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A melhor final europeia de sempre
Opinião Desporto 5 min. 18.05.2022
Futebol

A melhor final europeia de sempre

Final da Liga Europa este ano tem um representante português: Gonçalo Paciência, do Eintracht.
Futebol

A melhor final europeia de sempre

Final da Liga Europa este ano tem um representante português: Gonçalo Paciência, do Eintracht.
Foto: Arne Dedert/dpa
Opinião Desporto 5 min. 18.05.2022
Futebol

A melhor final europeia de sempre

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
Primeira final europeia 2021-22 é esta quarta-feira em Sevilha entre o invicto Eintracht (onde joga Gonçalo Paciência) e o Rangers (carrasco do Braga nos ¼ final).

Diz quem viu, é a melhor final de sempre da Taça dos Campeões. Calma, não é tão emocionante como a de 1999 entre Bayern e Man United resolvida com dois golos nos descontos. Muito menos em mediatismo, como a de 2008 entre Man United e Chelsea, iniciada num dia e só terminada no seguinte, com prolongamento e muitos penáltis à mistura. Diz quem viu, o Real Madrid vs Eintracht Frankfurt em 1960 é um espectáculo só visto. Diz quem viu – e viram 127,621 adeptos no Hampden Park, em Glasgow. E também viram milhões e milhões de telespectadores por essa Europa fora, na primeira final europeia transmitida pelos países da UER (União Europeia de Radiodifusão).

E isto do diz quem viu não é conversa da treta. É a mais pura verdade. Porquê? Porque um dos 127,621 adeptos é um jovem de 19 anos chamado Alex Chapman Ferguson. E ele, depois transformado em Sir Alex, diz que viu um "jogo mágico, revolucionário", que os seus olhos "nunca sonharam ver". E porque um outro adepto de todos aqueles que lotaram o estádio da capital escocesa se chamava Don Revie, então jogador-treinador do Leeds United (retratado como antagonista no filme "Maldito United"), e sugeriu à direcção do seu clube que o equipamento passasse a ser todo branco, igual ao do Real Madrid.

Bom, deixemo-nos disso do diz quem viu e passemos à acção, à história propriamente dita. Àqueles 90 minutos de adrenalina, entre Real e Eintracht, cujo resultado final soa a fantasia (7-3), pela quantidade absurda de golos, bem como pela demolidora pontaria de Puskas e Di Stéfano (autores de quatro e três golos, respectivamente), sem esquecer o brilho do sol nesse final de tarde inesquecível (o jogo começou às 19h30 locais), o que implicou hora e meia de futebol sem luz artificial, num relvado impecável, seco e sem uma poça de água, o que muito agradou aos 22 jogadores.

Outros tempos, em que os graus de exigência e satisfação eram bem mais naturais. O Madrid apresentou-se em Glasgow como tetracampeão europeu, a equipa mais temida do mundo, embora tivesse entrado naquela edição da Taça dos Campeões como detentora do ceptro e não como campeã espanhola (título que coube ao Barcelona pela diferença de dois golos).

Já o Frankfurt, que muito se assemelhava ao Benfica pelas cores das camisolas (vermelhas) e respectivo símbolo (águia), também aterrou na Escócia com um cartel impressionante. O seu futebol, de tão espectacular e futurista, merecera o epíteto Fussball-2000 e os escoceses já sabiam ao que iam. Diz quem viu que o Eintracht eliminara o Rangers na ½ final com uma facilidade impressionante entre 6:1 na RFA e 6:3 em Ibrox.

Em Hampden Park, outro festival de bola. O Eintracht, campeão alemão (pela primeira e única vez), domina os primeiros 20 minutos. Stein atira à barra de Domínguez e Kreiss abre o marcador pouco depois. O Real reage como se nada tivesse acontecido e os golos sucedem-se. Di Stéfano marca dois, quase de seguida. Puskas exagera e faz quatro em menos de meia-hora. O resultado já está feito, só que as pessoas não arredam pé do estádio. Naturalmente.

É como diz Bobby Charlton. "O meu primeiro pensamento foi que aquilo tinha sido mentira, um filme fantástico, porque aqueles 22 jogadores fizeram coisas que não são possíveis, não são reais nem humanas." Diz ele, que não viu em directo. Como os portugueses, que só puderam dizer que viram em Setembro, à tarde, quando a RTP, então com três anos de vida, transmitiu o jogo na íntegra – o primeiro de sempre da Taça dos Campeões. Diz quem viu.

Recapitulemos a matéria dada: Eintracht vs Rangers em 1960. Agora, 62 anos depois, ei-los a discutir a final da Liga Europa, em Sevilha. Primeiro ponto de ordem, absolutamente incrível: o Eintracht chega invicto à final com 7 vitórias e 5 empates. Primeiro classificado do grupo D, elimina Betis, Barcelona e West Ham.

Já o Rangers é mais trapalhão e acumula cinco derrotas – uma das quais é em Braga, golo solitário de Abel Ruiz; na segunda mão, o Rangers vence 3:1 após prolongamento e expulsa o único clube português na UEFA, nos ¼ final. Antes, o vice-campeão escocês acaba em segundo lugar no grupo A. Depois, o mérito maiúsculo de afastar duas equipas alemãs de classe média-alta como Borussia Dortmund e Red Bull Leipzig, 2.º e 4.º classificados da 1. Bundesliga 2021-22. O Eintracht é o 11.º.

O mistério adensa-se e a final ganha mais élan ainda. Afinal de contas, o último alemão a ganhar a competição é o Schalke 04 em 1997, ano em que termina o campeonato em 12.º lugar e levanta a Taça UEFA em pleno Giuseppe Meazza vs Inter, no desempate por penáltis (Wilmots é o herói como autor do 4:1). E o último escocês? Zero, nunca um escocês ganha o troféu e o último finalista é precisamente o Rangers em 2008, derrubado pelo Zenit (2:0). Antes, em 2003, o Celtic provara do mesmo veneno, vs FC Porto de Mourinho, em Sevilha, onde hoje se joga a final vs Eintracht.


Conta-me como foi da bola
Efemérides e histórias caricatas do futebol pelo jornalista Rui Miguel Tovar.

Só para acabar a conversa, há um representante português na final. Chama-se Gonçalo Paciência, é avançado do Eintracht e soma dois golos europeus, ambos vs Antuérpia, ambos nos descontos, um na Bélgica, de penálti, outro na Alemanha. Mais um motivo de interesse para seguir uma final inédita entre dois clubes com currículo na UEFA: o Eintracht vence a Taça UEFA 1980 (vs M’Gladbach), o Rangers a Taça das Taças 1972 (vs Dínamo Moscovo). E hoje, quem ganha?

(*o autor escreve ao abrigo do antigo AO.)

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