Escolha as suas informações

God Save the Queen & the Olimpics
Desporto 4 min. 21.07.2021
Londres 2012

God Save the Queen & the Olimpics

Londres 2012

God Save the Queen & the Olimpics

Desporto 4 min. 21.07.2021
Londres 2012

God Save the Queen & the Olimpics

Luís Pedro Cabral
Luís Pedro Cabral
Pela primeira vez na histórias das olimpíadas, todas as delegações nacionais eram compostas de homens e de mulheres, incluindo a Arábia Saudita. Isabel II participou na abertura dos jogos. A neta ganhou uma medalha de prata. Portugal, outra.

Nas últimas décadas, começava a ser habitual a corrida às Olimpíadas, mas nunca a concorrência fora tão forte. Feita a "filtragem" das primeiras cidades concorrentes às XXX Olimpíadas da era moderna, seriam excluídas Havana, Istambul, Lepzig e Rio de Janeiro. Na "short list": Madrid, Londres, Paris, Nova Iorque e Moscovo. Seria Londres a entrar directo para a história dos anfritriões olímpicos, tornando-se na única cidade a receber umas olimpíadas pela terceira vez (as anteriores: 1908 e 1948). O COI tinha para com a capital de Inglaterra uma dívida histórica, embora a organização britânica tivesse já dado sobejas provas da sua capacidade, mesmo em períodos históricos extremamente delicados, por óbvio, em 1948, na "ressurreição" dos Olímpicos após a II Guerra Mundial, depois de uma interrupção de 12 anos.

Desta vez, Londres, com o tradicional humor britânico, afirmou estar simplesmente empenhada em proporcionar ao mundo, com todo o peso da sua globalidade tecnológica, os melhores olímpicos do século. Ainda assim, desígnio ambicioso, já que Sidney, Atenas e Pequim não tinham deixado rasto fácil de seguir. Londres previa um investimento avultadíssimo, embora prevesse ser bastante maior o lucro. Seguindo o modelo organizativo moderno (pós-Atlanta/1996), seria um misto de financiamento público e privado. A saber: 6,2 mil milhões de libras esterlinas viriam de Downing Street, 2,2 mil milhões das Lotaria Nacional, 875 milhões da City, 700 milhões em patrocínios (42 empresas) e ainda 600 milhões de verbas de bilheteira. As grandes infraestruturas já moravam em Londres, mas a cidade necessitou obras estruturais ou de recuperação de algumas zonas limítrofes da cidade, assim como na rede de transportes. A rede de Metro ("tube") foi substancialmente ampliada.

A Cerimónia de Abertura dos JO de Londres, deixou marca. O espectáculo, que incluiam animais no grande palco do Estádio Olímpico de Londres, foi concebido e dirigido por Danny Boyle, que havia recebido um Óscar com Slumdog Millionaire (na adaptação portuguesa: Quem Quer Ser Milionário), talvez premonitório do cachet. A cerimónia foi uma parada de estrelas, entre as quais se destacaram J.K. Rowling, Paul McCartney (que viria a cantar na cerimónia de encerramento), Rowan Atkinson, mister Bean para os amigos, e Daniel Craig, que desempenhou um papel na abertura dos jogos, contracenando com a rainha Isabel II, numa das suas raríssimas aparições olímpicas. Mais para a frente, a família real britânica conseguiria um feito assinalável. Zara Phillips, filha da princesa Anne (também ela com tradição olímpica), neta de Isabel II, conquistaria a primeira medalha de prata "real" no hipismo.

Um feito verdadeiramente real: pela primeira vez na longa História dos olímpicos da era moderna, todas as representações nacionais tinham homens e mulheres. Não é preciso recordar que estávamos em 2012, pois não? Significa isto que países como a Arábia Saudita, o Qatar ou o Brunei "toleraram" pela primeira vez que mulheres participassem numas Olimpíadas. Não sem consequência para as atletas que, mesmo assim, só participaram depois do COI autorizar o "hijab". Um pequeno passo, até algo desconfortável para as atletas, mas um grande passo para a Humanidade. A título de exemplo: nos JO de Atlanta, em 1996, 26 delegações nacionais eram ainda compostas exclusivamente por homens.

O comitiva portuguesa apresentou-se com 77 atletas, o mesmo número que levara a Pequim, embora tenham ficado em Portugal atletas de peso, como Nélson Évora (medalha de ouro), Francis Obikwelu, Naide Gomes ou Rui Silva. A canoagem salvou a honra olímpica. Emanuel Silva e Fernando Pimenta, trouxeram a medalha de prata na prova dos mil metros em K2.

Quanto o assunto é água: Michael Phelps. O nadador norte-americano, tricampeão em diversas distâncias e estilos, acabou por destronar Larissa Latynina, ginasta da antiga URSS, tornando-se no mais medalhado de sempre nas olimpíadas. O número é esclarecedor: 19 medalhas. A equipa de basquetebol NBA/USA também fez das suas, estabelecendo o recorde de número de pontos num jogo: 159 contra a Nigéria. Roger Federer e Juan Martín del Potro começaram a final do ténis em pleno dia e acabaram de noite: 4h 26 minutos. Nas pistas de atletismo, estreou-se um atleta muito especial, natural da África do Sul. Oscar Pistorius foi o primeiro atleta biamputado a participar nos JO em vez de ser relegado para os Paralímpicos, correndo com próteses de fibra de carbono. Pistorius fez história, conseguindo atingir a meia-final dos 400m. A sua história futura seria bem menos edificante.

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.


Notícias relacionadas

Pela primeira vez os JO disputam-se num ano ímpar, cortesia da segunda pandemia do nosso século. Ao longo da sua história, sobreviveram a duas guerras mundiais e a uma Guerra Fria. Uma viagem secular, com início em 1896.
TOPSHOT - This general view shows Mount Fuji, Japan's highest mountain at 3,776 meters (12,388 feet), seen from Lake Yamanaka, next to a Tokyo 2020 Olympics banner on July 19, 2021. (Photo by Charly TRIBALLEAU / AFP)
Atenas 2004
Com a internet, foram as Olimpíadas mais mediáticas de sempre. Não faltou glória e drama. E uma agressão em directo ao atleta brasileiro que ia em primeiro na prova da maratona.
Perigo à vista: enquanto evento universalista (a Grécia bem tentou que fosse caseiro), os Jogos Olímpicos estavam na corda bamba existencial, depois dos recordes absolutos de insensatez em Paris e dos experimentalismos antropológicos de Saint Louis, à Grã-Bretanha cabia salvar a honra olímpica. Londres não desiludiu.