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Liga dos Campeões. O senhor feliz e o senhor contente
Opinião Desporto 7 min. 28.05.2022
Futebol

Liga dos Campeões. O senhor feliz e o senhor contente

É dia de final, dia de Real Madrid vs Liverpool, dia de senhor feliz (Carlo Ancelotti) e senhor contente (Jürgen Klopp).
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Liga dos Campeões. O senhor feliz e o senhor contente

É dia de final, dia de Real Madrid vs Liverpool, dia de senhor feliz (Carlo Ancelotti) e senhor contente (Jürgen Klopp).
Foto: AFP
Opinião Desporto 7 min. 28.05.2022
Futebol

Liga dos Campeões. O senhor feliz e o senhor contente

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
Atenção Liverpool, o Real Madrid vai numa sequência irresistível de nove conquistas europeias seguidas (a última final perdida é em 1983).

Como vai, senhor feliz?

Como passa, senhor contente?

Diga à gente, diga à gente

Como vai este país

Em 1992, a UEFA cria a Liga dos Campeões e encomenda a música escrita pelo compositor inglês Tony Britten para dar corpo ao hino da prova. A letra mistura elementos das três línguas oficiais da UEFA (inglês, francês e alemão). Nós, por cá, somos da opinião de que o hino de hoje em Paris devia ser o do senhor Feliz e o do senhor Contente. Com a licença de Herman José e Nicolau Breyner, claro.

É dia de final, dia de Real Madrid vs Liverpool, dia de senhor feliz (Carlo Ancelotti) e senhor contente (Jürgen Klopp). O palco é o da consagração da selecção portuguesa em 2016, graças a um golo espontâneo do suplente Éder no prolongamento. O Real Madrid é o senhor Europa. Há a história. E o estatuto. E os títulos. E os adeptos. A grandeza dos clubes mede-se assim. O Real Madrid é capaz de ser o único a rebentar a escala em todos os registos. Daí o nome: senhor Europa. Assenta-lhe como uma luva, e a campanha na Liga dos Campeões 2021-22 é a enésima demonstração de resiliência e irredutibilidade.

Sai-lhe o PSG nos oitavos. Azar. De quem? Pois é, o PSG começa bem com 1:0 em Paris, golo de Mbappé nos descontos. Em Madrid, o mesmo Mbappé dá o golpe antes do intervalo. E agora? Benzema chega-se à frente e marca um, dois, três. O PSG já nem reage e é eliminado sem honra nem glória, com o tridente Mbappé, Messi e Neymar.

Sai-lhe nos ¼ o Chelsea, campeão europeu em título. Benzema continua a jogar sozinho, outro hat-trick, agora em Londres. A vantagem é generosa, 3:1. O Chelsea enche-se de brio e, pasme-se, vira a eliminatória aos 75’ com o 0:3 de Werner. Entra Rodrygo aos 78’, marca Rodrygo aos 80’. Empate, vamos para prolongamento. Benzema diz presente, é a derrota mais deliciosa do Real Madrid.

Aí vamos nós, ½ final. É o City na rifa. Em Manchester, o Real Madrid é passado a ferro na primeira meia-hora. Podiam ser três, quatro, cinco. Só 2:0, por De Bruyne e Gabriel Jesus. Antes do intervalo, 2:1 de Benzema. No reinício, 3:1 de Foden. Logo a seguir, 3:2 de Vini Jr. Aos 74’, Bernardo faz o 4:2 de longe. Assunto arrumado? Nem por isso, penálti de Laporte por mão na bola. Avança Benzema. Detalhe, o francês falha dois penáltis na última semana. O que faz ele? Um panenka, bola picada para o meio da baliza. Uh la la, c’est magnifique. Acaba 4:3.

No Santiago Bernabéu, o City é superior uma e outra vez. O Real não ata nem desata. Aos 73’, Mahrez faz 5:3 na eliminatória. Está feito. Ou não? Isto é o Real Madrid, a tal equipa capaz de superar qualquer obstáculo. Epá, mas este é complicadíssimo. Estamos a falar do City, a melhor defesa da Premier League. Pois é. Rodrygo entra e marca dois golos em 80 segundos. É a loucura, 2:1 no jogo e 5:5 na eliminatória. Mais um prolongamento. Logo a abrir (95’), penálti de Rúben Dias sobre Benzema. De novo, Benzema vs Ederson. De novo, golo. O Real adianta-se em definitivo e defende a vantagem com categoria. O City é uma equipa sem rei nem roque. Guardiola cumprimenta Ancelotti e admite falhas de concentração.

A tarefa do Liverpool é hérculea, porque o Real Madrid não perde uma final europeia desde 1983. Ullevi, Gotemburgo, 11 Maio 1983. A Suécia é um país habituado a grandes cometimentos.

Eis o Real na final. Do outro lado, o Liverpool. Na fase de grupos, seis vitórias em seis jogos vs Milan, FC Porto e Atlético Madrid. O seu percurso na fase a eliminar é mais simples que a do Real Madrid, e sem qualquer minuto em desvantagem vs Inter (2:0 no Giuseppe Meazza, 0:1 em Anfield), Benfica (3:1 na Luz, 3:3 em Anfield) e Villarreal (2:0 em Anfield, 3:2 no Cerâmica). È obra. Do mestre Klopp. Há uma facilidade de processos e também há uma quantidade absurda de talento, até no banco de suplentes, como Luis Díaz, contratado em Janeiro ao FC Porto.

A tarefa do Liverpool é hérculea, porque o Real Madrid não perde uma final europeia desde 1983. Ullevi, Gotemburgo, 11 Maio 1983. A Suécia é um país habituado a grandes cometimentos. Antes (1958), coroa o rei Pelé no Mundial. Depois (1992), coroa a Dinamarca no Europeu. Pelo meio, o primeiro título internacional de Alex Ferguson.

Vencedor da Taça da Escócia com um espantoso 4:1 vs Rangers, o Aberdeen sela o apuramento para a Taça das Taças por mérito próprio. Começa na pré-eliminatória, como o Braga, e só acaba na Suécia. Elimina Sion (11:1 no geral), Dínamo Tirana (1:0), Lech Poznan (3:0), Bayern (3:2) e Waterschei (5:2). Na final, o favorito Real Madrid com nove espanhóis (entre eles, o lateral-esquerdo José Antonio Camacho), um alemão (Stielike) e um holandês (Metgod). No banco, Alfredo di Stéfano. Esse mesmo, o único a sagrar-se campeão argentino pelos dois grandes (Boca 1969, River 1981) e já vencedor de uma Taça das Taças (Valencia 1980).

O Aberdeen é uma equipa de classe média escocesa, sem expressão na Europa, com um onze de escoceses e um semidesconhecido no banco. Chama-se Alex Ferguson, com 41 anos de idade, menos 11 que Di Stéfano. Já campeão escocês pelo Aberdeen em 1980, Alex sabe muito bem o que quer. É ele quem trata de escolher o hotel no meio da floresta, longe do mundo – inclusive WAG’s, acrónimo ainda por inventar sobre esposas e namorada (wifes and girlfriends). Diz o capitão Willie Miller. ‘Estávamos proibidos de falar com as nossas companheiras. A mulher de Dougie Bell, por exemplo, estava grávida. Se ela entrasse em trabalho de parto, telefonaria primeiro ao Fergie do que ao marido’.

Para Gotemburgo, o Aberdeen leva um convidado especial: Jock Stein, vencedor da Taça dos Campeões pelo Celtic em 1967 (Jamor) e o então seleccionador da Escócia. É Stein quem dá a táctica a Alex. ‘Ele disse-me para ir ao balneário do Real Madrid e cumprimentar o Di Stéfano para fazê-lo sentir-se especial.’ Ferguson ouve com atenção e faz tudo à risca. Alex entra no cantinho do Real Madrid e Di Stéfano recebe-o com surpresa. Há até uma fotografia famosa com o escocês risonho e o argentino com o sobrolho franzido.

Quando o jogo começa, num campo empapado pelas chuvas dos últimos dois dias, o Aberdeen atira-se para a frente. Strachan arrisca um pontapé de bicicleta no limite da grande área e a bola é desviada pela trave. Aos 7’, o miúdo Black (19 anos) abre o marcador na sequência de um canto. O Madrid reage de imediato e ganha um penálti, a castigar falta de Leighton sobre Santillana, após atraso de Miller em que a bola acaba por ficar presa numa poça de lama. O capitão Juanito chega-se à frente e empata 1:1.

O Aberdeen arregaça ainda mais as mangas e parte para o ataque. A recompensa pela audácia chega no prolongamento no enésimo ataque. Aos 112 minutos, o suplente Hewitt cabeceia e torna inútil a estirada do até então irrepreensível portero Agustín. Quando se apita pela última vez, os jogadores do Aberdeen abraçam-se como nunca.

Dizíamos há uns parágrafos, o último título europeu perdido pelo Real Madrid é em 1983. Daí para cá, acredite, nove finais, nove vitórias. É um registo à Real. Dessas nove conquistas, duas Taças UEFA (seguidas, em 1985 e 1986) e sete Ligas dos Campeões, a última delas vs Liverpool de Klopp em 2018. Ah pois é, aquela noite negra do guarda-redes Karius, claramente o pior em campo com duas gafes monumentais a desequilibrar o marcador – só um golo é mérito do Real, e que golo (bicicleta de Bale).

Se a isso juntarmos o facto de o Real se dar bem em finais no dia 28 Maio, com 3:2 vs Milan em 1958 e 5:3 nos penáltis vs Atlético Madrid em 2016. E há outra, Ancelotti ganha a sua primeira Liga dos Campeões a 28 Maio 2003, vs Juventus. As coincidência iguais às bruxas: que las hay, las hay.

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