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Jesus, zero títulos em 83 jogos
Desporto 5 min. 28.12.2021
Conta-me como foi da bola

Jesus, zero títulos em 83 jogos

Jorge Jesus deixou o Benfica esta terça-feira.
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Jesus, zero títulos em 83 jogos

Jorge Jesus deixou o Benfica esta terça-feira.
Foto: AFP
Desporto 5 min. 28.12.2021
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Jesus, zero títulos em 83 jogos

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
Acaba o segundo romance com o Benfica num semestre inimaginável entre a prisão de Vieira, os maus resultados, a intromissão do Flamengo e as bocas foleiras.

Prometia, o regresso de Jesus ao Benfica em 2020. ‘Não vamos jogar o dobro, vamos jogar o tripo e arrasar’. Diz o homem na apresentação oficial, de peito feito, recém-chegado do Rio de Janeiro, onde estende o seu nome além-fronteiras ao serviço do Flamengo com a módica quantia de cinco títulos em seis possíveis: entre Libertadores, Brasileirão, Supertaça do Brasil, Supertaça sul-americana e Cariocão, só lhe falta o Mundial de clubes, perdido na final vs Liverpool.

O momento é grandioso, nunca um treinador português acumulara tantos títulos em tão pouco tempo (13 meses) e nunca um treinador português melhorara tanto o seu currículo com tão poucos jogos (57). É obra. De repente, Jesus é o salvador do Benfica. Já o fora em 2009 como alternativa a Quique Flores. 

Em seis épocas, o Benfica de Jesus chega a duas finais seguidas da Liga Europa e ganha três campeonatos – os outros três fogem para o FC Porto, dois dos quais sem derrotas, cortesia Villas-Boas 2011 e Vítor Pereira 2013. Segue-se a movida no Sporting, depois a aventura exótica na Arábia Saudita e o maravilhoso microciclo no Flamengo.


Jorge Jesus deixa o Benfica
O técnico será substituído por Nélson Veríssimo até ao final da temporada.

O regresso à Luz é aplaudido com pompa e circunstância. O Benfica quer voltar à ribalta, Jesus sonha em continuar na crista da onda. Nada feito, tudo em vão. A primeira época começa mal e acaba pior ainda. 

Na estreia, o PAOK de Abel Ferreira afasta o Benfica da fase de grupos da Liga dos Campeões com 2:1 em Salónica. No fim da época 2020-21, já com o terceiro lugar assegurado na 1.ª divisão, atrás de Sporting e Porto, o Benfica perde a final da Taça de Portugal vs Braga. Pelo meio, uma série de equívocos recorrentes como o 3:0 no Bessa e a derrota em casa vs Braga em Novembro, a perda da Supertaça portuguesa em Dezembro (2:0 vs FC Porto), a eliminação na ½ final da Taça da Liga em Janeiro (2:1 vs Braga), o adeus ao título e à Liga Europa em Fevereiro, por culpa de Sporting (1:0 no José Alvalade) e Arsenal (3:2 em Atenas). 

Contas feitas, 105 milhões de euros em reforços para nada. Culpa de Jesus? Dos jogadores? Da direcção? Da falta de adeptos no estádio? Não, nada disso, a culpa é da Covid.

Pausa para férias. É o Verão, é o Euro. Antes de Portugal ser eliminado pela Bélgica nos oitavos, já o Benfica trabalha para chegar em forma à primeira de duas pré-eliminatórias da Liga dos Campeões. É o fardo por ter sido o terceiro classificado da 1.ª divisão. Estamos a 28 Junho, falta um mês (mais dia menos dia) para a prisão do presidente Luís Filipe Vieira. Seja como for, o céu é o limite.

Abrem-se os cordões à bolsa, mais uma vez. Toma lá 25 milhões de euros em reforços, toma lá o João Mário a custo zero. Jesus trabalha com todos eles, projecta a sua ideia e até começa bem com 11 vitórias e dois empates nos primeiros 13 jogos. Uauuuu. De uma assentada, o Benfica apura-se para a Liga dos Campeões, dá 3:0 ao Barcelona na fase de grupos e assume-se como indiscutível candidato ao título à conta das sete vitórias em sete jornadas na 1.ª divisão – Porto e Sporting distam a quatro pontos de distância. O céu é o limite, outra vez.

Nessa série de bons resultados, há autogolos de Jesus como as declarações sobre Vlachodimos a propósito do 0:0 vs PSV em Eidnhoven, um resultado crucial para entrar na Liga dos Campeões. ‘Vlachodimos, o herói? Não acho, o herói da eliminatória chama-se Benfica.’ Dias depois, antes de um jogo para a 1.ª divisão, o assunto volta à baila e Jesus insiste na mesma tecla. Vlachodimos? Nããããããã. O problema é a forma como o diz. E é um problema eterno de Jesus, o da comunicação. Meio treinador, meio entertainer, Jesus convive na boa com as críticas, é para o lado que dorme melhor. O problema só vira realmente problema à falta de resultados para sustentar a falta de qualidade na comunicação.

O Portimonense surpreende a Luz (1:0 de Lucas Possignolo) a 3 Outubro, dia célebre pela conquista inédita do título mundial pela selecção portuguesa de futsal. Ainda ninguém sabe, mas é o início do fim. Porque o Benfica gere mal o balneário e começa a disparatar em toda a linha. A notícia de Pepa como sucessor de Jesus é um insulto para o próprio, uma espécie de ‘vai-te embora ò melga’. Depois, começam a sair notícias de jogadores do plantel como Gilberto e Otamendi altamente incomodados com a maneira de comunicar de Jesus nos treinos e nos jogos. Tal nunca aconteceria num clube empenhado em blindar o balneário, o segredo mais sagrado de qualquer equipa.

O copo está a encher, a encher, a encher, quase quase a transbordar. As derrotas sucedem-se a um ritmo galopante: uma (Bayern), duas (Bayern), três (Sporting), quatro (FC Porto). Só o 2:0 vs Dínamo Kiev anima a malta, porque implica a passagem aos oitavos da Liga dos Campeões. Na conferência de imprensa, Jesus não perde a oportunidade. ‘No dia do sorteio, saíram Barcelona e Bayern e todos ficaram a tremer: Rui Costa [presidente], Rui Pedro Braz [director de comunicação] e Domingos Soares Oliveira [administrador]. E eu disse que íamos passar, juntamente com o Bayern’. A frase é escusada seja em que momento for, muito menos numa noite (rara) de satisfação plena.

Junte-se a tentativa do Flamengo em contratar Jesus na véspera do clássico vs Porto para a Taça de Portugal e está o caldo entornado. Com o sim de Rui Costa à reunião e o não de Jesus à proposta do Flamengo, o mundo Benfica desmorona-se. E os resultados condizem com esse estado autodestrutivo. Junte-se ainda o afastamento de Pizzi durante o treino de segunda-feira e thats all folks

Jesus sai pela porta pequena por falta de cabeça para gerir o balneário e Rui Costa sai fragilizado pela preguiça de dar um murro na mesa para gerir um clube como o Benfica.

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