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Mafra vs Tondela. Entre o sonho e a confirmação
Desporto 8 min. 20.04.2022
Taça de Portugal

Mafra vs Tondela. Entre o sonho e a confirmação

Quaresma do Tondela luta pela bola com Cann do Mafra durante o jogo da  1.ª mão das meias-finais da Taça de Portugal, disputado no Estádio João Cardoso, em Tondela, a 3 de março de 2022.
Taça de Portugal

Mafra vs Tondela. Entre o sonho e a confirmação

Quaresma do Tondela luta pela bola com Cann do Mafra durante o jogo da 1.ª mão das meias-finais da Taça de Portugal, disputado no Estádio João Cardoso, em Tondela, a 3 de março de 2022.
Foto: Paulo Novais/Lusa
Desporto 8 min. 20.04.2022
Taça de Portugal

Mafra vs Tondela. Entre o sonho e a confirmação

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
Decide-se esta quarta-feira o primeiro finalista da Taça de Portugal entre o 10.º classificado da 2.ª divisão e o 17.º da 1.ª. O leque de equipas da 2.ª divisão na final é engraçado. Eis os felizes contemplados e suas proezas de época.

A Taça de Portugal é pródiga em acontecimentos ímpares e é, de longe, a competição portuguesa mais democrática. Nos últimos dez anos, veja lá, sete campeões entre FC Porto, Académica, Benfica, Sporting, Vitória SC, Aves e Braga. É obra – bem bonita, por sinal.  

Começa esta quarta-feira o penúltimo capítulo da Taça 2021-22 com a 2.ª mão das ½ finais entre Mafra vs Tondela e FC Porto vs Sporting. Como o clássico é já uma palavra gasta no dicionário do futebol português, todo o interesse recai na outra eliminatória entre uma equipa da 2.ª divisão e outra do interior do país, da AF Viseu. À partida, o Tondela sai em clara vantagem pelo 3:0 na ida. Nem assim refreia o ânimo do Mafra, cujos adeptos esgotam a lotação do estádio no sentido de empurrar os seus até ao Jamor. A tarefa é hercúlea, sim, mas o que é isso para uma equipa já com três vitórias sobre primodivisionários.

A primeira vítima é o Belenenses SAD, para a Taça da Liga. Seguem-se Moreirense e Portimonense, ambos para a Taça de Portugal. O Mafra tem queda para surpreender e o Tondela que se cuide. Além disso, quem não gostaria de ver um tomba-gigantes na final? É o sonho mais popular de todos, seja em Portugal, seja em qualquer parte do mundo.

Insistimos, o Mafra joga na 2.ª divisão e está em 10.º lugar, com 10 pontos de avanço sobre a despromoção e a 20 da subida. Nesse equilíbrio saudável, um lugar no Jamor à espreita é tentador qb. Ainda por cima, o treinador é Ricardo Sousa, herói do golo solitário naquela final imperdível em 1999 entre Beira-Mar (treinado pelo pai António) e Campomaiorense. O cosmos está a chamar pelo Mafra, não está? Ainda por cima, o leque de equipas da 2.ª divisão na final é engraçado. Eis os felizes contemplados e suas proezas de época.

A aventura começa bem lá atrás, em 1943, através do Vitória FC. É a história do maior tomba-gigantes da história. Maior? Sim senhor, sem margem para dúvida. Veja lá bem, o Vitória FC, campeão invicto da série 11 da 2.ª divisão, apura-se para a final com um 7:0 ao FC Porto. Sete-zero, sem espinhas. Ao intervalo, já há 4:0. Na segunda parte, mais três batatas. 

E o Porto de Lipo Herczka joga com todas as suas estrelas como Pinga, Araújo, Pratas, Gomes da Costa, Anjos, entre outros (excepção feita ao guarda-redes Valongo, suplente de Andrasik e Barrigana). O onze heróico do Vitória é digno de registo. Ei-lo: Idalécio; Montez e Armindo; Paoboco, Figueiredo e Rogério Cruz; Passos, Rendas, Francisco Júlio, Nunes e Amador.

O primeiro golo aparece ao segundo minuto, ainda o Porto não passara do seu meio-campo, porque a bola de jogo sai do Vitória FC e há um canto. O defesa Alfredo atrapalha-se com a bola, facto devidamente aproveitado para Nunes atirar sem hipótese para Valongo. Aos 17’ e 22’, bis de Rendas. É de Amador o quarto da tarde, antes de duas bolas à trave por parte do Porto. Após o intervalo, o Vitória FC volta a marcar no segundo minuto, por Francisco Júlio. Aos 51’, hat-trick de Rendas. E, aos 75’, Nunes fixa o espectacular resultado. Palmas para a equipa de Armando Martins. Ainda para mais, sete-zero é ainda hoje a pior derrota do Porto para a Taça. Memorize a data para um futuro quiz: 13 Junho 1943.

(na final, o Vitória FC apanha 5:1 do Benfica)

No ano seguinte, em 1944, o Estoril comete a mesma proeza. Valongo, lembra-se do Valongo, guarda-redes do Porto a levar sete em Setúbal? Pois bem, o homem transfere-se para o Estoril, na 2.ª divisão. É o início de uma nova vida e tudo lhe corre às mil maravilhas, com menos pressão e mais alegria no trabalho. Tanto assim é que o Estoril é a segunda equipa a chegar à final da Taça como representante da 2.ª divisão.

E que Taça, senhores, que Taça. O Porto elimina o Sporting dos cinco violinos nos oitavos-de-final, com vitória no Lima (2:0) e empate no Lumiar (3:3). Na eliminatória seguinte, o Porto esgrime argumentos com o Estoril. E agora? O Estoril é tomba-gigante, e em dose dupla, com 3:1 no Lima e 2:1 na Amoreira. O Estoril calha então com o Vitória SC. A primeira mão é em Guimarães. Que emoção. Emoção? Essa é boa. O Estoril dá um chocolate nunca visto, 5:0. Nos bancos, dois treinadores ex-internacionais portugueses, um acontecimento raríssimo naquele tempo: Alberto Augusto (Vitória) e Augusto Silva (Estoril).

Se a baliza do Estoril é de Valongo, a do Vitória é guardada por Machado, o pai de Manuel Machado. No campo do Bemlhevai, a multidão assiste incrédula ao desenrolar dos acontecimentos. Raul Silva 0:1, Petrak 0:2, intervalo. No recomeço, Raúl Silva 0:3, Petrak 0:4, Canal 0:5. Que tareia, chi-ça. Na segunda mão, o Vitória apanha mais cinco na Amoreira, agora 5:1.

(na final, o Estoril apanha 8:0 do Benfica com cinco golos de Rogério Lantres de Carvalho, o Pipi)

Vitória FC, lembra-se? Já falámos dele há uns parágrafos como primeira equipa da 2.ª divisão a chegar à final da Taça. Pois bem, é também a única a chegar duas vezes à final como digna representante do escalão secundário. Em 1961-62, um ano depois de ter eliminado o Benfica nos ¼ final, na estreia oficial de Eusébio, o Vitória FC faz vibrar Setúbal.

O percurso até à final é simples com seis vitórias em seis jogos até aos ¼ final. Aparece então o Leixões, detentor do troféu. Em Matosinhos, 2:1. Nos Arcos, já sob a batuta de Fernando Vaz, 2:0 por Suarez e Mateus. O novo treinador do Vitória FC apoia-se nos seus métodos para fazer crescer uma equipa já de si galvanizada. Na ½ final, o Belenenses aparece como bicho-papão. A figura de Matateu dá cabo de juízo a qualquer um. Nos Arcos, 0:0. No Restelo, decide um golo solitário de Pompeu a meio da segunda parte.

(na final, o Benfica faz 3:0 com bis de Eusébio a Félix Mourinho)

Avançamos uns anos valentes, já estamos em 1990. O Farense, futuro campeão da zona sul, está com a corda toda. Na primeira eliminatória, 9:1 em Odivelas. Na segunda, 7:0 vs Esperança de Lagos. Nos 16 avos, empate a zero nos Barreiros vs União, da 1.ª. É o tempo do após prolongamento sem penáltis. Se o empate se mantiver, é necessário arranjar uma data para o tira-teimas na casa do outro. Pois bem, no São Luís, o Farense resolve com golos brasileiros de Sérgio Duarte e Pítico.

A equipa do espanhol Paco Fortes é um poço de força e compromisso. Nos ¼, o Valonguense leva quatro-secos com hat-trick de Fernando Cruz. O sorteio da ½ final aproxima-o do Jamor. Então? É uma visita ao Restelo. O Belenenses é o campeão em título, via 2:1 de Juanico vs Benfica, e respira confiança. Demasiada, talvez. Sobretudo com o penálti 1:0 de Juanico, aos 55 minutos. O tal Fernando Cruz empata aos 78’ e provoca mais um prolongamento. Sobressai então o joker Mané, saído do banco e herói do 1:2 aos 101’. Glorioso, o Farense quase quase a subir à 1.ª divisão e já no Jamor.

(na final, 1:1 após prolongamento e o Estrela resolve na finalíssima por 2:0)

Século XXI, bem-vindos. Em 2001/02, a festa da Taça é com o Leixões de Carlos Carvalhal. Pormenor importantíssimo, o Leixões joga na 2.ª B – ou seja, no terceiro escalão do futebol nacional. E chega à final, lindo. Como o Sporting é o outro finalista e já é campeão nacional, o Leixões ganha o direito de entrar na UEFA (ultrapassa até a pré-eliminatória) e participar na Supertaça portuguesa.

Para chegar lá, a equipa de Carlos Carvalhal elimina Pevidém (1:0) e, depois, Moreirense. Para quem não saiba (como eu, antes de indagar na internet), o Moreirense vai ser campeão da 2.ª divisão daí a uns meses. Só que nem o factor casa faz milagres, porque Luís Barros fixa o 1:2 aos 104 minutos. Segue-se um 3:1 vs Portimonense no Estádio do Mar, com bis de Antchouet, o excêntrico gabonês (atenção ao pleonasmo). Na ½ final, o sorteio reserva uma surpresa xxl. A visita ao 1.º de Maio é o destino a chamar por Carvalhal, nascido e criado, como pessoa e jogador da bola, em Braga.

O Leixões faz tábua rasa ao favoritismo do Braga e dá 3:1. Assim mesmo, sem espinhas. Glorioso. Abílio indica o caminho aos 49’, Nené amplia a marca aos 80’, Barroso reduz aos 83’ e o suplente Detinho arruma a questão ao cair do pano. Com mérito xxl, o Leixões escreve uma página inédita no futebol português.

(na final, o Sporting faz a dobradinha com 1:0 de Jardel)


Conta-me como foi da bola
Efemérides e histórias caricatas do futebol pelo jornalista Rui Miguel Tovar.

O último exemplo de uma equipa da 2.ª divisão na final é o do Chaves em 2010. Pormenor, o Chaves desce para a 2.ª B nessa época. Antes ainda arranja capacidade para eliminar seis equipas, as primeiras quatro sem sofrer qualquer golo. Nos ¼, a visita a Paços é a primeira grande prova de esforço. Ou não, porque o Chaves marca aos 2’ e aos 10’. Game over, a Mata Real entra em silêncio.

A ½ final é vs Naval, outra equipa de 1.ª. Já é o regime de duas mãos, como agora. A Naval, num escalão acima do Chaves, reúne mais favoritismo. Qual quê, o Chaves empertiga-se e ganha os dois jogos, à campeão. Em casa, 1:0 (Ricardo Rocha 90’). Na Figueira, 2:1 após prolongamento (vale o bis de Edu Machado aos 111’ e 120’).

(na final, o FC Porto impõe-se por 2:1)

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