Escolha as suas informações

Luxemburgo, o adversário mais inofensivo?
Desporto 5 min. 09.10.2019

Luxemburgo, o adversário mais inofensivo?

Luxemburgo, o adversário mais inofensivo?

Foto: Vincent Lescaut
Desporto 5 min. 09.10.2019

Luxemburgo, o adversário mais inofensivo?

Zero golos sofridos nos sete jogos oficiais em Portugal, a propósito do próximo jogo de qualificação para o Euro-2020

Vem aí mais um Portugal-Luxemburgo. O sétimo da história em solo português, o primeiro na qualificação para o Europeu, entre três particulares e três apuramentos para o Mundial. A vantagem é claramente portuguesa, sem empates nem derrotas, além de um avantajado 26-0 em golos. Zero, isso mesmo. Nem um golo para amostra do Luxemburgo. É desta? Alvalade aguarda. Ou não.

 E antes? A história monocórdica começa em 1961, no Jamor. Curiosa, a manifestação popular na hora em que os altifalantes anunciam Yaúca como extremo-esquerdo em vez de Cavém. Sente-se uma atmosfera diferente, há um burburinho. Com a fraca produção ofensiva de Portugal na primeira parte (só 1-0, obtido aos 39 minutos), o seleccionador muda o esquema ao intervalo. Hernâni assume a ponta esquerda e desvia Yaúca para o interior. O povo aplaude, o Luxemburgo encaixa cinco golos. Coincidência das coinciências, três deles de Yaúca – é o terceiro hat-trick de sempre na selecção, após Valdemar vs Itália 1928 e Palmeiro vs Espanha 1956. Antes, autogolo de Brosius (a afastar cruzamento de Yaúca). Depois, o 5-0 de Coluna.

 Avançam-se muitos anos, já estamos em 1986. Ainda faltam alguns meses para Saltillo e já aqui a federação revela uma tendência para a organização entre o assim-assim e o caótico. Qual é o interesse de organizar um particular com Luxemburgo, cujas características de jogo não se assemelham em nada a qualquer um dos três rivais da fase de grupos do Mundial (Inglaterra, Polónia e Marrocos)? Salva-se a vitória por 2-0, com golos madrugadores do central Frederico e do avançado Gomes, ambos de cabeça, ambos servidos por Carlos Manuel. Se a ideia é definir os convocados, os rapazes simpáticos do Luxemburgo em nada ajudam porque não sabem sair do seu meio-campo com a bola controlada. Para se ter uma ideia, o nosso guarda-redes é um dos cinco mil espectadores no Municipal de Portimão, onde, aliás, Damas faz história entre 1982 e 1984, antes do regresso ao Sporting.

O terceiro capitulo anuncia-se em 1988. O Bessa está à pinha, pois claro. Qualquer estudante portador do Bilhete de Identidade, entra à borla para ver os estrangeiros Futre e Rui Barros no arranque da qualificação rumo ao Mundial-90. O adversário é o Luxemburgo, sinónimo de barrigada de golos. Só que não. Excepção feita a Gomes, é uma pobreza franciscana. E não fosse a aselhice dos luxemburgueses na parte final, com dois falhanços inacreditáveis de Girres mais Langers, outro galo cantaria numa noite para esquecer em matéria de hinos. Sim, ninguém se lembra dos hinos antes do pontapé de saída. Já agora, o Luxemburgo entra em campo com dois números 5, algo só rectificado na segunda parte.

 Muda-se o século, olá XXI. Na estreia de Águeda como cidade-sede, a selecção reconcilia-se com o público português e sai aplaudido pela primeira vez em 2004. O Luxemburgo é o adversário ideal para testar a equipa do meio-campo para a frente. Lá atrás, Quim e o quarteto defensivo, liderado por Couto (iguala o recordista João Pinto como capitão pela 23.ª vez seguida), têm uma tarde descansada. No ataque, a magia de Rui Costa é o suporte de uma exibição agradável na primeira parte, coroada com três golos, todos com a marca registada do número 10: é ele quem sofre a falta para o 1-0 de Figo (belo livre directo a enganar Besil por completo e aquilo mais aparece um penálti: bola para um lado, guarda-redes para o outro), quem faz o passe para o 2-0 de Nuno Gomes e quem assina o 3-0 num pontapé formidável a 30 metros da baliza. A segunda parte é maçadora, por culpa (em parte) de Ronaldo. Na ânsia de se mostrar, o número 17 agarra-se demasiado à bola e perde-se o jogo fluído da selecção.

 Algarve, 2005. O Mundial-2006 está ali à mão de semear e Portugal dá mais um passo glorioso, com um redondo 6-0. Quem desbloqueia o 0-0 é o central Jorge Andrade, de cabeça. O 2-0 também é de cabeça e do outro central, Ricardo Carvalho. Ambos a cruzamento de Figo, que senhor. Segue-se o bis de Pauleta, devidamente patrocinado por Jorge Andrade (que abertura sensacional) e Moutinho (recuperação de bola e passe milimétrico). Para fechar o assunto, outro bis, de Simão. Substituto de Ronaldo aos 64 minutos, o então capitão do Benfica festeja duas vezes em quatro minutos, através de dois remates fora da área, o primeiro deles de livre directo.

 Algarve, a sequela. Em Agosto 2011, há um particular em jeito de início de época. O abre-latas é Postiga, com o pé esquerdo, num bonito chapéu à entrada da área. Ainda antes do intervalo, um livre directo de Ronaldo garante o 2-0. O impensável acontece no início do segundo tempo, com cruzamento de João Pereira para cabeceamento vitorioso de Coentrão. Os dois jogadores mais baixos da selecção de Paulo Bento constroem o 3-0 e antecipam o festival Hugo Almeida, que substituíra Postiga. Se o 5-0 é um mero pró-forma à boca da baliza, o 4-0 é um golo memorável, beeem fora da área. O remate-banana surpreende tudo e todos – talvez até o próprio Hugo Almeida.

 Dois anos depois, em 2013, o último episódio. Sem Ronaldo, é Nani quem assume o papel de rematador-mor com um pontapé (9') e um cabeceamento (23') para defesas aparatosas de Joubert. Pelo meio, Coentrão acerta de cabeça uma bola na trave (13'). Segue-se a expulsão de Joachim, por entrada dura sobre André Almeida, e estende-se ainda mais a passadeira vermelha para a vitória portuguesa. Varela agradece e faz o 1-0. Sete minutos depois, Moutinho assiste Nani de calcanhar e ainda Postiga para o 3-0. Até poderiam ser mais, só que a aselhice de Hugo Almeida é um caso de estudo. O homem falha um golo na linha, com a baliza escancarada. O falhanço surpreende tudo e todos – talvez até o próprio Hugo Almeida.

Fim de papo? Nem por isso, dia 11 há mais.

Rui Miguel Tovar

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba a nossa newsletter das 17h30.