Finalmente o ouro
Finalmente o ouro
Poucos meses após as polémicas Olimpíadas de Moscovo, Portugal ficava de luto com a morte de Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa. Quatro dias depois (8 de dezembro), o mundo vestia-se da mesma cor: John Lennon era assassinado. Passados quatro anos, os JO saltavam para o estado mais quente da Guerra Fria. Teerão, capital do Irão, em plena guerra com o Iraque, tinha apresentado uma candidatura pouco apelativa. O Irão acabou por desistir desta corrida inútil contra o Grande Satã. Para vincar bem o peso dos EUA, os JO estavam de volta à Califórnia. Los Angeles seria de novo a cidade anfitriã da competição olímpica. O COI fez questão de equilibrar a balança política mundial, exigindo não menos que o melhor evento de sempre, na medida em que podia fazer "exigências" aos EUA. Era mais um desejo, como este: que não houvesse boicotes, please.
Los Angeles, como já havia acontecido em 1932, como todas as diferenças possíveis e mais uma, não estava para desiludir. Em contraste com Moscovo - assim como todas as transactas olimpíadas -, os EUA acharam que era chegado o momento de romper com o amadorismo do passado, na expressão mais literal do capitalismo. Começando pelo fim: pela primeira vez na sua história, fruto da política clara e assumidíssima de patrocínios, os JO deram lucro. A economia americana conhecia tempos de prosperidade. Ronald Reagan, presidente americano, ex-ator e ex-governador do Estado da Califórnia, empenhou-se nestas Olimpíadas com toda a energia, percebendo que a oportunidade era única para desferir mais um golpe no outro gigante, adormecido e em período de estagnação, mergulhado numa crise da sua indústria e numa crise de sucessão, que havia de conduzir Mikhail Gorbatchov ao poder.
A Leste, a situação não estava lá muito olímpica. E, mesmo que estivesse, não era de esperar que a URSS, tendo sido boicotada nas suas olimpíadas fosse agora estar presente nuns olímpicos made in USA. Era mais que óbvio que o COI não veria o seu desejo realizado. As duas forças vencedoras dos JO de Moscovo (URSS e RDA) anunciaram o seu contra-boicote a Los Angeles, o mesmo fazendo, embora por razões diferentes, alguns países africanos. Por junto, nada que não fosse esperado.
Portugal, com 38 atletas para 11 modalidades, teve em Los Angeles a sua melhor prestação de sempre.
Inesperada foi uma presença em Los Angeles. Meses antes das olimpíadas, Ronald Reagan, tinha feito uma visita de Estado ao outro lado do outro lado: a China que, pela primeira vez na sua História, anunciou a sua presença num evento Olímpico. A Roménia, que todos julgavam não estar presente, esteve. Los Angeles não fez a coisa por menos, batendo o recorde de número de presenças: 12 mil atletas, em representação de 140 países. No que mais interessava, os EUA não estavam dispostos a deixar os seus créditos, que nas últimas olimpíadas (exceptuando, claro, Moscovo), tinham ficado em mãos alheias. A equipa de basquetebol americana foi a mais brilhante de sempre, não tivesse presente o melhor jogador da história deste desporto: Michael Jordan, para sempre conhecido como "Air Jordan".
Os EUA dominaram no ar e em terra. Os velocistas norte-americanos estiveram em grande forma. Carl Lewis dominou os 100, 200 e 4x100 metros, conquistando o ouro, fazendo o mesmo no salto em comprimento. As suas quatro medalhas de ouro igualaram o recorde do lendário Jesse Owens (Berlim, 1936), embora em clima incomparavelmente mais favorável. E, claro, o inevitável Edwin Moses nos 400m barreiras. Como era previsível, os EUA dominaram, conquistando um total de 174 medalhas (83 de ouro; 61 de prata; 30 bronze). A grande surpresa foi a Roménia, ficando em segundo, conquistando 20 medalhas de ouro; 16 de prata e 17 de bronze.
Portugal, com 38 atletas para 11 modalidades, teve em Los Angeles a sua melhor prestação de sempre. Dada a diferença horária, quem não se recorda de passar uma madrugada em branco para assistir à maratona em que Carlos Lopes concretizou o sonho de ganhar o ouro. Rosa Mota, igualmente na maratona, trouxe a medalha de bronze, o mesmo conseguindo António Leitão nos 5 mil metros, onde Ezequiél Canário esteve brilhante. Nos 3 mil metros, Aurora Cunha ficou em sexto. José Pinto conquistou um oitavo lugar nos 50 km´s de marcha. Para Portugal, marcharam em glória.
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