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Mário João, o jogador-trabalhador
Desporto 4 min. 11.08.2021
Conta-me foi da bola

Mário João, o jogador-trabalhador

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Mário João, o jogador-trabalhador

Desporto 4 min. 11.08.2021
Conta-me foi da bola

Mário João, o jogador-trabalhador

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
Há meio século, o lateral do Benfica desafia a ilógica e assina pela CUF pelo conforto de um futuro melhor.

Berna, 31 de Maio de 1961. Se alguém perguntar o que acontece neste dia, não hesite em responder história. História de Portugal: o Benfica sagra-se campeão europeu. História de Espanha: o Real Madrid não ganha a Taça dos Campeões pela primeira vez na história da competição, iniciada em 1955. História da Catalunha: o Barcelona évice-campeão europeu. História da Suíça: Berna é o local da final europeia com mais bolas ao poste (quatro, todaspara o Barcelona). História do Benfica: os jogadores sãoenfim autorizados pela Direcção a trocar de camisolas com o adversário.

Falamos (em forma de escrita) da surpreendente vitória do Benfica sobre o Barcelona (3-2) na final da Taça dos Campeões. Na baliza do Barça, um ícone chamado Ramallets, também conhecido como gato com asas, o guarda-redes mais espectacular da história do clube. Em 15 anos de Barça, ganhou seis campeonatos, cinco Taças Generalíssimo [antes do Rei, houve o General Franco] e 2Taças das Cidades com Feira. Só lhe falta a Taça dos Campeões, que lhe foge no último jogo da carreira, precisamente com o Benfica. “Nem imaginas como eu gritava com os meus defesas.” É uma espécie de Schmeichel? A rectificação, logo a seguir. “Atenção só havia dois defesas quando comecei a carreira. Em 1961, já havia equipas com cinco. Meu Deus, o que interessa no futebol são os golos. Marcá-los o mais possível, evitá-los sofrer o menos possível. A minha defesa ideal é a de três. Equilíbrio.”

 Por falar nisso, o que dizer da final da Taça dos Campeões-61? “O mais desequilibrada possível. Que márecordação! Que desgraça. Podíamos estar ali mais duas horas que só acertaríamos nos postes. É a final dos postes quadrados. Se fossem redondos, quem sabe? Fomos não sei quantas vezes lá à frente e só dois golos! Eles vieram à nossa área quatro vezes e marcaram três golos. Foi amargo sair de lá sem a taça.”

Ramallets é o guarda-redes do Barcelona e não faz nenhuma defesa durante a final com o Benfica. Mário João é o defesa-direito do Benfica e fez uma defesa, aos dois minutos.

Conta ele: “Cabeceamento do Evaristo e eu afastei a bola na linha de golo. As pessoas também dizem que salvei outro golo [42 minutos], a um cabeceamento doKocsis, mas aí foi o Neto que a tirou com a barriga.” E sobre o jogo? “Eles eram a melhor equipa do mundo e nósvínhamos da província. Ninguém conhecia a gente. Nessa final, o Benfica aceitou que trocássemos de camisolas, coisa rara naqueles dias. Se trocássemos, descontavam do nosso ordenado. Era assim... No final desse jogo, troquei com o Czibor. Ainda a tenho para aqui.”

O curioso de Mário João é que joga sete anos no Benfica com uma licença sem vencimento da CUF. O alarme soa em 1962, imediatamente após o Benfica ganhar a segunda Taça dos Campeões consecutiva (5-3 ao Real Madrid).“Pedi uma licença sem vencimento à CUF em 1957. OBenfica interessou-se por mim e aceitei ir morar para Lisboa, para o Lar do Jogador do Benfica. Na época 1960/61, quando ganhámos a primeira Taça dos Campeões, recebíamos três contos por mês, que não dava para nada. Na segundaépoca, o ordenado subiu para quatro contos mascontinuava pouco. Em 1962, a CUF escreveu-me uma carta a dizer que ia acabar a licença sem vencimento. Aí,escolhi sair do Benfica e optei por regressar ao Barreiro para trabalhar na CUF e jogar por eles. Ou ficava noBenfica e perdia o emprego, ou voltava à base. O salário não era muito diferente, mas sempre recebia dos dois lados: como empregado e como jogador. Graças a isso, agora tenho estabilidade. Sou reformado da CUF. Se ficasse no Benfica, seria ultrapassado por alguém mais novo, porque estavam sempre a chegar jogadores novos ao Lar do Jogador, e depois andava aí aos caídos.”

Mário João, ora aí está um flagrante caso de vulnerabilidade dos jogadores de então, presos a um sistema pré-histórico, sem sentido e, infelizmente, coerente. Agora é diferente. Para melhor? Nem pir isso, o dinheiro absurdo do futebol é um insulto para a sociedade. 

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