Portugal e de um dia debruado a ouro no olimpismo português.


Pichardo escolheu Portugal para conseguir o maior dos voos
Este foi só mais um dos palcos mundiais a ser conquistado por Pichardo. Leia mais sobre o percurso do atleta.

Em suma, uma oportunidade de ouro para dois monstros do triplo salto enterrarem de uma vez o machado de guerra. Primeiro foi Nelson Évora (37 anos) que esperava pelo abraço de Pichardo na despedida, agora é Pichardo (28 anos) que espera por um abraço de Nelson Évora. "Ele já ganhou tudo, por que é que não me deixa fazer a minha carreira?", disse Pedro Pichardo. Os dois campeões olímpicos andam a trocar mensagens públicas sem se cumprimentar. Vá lá, não custa nada. Dois saltos de um lado, dois saltos do outro e encontram-se a meio para um abraço nacional. Em português: Vejam lá se tratam disso, pá!

Alheio a isto, envolvido no turbilhão típico da prova de águas abertas, cuja qualidade da água não vamos questionar, nadava Tiago Campos, vendo que não dava para chegar em primeiro sensivelmente a meio da prova: "Senti-me bastante mal, nem sei como encontrei forças para chegar em 23º". Não convém esquecer que esta é uma das mais duras das provas olímpicas. Tal como Tiago Campos, Teresa Portela deu tudo de si na final de K1 500. Entre as melhores do mundo, a canoísta portuguesa alcançou um sétimo lugar, que a deixa orgulhosa. Mais um diploma olímpico para a mesa do canto ocidental.

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