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Maradona. A amizade especial entre 'Deus' e o Papa Francisco
Desporto 5 min. 26.11.2020 Do nosso arquivo online

Maradona. A amizade especial entre 'Deus' e o Papa Francisco

Maradona. A amizade especial entre 'Deus' e o Papa Francisco

AFP
Desporto 5 min. 26.11.2020 Do nosso arquivo online

Maradona. A amizade especial entre 'Deus' e o Papa Francisco

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
Foi o argentino Sumo Pontífice que levou o compatriota “Deus” do futebol a fazer as pazes com a Igreja. Os segredos da relação dos dois “campeões” e a homenagem de Francisco no adeus à lenda.

No seu novo livro, o Papa Francisco lembra a noite em que a sua Argentina derrotou a Alemanha e se tornou campeã do Mundo de futebol. Um jogo que o sumo pontífice viu sozinho numa "terra estranha", a Alemanha, onde se encontrava a estudar «alemão e que foi obrigado a festejar em “solidão”. 

O seu compatriota Diego Armando Maradona jogou, e embora não tendo marcado nessa partida, a ele se deveu a vitória, não só pelo que fez no jogo decisivo mas sobretudo graças a um jogo anterior nesse Mundial, contra a Inglaterra, onde a Argentina venceu graças a Maradona e à “mão de Deus”.

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 “Era a solidão de uma vitória sozinho, porque não tinha ninguém para compartilhá-la; a solidão de não fazer parte de nada, o que nos torna um estranho, num lugar que não conhecemos, e é lá que nos damos conta do que o que realmente importa é o lugar que deixámos”, escreve o Papa Francisco no livro 'Ritorniamo a sognare' (Voltemos a sonhar) que será lançado em dezembro.

O afeto e a oração do Papa

Unindo-se à comoção planetária pela morte da lenda argentina, vítima de um ataque cardíaco, aos 60 anos, também Francisco lamenta a partida do compatriota, rezando por ele.

“O Papa foi informado e lembra com afeto os encontros nestes anos, e recorda-o também nas orações, como fez nos últimos dias quando soube sobre o estado de saúde” do ex-jogador, declarou o porta-voz da sala de imprensa vaticana, Matteo Bruni, à comunicação social.

 Quase trinta anos depois dos festejos solitários de Jorge Bergoglio, Diego Maradona visitou o seu compatriota no Vaticano, e ofereceu-lhe a camisola número 10 com o nome Francisco nas costas. "Ao Papa Francisco com todo o meu afeto e muita paz para todo o mundo", escreveu o futebolista na camisola.

Neste encontro, que partiu de um convite de Papa à lenda do futebol, em setembro de 2014, nasceu a amizade entre os dois argentinos de Buenos Aires amantes do belo jogo, isto embora fossem adeptos de clubes diferentes de Buenos Aires: Maradona tinha o Boca Juniors no coração e o Papa o San Lorenzo.


Maradona. O mais humano e imperfeito dos deuses
Afinal de contas, julgá-lo era fácil, e era fácil condená-lo, mas não era tão fácil esquecer que Maradona vinha cometendo há anos o pecado de ser o melhor, o delito de denunciar de viva voz as coisas que o poder manda calar e o crime de jogar como canhoto, escreveu Eduardo Galeano.

Campãeo? "É o Papa"

Como contou Maradona em várias ocasiões foi o Papa Francisco que o levou a fazer as pazes com a Igreja.

Anos antes, o craque argentino tinha visitado pela primeira-vez o Vaticano para um encontro com o Papa João Paulo II e a sumptuosidade dos tetos dourados do Vaticano deixou o futebolista zangado. Uma igreja que serve os pobres não deveria ter tanta riqueza no Vaticano, entendia Maradona.

No final da primeira visita ao Papa argentino, Diego Maradona explicou aos jornalistas que sentiu uma profunda proximidade com Francisco por causa da sua atenção aos pobres.

“O verdadeiro campeão é o Papa”, declarou. Numa entrevista anterior dada à televisão italiana Piue, em maio de 2014, “El Pibe” assumia estar “dececionado” com o Vaticano e dirigindo-se a Francisco declarou: “Estou dececionado com o Vaticano, mas acredito em si porque está a fazer mudanças e centrando a atenção no lado mais humano, e isso eu gosto de ver na Igreja. Coisas mais humanas, coisas que eu gostaria de ver na Igreja”, disse ele ao compatriota a quem tratou por “Francisquito”. 

“Francisquito, quero-me encontrar contigo e dizer o que acho que tem de fazer no mundo. Assim todos nós vamos ter um papa”, frisou ‘D10S’ nessa entrevista.

Já um ano antes, quando soube da nomeação do cardeal Jorge Bergoglio para chefe do Vaticano, Maradona declarou:  "O Deus do futebol é argentino e agora o Papa também é".

A amizade entre os dois “campeões” levou-os a unir esforços em prol das crianças e jovens em iniciativas e projetos educacionais da Fundação pontífica "Scolas Occurrentes", tendo Maradona colaborado também nos solidários “Jogos da Paz” do futebol promovidos por Francisco e que reuniram velhos campeões, entre eles “El Pibe”.

 Por duas vezes, em 2014 e 2016, o futebolista visitou o “fenómeno” da Igreja, como também chamou ao Papa, no Vaticano. Os dois encontraram-se em várias ocasiões noutros países.

"Como um irmão"

A Maradona tocou-lhe no coração o facto de Francisco, quando foi nomeado Papa, ter recusado mudar-se para habitual residência papal no Vaticano, preferindo continuar a viver onde sempre morou. E ter dispensado o automóvel topo de gama destinado ao chefe da Igreja preferindo carros mais simples como uma Renault L4.

Sinais de mudança que começaram logo na primeira aparição de Francisco como chefe da Igreja Católica, em 2013, na varanda da Basílica de São Pedro, onde o cardeal argentino surpreendeu por não usar todos os paramentos próprios do Sumo Pontífice, como o crucifixo de ouro papal, tendo optado por manter o seu velhinho de ferro.

 “O Santo Padre trata-me como um irmão e trata todos da mesma maneira. O Papa beija todos, abraça todos. Ele tem pouco tempo à sua disposição, trabalha muito, mas encontra sempre tempo para toda a gente”, confessou Maradona à imprensa italiana, a propósito do encontro de 2014.


Fotogaleria. Lágrimas e desconsolo na despedida de D10S
São esperadas mais de um milhão de pessoas na Casa Rosada para velar Diego Armando Maradona. As imagens já são impressionantes.

“Gostaria realmente de agradecer a Francisco por todo o afeto que me dá. Hoje acredito que todos reconhecemos que ele é um fenómeno, que fará algo pelas crianças e que temos um Papa fantástico. Temos falado de muitas coisas, do compromisso de que os jogadores se unirão e farão algo pelas crianças que não têm o que comer em muitas partes do mundo. E concordámos totalmente, mas vai levar muito tempo. Hoje posso dizer que sou um adepto de Francisco, o fã nº1 do Papa sou eu”, declarou Maradona.

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