Escolha as suas informações

Manuel José, o primeiro português
Desporto 5 min. 20.12.2019 Do nosso arquivo online

Manuel José, o primeiro português

Manuel José, o primeiro português

Foto: Lusa
Desporto 5 min. 20.12.2019 Do nosso arquivo online

Manuel José, o primeiro português

Jorge Jesus chega ao último dia do Mundial de clubes, à imagem do seu compatriota, terceiro classificado em 2006 pelo Al Ahly.

Ah e tal, o Flamengo de Jorge Jesus é o campeão sul-americano. Ah e tal, o Flamengo de Jesus é campeão brasileiro. AH e tal, o Flamengo de Jesus bate todos os recordes possíveis e imagináveis. Pois cá estamos, a uma semana do Natal, a falar ainda e sempre de Jesus. Agora é o Mundial de clubes, em Doha (Qatar).

Para a história, vale sempre a pena lembrar-nos de Manuel José é o primeiro português a chegar a essa prova, como campeão africano pelo Al Ahly, em 2005, 2006 e 2008. Se a primeira e a última experiência correm-lhe mal, com dois sextos lugares à custa de quatro derrotas, a do meio é a mais gratificante de todas. O Al Ahly passa o primeiro obstáculo (2-0 vs Auckland City) e passa à meia-final (1-2 vs Internacional). Na discussão pelo terceiro lugar, o campeão egípcio derruba o favorito América, do México, com bis do inimitável Aboutrika (2-1).

Contas feitas, Manuel José faz sete jogos no Mundial de clubes. Ganha dois e perde cinco. É mau, claro. Salva-se o pódio em 2006. Fora isso, Manuel José é um homem de recordes, honra lhe seja feita. Como jogador, é campeão nacional 1968-69 pelo Benfica. Bastam-lhe 19 minutos em campo. “Nesses tempos, a Académica era a equipa que levava mais adeptos à Luz, tirando Sporting e FC Porto. Substitui o Simões aos 70 minutos, com o resultado em 2-1 para eles. O campo estava enlameado e eu nem cheirei a bola. Joguei mesmo mal. Devo ter sido assobiado pelo público, mas disso nem me lembro. Quem nos salvou foi o Praia, autor dos dois golos da reviravolta, o último deles em cima dos 90 minutos. Magrinho e levezinho, ele corria por ali fora e passava por cima deles com uma facilidade.”

Então e a medalha de campeão? “Sagrámo-nos campeões nacional na última jornada, em Tomar [4-0], e alguns dias depois telefonaram-me para o quartel de Queluz, onde fazia a tropa, para ir receber a medalha de campeão numa cerimónia organizada pelo Benfica, mas não fui. Achei que não merecia. Então, joguei 19 minutos, e mal, e ia receber a medalha? Não, aquilo não era para mim.” E depois? “No final da época, saí do Benfica porque eram sempre os mesmos que jogavam e eu estava cansado de ficar de fora, embora estivesse consciente do valor de todo aquele plantel com Eusébio, José Augusto, Simões. Mas a verdade é que se houvesse um top 20 dos jogadores portugueses mais tecnicistas daquele tempo, eu estava entre eles. Por isso, queria jogar e não bastava representar o Benfica nas reservas, na Taça de Honra e em outras provas. Queria era jogar.”

Quer isso dizer que... “O Francisco Calado, capitão do Benfica nos anos 50 e director desportivo do Benfica em 1969, pediume para não sair, porque ia ter as minhas oportunidades na equipa principal, porque tinha talento, mas preferi ir para o União Tomar, para ficar perto de Lisboa. Sabe, só comecei a levar o futebol a sério aos 27 anos. Antes disso, era uma brincadeira! Depois disso, e até aos 34 anos, dei tudo o que tinha e mais alguma coisa, mas já não merecia mais créditos e tive azar.” Exemplos. “Numa segunda-feira em Agosto 1973, um BMW parou à frente da oficina de carros que eu e o meu irmão partilhávamos, abriu-se a porta e saiu um dirigente do Sporting que me queria levar imediatamente para Lisboa, dois dias depois de me ter estreado pelo Farense, num sábado à noite, para a Taça de Honra de Faro. Eu queria ir mas, quando estávamos a caminho da casa do presidente do Farense, que era na mesma rua da minha oficina, lembrei-me que já tinha jogado pelo Farense, pelo que era impossível representar o Sporting nessa mesma época, como era desejo do treinador Mário Lino. Um ano depois (1974), foi o FC Porto que se mostrou interessado, mas aí meteuse o 25 de Abril e foi uma confusão tremenda. Optei por ficar no Farense. Em 1975, com o ambiente mais calmo, o FC Porto voltou a oferecer-me contrato, mas o Mário Lino, que estava a treinar o Farense depois de se sagrar campeão pelo Sporting, não me deixou sair de Faro.”

Arrumadas as chuteiras, Manuel José faz-se treinador. E até marca no seu primeiro jogo. Ah pois é, Manuel José começa como treinador-jogador no Espinho, em Setembro 1978. Daí para cá, mais de 20 títulos nacionais entre Portugal e Egipto. É em África que o seu nome causa mais impacto, embora o seu Boavista faça boa figura na 1.ª divisão e até na Europa – o Inter, campeão da Taça UEFA, cai no Bessa (2-1) e depois não se levanta no Giuseppe Meazza (0-0). Dizíamos, é em África que o seu nome causa mais impacto. Sempre no Al Ahly, onde se sagra tetracampeão continental e hexacampeão egípcio. No seu percurso, duas séries impressionantes de imbatibilidade. Uma de 55 jogos entre todas as competições, outra de 71 só no campeonato egípcio. A sua fama é tal que há quem o queira impedir de sair. “Foi no Verão 2007 e os adeptos até criaram um blogue para evitar essa situação. Alguém escreveu o meu telefone e, pronto, metade do Egipto já sabia o meu número. A brincadeira só acabou quando troquei de telemóvel. Nem imagina a quantidade de chamadas recebidas. De 15 em 15 minutos, lá atendia uma pessoa qualquer. Ainda por cima, eles falam arranhado e nem percebia metade das coisas ditas do lado de lá. Até no hotel onde vivo, tive de pedir aos funcionários para não passarem mais chamadas para o quarto.” 

Rui Miguel Tovar

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.


Notícias relacionadas

Solta-se o grito da ordem 19 anos depois, agora com um treinador jovem (Rúben Amorim, 37 anos) e três sub20 no onze ideal. A crónica do comenatador desportivo do Contacto, Rui Miguel Tovar.
O Benfica sagrou-se hoje, pela primeira vez na sua história, tetracampeão português de futebol, ao vencer em casa o Vitória de Guimarães, por 5-0, em jogo da 33.ª e penúltima jornada da I Liga.
Benfica's supporters celebrating during their Portuguese First League soccer match against Vitoria de Guimaraes played at Luz stadium in Lisbon, Portugal, 13th May 2017. TIAGO PETINGA/LUSA