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Maradona. O mais humano e imperfeito dos deuses
Desporto 2 11 min. 25.11.2020

Maradona. O mais humano e imperfeito dos deuses

Maradona. O mais humano e imperfeito dos deuses

Foto: dpa
Desporto 2 11 min. 25.11.2020

Maradona. O mais humano e imperfeito dos deuses

Afinal de contas, julgá-lo era fácil, e era fácil condená-lo, mas não era tão fácil esquecer que Maradona vinha cometendo há anos o pecado de ser o melhor, o delito de denunciar de viva voz as coisas que o poder manda calar e o crime de jogar como canhoto, escreveu Eduardo Galeano.

A genialidade de Maradona estava na sua imperfeita humanidade, capaz de vencer contra tudo e contra todos, ao mesmo tempo que era derrubado na vida, como um anjo caído. Aqui ficam três pedaços, sobre o divino número dez, de um livro do escritor Eduardo Galeano dedicado ao futebol, uma notícia antiga e surpreendente, um vídeo e uma canção que nos garante que a vida é como ela é. E 25 de novembro uma data azarada.

O golo de Maradona

"Foi em 1973. Jogavam as equipas infantis de Argentinos Juniors e River Plate, em Buenos Aires. O número 10 do Argentinos recebeu a bola diretamente do seu guarda-redes, evitou o defesa central do River e começou a correr. Vários jogadores foram ao seu encontro: passou a bola por fora de um deles, entre as pernas de outro, e enganou mais um de calcanhar. Depois, sem parar, deixou paralisada toda a defesa e deixou pregado no chão o guarda-redes adversário, e continuou a caminhar com a bola para a linha de meta do rival", é assim que o escritor uruguaio Eduardo Galeano descreve a partida.  Aquela equipa de miúdos estava invicta há cem jogos e tinha chamado a atenção dos jornalistas. Um dos jogadores, Veneno, que tinha treze anos, declarou: "Jogamos para nos divertir. Nunca vamos jogar por dinheiro. Quando entra dinheiro, todos se matam para ser estrelas, e então chega o momento da inveja e do egoísmo", falou abraçado ao jogador mais querido de todos, que também era o mais alegre e o mais baixinho: Diego Armando Maradona, tinha doze anos e acabava de marcar aquele golo incrível. "Maradona tinha o costume de pôr a língua de fora quando estava em pleno esforço. Todos os seus golos tinham sido feitos com a língua de fora. De noite dormia abraçado com a bola e de dia fazia prodígios com ela. Vivia numa casa pobre de um bairro pobre e queria ser técnico industrial", recorda o escritor.

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Os cânticos do desprezo 

"Não figura nos mapas, mas existe. É invisível, mas existe. Há uma parede que ridiculariza a memória do Muro de Berlim: levantada para separar os que têm dos que necessitam, divide o mundo inteiro em norte e sul, e também traça fronteiras dentro de cada país e dentro de cada cidade. Quando o sul do mundo comete a ousadia de saltar esse muro e se mete onde não deve, o norte lhe recorda, a pauladas, qual é o seu lugar. E o mesmo acontece com as invasões de cada país e de cada cidade a partir das zonas malditas. O futebol, espelho de tudo, reflete esta realidade. Em meados dos anos 80, quando o Nápoles começou a jogar o melhor futebol da Itália, graças ao influxo mágico de Maradona, o público do norte do país reagiu desembainhando as velhas armas do desprezo. Os napolitanos, usurpadores da glória proibida, estavam a roubar as taças aos poderosos de sempre, e castigaram aquela insolência da ralé intrusa, vinda do sul. Das arquibancadas dos estádios de Milão ou de Turim, os cartazes insultavam e com mais força do que nunca ressoaram os cânticos filhos do medo e netos do racismo: "que mau cheiro, até os cães fogem, os napolitanos estão chegar. Ó coléricos, terremotados, com sabão nunca lavados. Nápoles merda, Nápoles cólera, és a vergonha de toda a Itália". 

Maradona

"Maradona Jogou, venceu, mijou, perdeu. A análise acusou a presença de efedrina e Maradona acabou mal o seu Mundial de 94. A efedrina, que não é considerada droga estimulante no desporto profissional dos Estados Unidos e de muitos outros países, é proibida nas competições internacionais. Houve estupefação e escândalo. Os trovões da condenação moral ensurdeceram o mundo inteiro, mas mal ou bem se fizeram ouvir algumas vozes de apoio ao ídolo caído. E não só na sua dolorida e atónita Argentina, mas também em lugares tão longínquos como Bangladesh, onde uma manifestação numerosa rugiu nas ruas repudiando a FIFA e exigindo o retorno do expulso. 

   É verdade que se metera com a cocaína, mas drogava-se em festas tristes, para esquecer ou ser esquecido, quando já estava encurralado pela glória e não podia viver sem a fama que não o deixava viver. Jogava melhor do que ninguém, apesar da cocaína, e não por causa dela. 

Afinal de contas, julgá-lo era fácil, e era fácil condená-lo, mas não era tão fácil esquecer que Maradona vinha cometendo há anos o pecado de ser o melhor, o delito de denunciar de viva voz as coisas que o poder manda calar e o crime de jogar como canhoto, que segundo o Pequeno Larousse Ilustrado significa “com a esquerda” e também significa “o contrário de como se deve fazer”. 

Diego Armando Maradona nunca tinha usado estimulantes, nas vésperas dos jogos, para multiplicar seu corpo. É verdade que se metera com a cocaína, mas drogava-se em festas tristes, para esquecer ou ser esquecido, quando já estava encurralado pela glória e não podia viver sem a fama que não o deixava viver. Jogava melhor do que ninguém, apesar da cocaína, e não por causa dela. 

Estava esgotado pelo peso de sua própria personagem. Tinha problemas na coluna vertebral, desde o longínquo dia em que a multidão havia gritado seu nome pela primeira vez. Maradona carregava uma carga chamada Maradona, que fazia sua coluna estalar. O corpo como metáfora: suas pernas doíam, não podia dormir sem comprimidos. Não tinha demorado a perceber que era insuportável a responsabilidade de trabalhar como deus nos estádios, mas desde o princípio soube que era impossível deixar de fazê-lo. “Necessito que me necessitem”, confessou, quando já tinha há muitos anos o halo na cabeça, submetido à tirania do rendimento sobre-humano, intoxicado de cortisona, analgésicos e ovações, acossado pelas exigências de seus devotos e pelo ódio dos que ofendera. 

O prazer de derrubar ídolos é diretamente proporcional à necessidade de tê-los. Em Espanha, quando Goikoetxea derrubou-o por trás e sem a bola e o deixou fora dos campos por vários meses, não faltaram fanáticos que carregaram nos braços o culpado deste homicídio premeditado, e em todo o mundo não faltaram pessoas dispostas a comemorar a queda do arrogante argentininho intruso nos píncaros, o novo-rico que tinha fugido da fome e se dava ao luxo da insolência e da fanfarronice. 

Depois, em Nápoles, Maradona foi Santa Maradonna e São Gennaro se transformou em São Gennarmando. Nas ruas vendiam-se imagens da divindidade de calções, iluminada pela coroa da virgem ou envolta no manto sagrado do santo que sangra a cada seis meses, e também se vendiam símbolos das equipas do norte da Itália e garrafinhas com lágrimas de Silvio Berlusconi. Os meninos e os cãezinhos usavam perucas de Maradona. Havia uma bola ao pé da estátua de Dante e o tritão da fonte vestia a camisa azul do Nápoles. Havia mais de meio século que a equipa da cidade não ganhava um campeonato, cidade condenada às fúrias do Vesúvio e à derrota eterna nos campos de futebol, e graças a Maradona, o sul obscuro tinha conseguido, finalmente, humilhar o norte branco que o desprezava. Campeonato atrás de campeonato, nos estádios italianos e europeus, o Nápoles vencia, e cada golo era uma profanação da ordem estabelecida e uma vingança contra a história. 

Em Milão odiavam o culpado desta afronta dos pobres que deixaram seu lugar. E não só em Milão: no Mundial de 90, a maioria do público castigava Maradona com furiosos assobios todas as vezes que tocava na bola, e a derrota argentina frente à Alemanha foi comemorada como uma vitória italiana. Quando Maradona disse que queria ir embora de Nápoles, houve os que lhe lançaram pelas janelas bonecos de cera atravessados por alfinetes. Prisioneiro da cidade que o adorava e da camorra, a máfia dona da cidade, já estava a jogar contra a vontade, na contramão, e então, explodiu o escândalo da cocaína. Maradona transformou-se subitamente em "Maracoca", um delinquente que se tinha feito passar por herói. Mais tarde, em Buenos Aires, a televisão transmitiu o segundo acerto de contas: a detenção, ao vivo, como se fosse uma partida, para deleite dos que desfrutaram o espetáculo do rei nu que a polícia levava preso. “É um doente”, disseram. E disseram: “Está acabado”. 

O messias convocado para redimir a maldição histórica dos italianos do sul tinha sido, também, o vingador da derrota argentina na guerra das Malvinas, mediante um golo velhaco e outro golo fabuloso, que deixou os ingleses girando como piões durante alguns anos; mas na hora da queda, o Pibe de Ouro não passou de um farsante cheirador e putanheiro. 

Maradona tinha traído os meninos e desonrado o desporto. Deram-no como morto. Mas o cadáver levantou-se de um salto. Cumprida a penitência da cocaína, Maradona foi o bombeiro da seleção argentina, que estava queimando suas últimas possibilidades de chegar ao Mundial de 94. Graças a Maradona, chegou lá. E no Mundial, Maradona era outra vez, como nos velhos tempos, o melhor de todos, quando estourou o escândalo da efedrina. 

A máquina do poder tinha jurado apanhá-lo. Ele dizia-lhes de tudo, e isso tem seu preço, o preço se paga à vista e sem descontos. E o próprio Maradona ofereceu a desculpa, pela sua tendência suicida de servir-se de bandeja na boca de seus muitos inimigos e por essa irresponsabilidade infantil que o impele a precipitar-se em todas as armadilhas que abrem-se no seu caminho. 

Os mesmos jornalistas que o pressionam com os microfones reprovam sua arrogância e suas zangas, acusam-no de falar demais. Não lhes falta razão; mas não é isso que não podem perdoar nele: na verdade, não gostam do que às vezes diz. Este miúdo respondão e com sangue na guelra tem o costume de lançar golpes para cima. Em 86 e em 94, no México e nos Estados Unidos, denunciou a ditadura omnipotente da televisão, que obrigava os jogadores a extenuar-se ao meio-dia, esturricando-se ao sol, e em mil e uma ocasiões, ao longo de toda a sua acidentada carreira, Maradona disse coisas que mexeram no ninho de lacraus. Ele não foi o único jogador desobediente, mas foi a voz que deu ressonância universal às perguntas mais insuportáveis: Por que é que o futebol não é regido pelas leis universais do direito do trabalho? Se é normal que qualquer artista conheça os lucros do show que oferece, por que é que os jogadores não podem conhecer as contas secretas da opulenta multinacional do futebol? Havelange cala-se , ocupado com outros afazeres, e Joseph Blatter, burocrata da FIFA que nunca chutou uma bola mas anda em limusines de oito metros com motorista negro, limita-se a comentar: " A último estrela argentina foi Di Stéfano". 

Quando Maradona foi, finalmente, expulso do Mundial de 94, os campos de futebol perderam seu rebelde mais brilhante. E perderam também um jogador fantástico. Maradona é incontrolável quando fala, mas muito mais quando joga: não há quem possa prever as diabruras deste criador de surpresas, que jamais se repete e goza desconcertando os computadores. Não é um jogador rápido, tourinho de pernas curtas, mas leva a bola costurada no pé e tem olhos em todo o corpo. Seus malabarismos inflamam o campo. Pode resolver uma partida disparando um tiro fulminante de costas para a baliza ou servindo um passe impossível, de longe, quando está cercado por milhares de pernas inimigas, e não há quem o pare quando se lança a fintar os adversários. No frígido futebol do fim de século, que exige ganhar e proíbe divertir-se, este homem é um dos poucos que demonstra que a fantasia também pode ser eficaz. "

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Um conjunto de textos e vídeos "sacados" e organizados por Nuno Ramos de Almeida

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