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Londres construiu um estádio de propósito para as Olimpíadas
Desporto 4 min. 25.06.2021 Do nosso arquivo online
Londres 1908

Londres construiu um estádio de propósito para as Olimpíadas

Londres 1908

Londres construiu um estádio de propósito para as Olimpíadas

Desporto 4 min. 25.06.2021 Do nosso arquivo online
Londres 1908

Londres construiu um estádio de propósito para as Olimpíadas

Luís Pedro Cabral
Luís Pedro Cabral
Perigo à vista: enquanto evento universalista (a Grécia bem tentou que fosse caseiro), os Jogos Olímpicos estavam na corda bamba existencial, depois dos recordes absolutos de insensatez em Paris e dos experimentalismos antropológicos de Saint Louis, à Grã-Bretanha cabia salvar a honra olímpica. Londres não desiludiu.

Londres, 1908

Fosse qual fosse, a próxima anfitriã corria o sério risco de ficar na História como a cidade onde os Jogos Olímpicos acabaram. Nos dias de hoje, os países "lutam" por um evento desta magnitude nas suas cidades. Naquele tempo, esgueiravam-se pela sombra diplomática, desfazendo-se nos mais elaborados argumentos para declinar. Foi o que aconteceu com Roma. O COI entendeu que a antiga capital do Império Romano, pela sua História e pela sua monumentalidade, seria o palco ideal para retirar os Jogos Olímpicos da agonia. O barão de Coubertin esgotou o seu latim e não foi capaz de convencer os italianos que a História estava outra vez do seu lado. Roma mostrou-se muito honrada com o convite mas, infelizmente, aquele evento não vinha na melhor altura. Não havia capacidade, meios, estruturas, verbas, "savoir faire" ou harmonia de vontades para organizar o grandioso certame que o olimpismo merecia. Ficava para um dia destes. "Arrivederci", senhor barão.

De exclusão em exclusão de partes, a organização dos Jogos Olímpicos de 1908 tinha caído num vazio. De lá, das trevas da incerteza, eis que surge a Grã-Bretanha como deus-Sol, chamando a si esse desígnio. Como já havia acontecido em França e nos EUA, não era um, mas dois desígnios num só. A par dos Jogos Olímpicos, Londres seria igualmente palco de uma exposição mundial, no caso, franco-britânica. "Never mind the ancient bollocks, my dear baron", os Jogos Olímpicos estavam em boas mãos. A Grã-Bretanha não tinha qualquer experiência (nem podia) na organização de um evento como este, mas o COI podia ter a certeza que fariam deste a sua "cup of tea".

Mesmo com alguns contratempos, que já se tinham tornado habituais nas Olimpíadas, Londres não desiludiu. Os invés do que havia acontecido no passado, colocou o foco nos Jogos Olímpicos e menos na exposição mundial. E, para mostrar ao mundo o que valia a palavra e o empreendedorismo britânico, Londres imbuiu-se de um certo espírito faraónico, construindo "ex nihilis" um estádio Olímpico. O Shepard´s Bush Stadium era uma obra de vulto e uma marca indelével do prestígio que se queria conferir aos Jogos Olímpicos, que andava pelas horas da amargura.

Os Jogos Olímpicos de Londres, em 1908, seriam os mais longos de sempre, de Abril a Outubro, em 178 dias de competição. Na Primavera londrina era disputados as chamadas Olimpíadas de Inverno, decorrendo as provas restantes no envergonhado Verão britânico.

Em Londres se reuniram 2030 atletas - deste número apenas 30 eram mulheres -, oriundos de 22 países. As mulheres eram bem capazes de ter outra opinião, mas estes Jogos Olímpicos, para tristeza da Grécia, ainda hoje são considerados como um dos melhores de sempre da história do olimpismo. Mas, apesar de ser em Inglaterra, nem tudo foram rosas.

Por esses dias, as relações externas entre a Grã-Bretanha e os EUA não viviam propriamente uma fase de romance. No desfile inaugural, a comitiva norte-americana recusou-se a baixar a sua bandeira na saudação ao rei Eduardo VII - soberano do Reino Unido e da Irlanda, dos Domínios Britânicos e imperador da Índia -, que não gostou da provocação. A comitiva finlandesa também se recusou a desfilar sob a bandeira da Rússia. Se a política foi estreante, a religião foi recorrente. De novo a questão das provas ao domingo. Em protesto, Forest Smithson, o grande velocista norte-americano, venceu os 110m barreiras com asas nos pés e uma Bíblia na mão.

Os JO de Londres inauguraram duas novas modalidades: o hóquei em campo e uma prova náutica motorizada, com canoas a motor, que não vingaria. Fazendo jus à recente tradição olímpica, nem a maratona seria maratona sem polémica da grossa, não sem antes ficar estabelecido que distância da prova-rainha, mais tarde homologada para os Olímpicos seria exactamente 42,195 km´s, que era a distância do Palácio de Winsor até ao estádio, onde Dorando Pietri, movido a estricnina, chegou em suor e glória. O atleta italiano, pasteleiro de profissão, chegou à meta quase defunto. Seria amparado por Sir Arthur Conan Doyle, criador de Sherlock Holmes, que não foi chamado a investigar o óbvio. Pietri seria medalhado por Alexandra Caroline Marie Charlotte Louise Julia, rainha consorte. Pelo menos, com mais que o vencedor da maratona, que seria desclassificado e teve de devolver a medalha.

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