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Há mar e mar, há ir e Qatar
Desporto 5 min. 20.11.2022
Mundial 2022

Há mar e mar, há ir e Qatar

Mundial 2022

Há mar e mar, há ir e Qatar

Foto: Kirill Kudryavstev/AFP
Desporto 5 min. 20.11.2022
Mundial 2022

Há mar e mar, há ir e Qatar

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
Começa este domingo o primeiro Mundial no Médio Oriente e a final (da polémica) está marcada para 18 de dezembro.

Das cinco candidaturas (Austrália, Coreia do Sul, EUA, Japão e Qatar), a FIFA vota na mais exótica e assim o Qatar é o primeiro país do Médio Oriente a receber um Mundial. Estamos em Dezembro de 2010 e ainda faltam 12 anos. Doze anos em que a polémica vai andar de braço dado com o Qatar.

Quer dizer, Qatar? Nas férias grandes (Junho e Julho)? Impossível, pelo calor e pela humidade. Nos meses em questão, o Qatar apresenta valores altíssimos, entre os 40 e os 45 graus centígrados, com 43 por cento de humidade. Quem consegue jogar assim? O xeque Mohammed bin Hamad bin Khalifa alThani (ufff), autoridade responsável pela candidatura de 2022, fala ao de leve de uma tecnologia dentro dos estádios para baixar as temperaturas em 20 graus. Passam-se, entretanto, quase dois anos e nunca mais se ouve falar dessa tecnologia. Aliás, em vez disso, Sepp Blatter (presidente da FIFA) assume o erro na escolha do Qatar. "Depois de muitas discussões, deliberações e críticas em relação a tudo, cheguei à conclusão de que jogar um Mundial no calor do Verão qatari não era algo responsável."

Bom, e agora? Os clubes não querem, as federações também não e, pelos vistos, a FIFA está arrependida. Um Mundial no Qatar em Junho/Julho seria prejudicial para o futebol? Fala quem sabe. Nelo Vingada, seleccionador português no Mundial sub-20, em 1995, no Qatar. "Esse Mundial foi antecipado para Abril precisamente por isso das temperaturas. Seria impensável jogar-se em Junho/Julho. Como foi uns meses mais cedo, os jogos eram como se fosse aqui Primavera." Esse Mundial é o tal em que Portugal joga bem, encanta e chega às meias-finais. Eliminado pelo Brasil com um golo de Caio no último minuto, salva-se o bronze num inesquecível 3:2 vs. Espanha (com 0:2 ao intervalo). A espinha dorsal é composta por Quim, Beto, Bruno Caires, Dani e Nuno Gomes.


Vamos ganhar o Mundial?
O plantel é de qualidade muito acima da média, basta jogar o que se sabe e sem medo da própria sombra.

 A lenga-lenga continua. Infelizmente. Mas então o Qatar, um país sem tradição no futebol? E intransigente na questão do álcool? Com um Verão escaldante? Passa-se um dia, dois, três, seis, 12, 24, 48... Okay, é melhor abreviar: 1.546. Ao 1.546º dia de acusações várias, a FIFA deixa escapar a notícia: o Mundial do Qatar joga-se no Inverno. De 22 Novembro a 18 Dezembro. Uau. Uau, em menos de um mês. Uau, isso é possível?

Dois aspectos condicionam o asfixiamento do calendário: o Qatar é um país piriri (tão-só 1.6 milhões de habitantes), sem grandes distâncias entre as cidades, e os jogadores só se apresentam nas selecções a duas semanas do início da prova, em vez das quatro de agora. Razão? Como estão a meio da época, recuperam mais depressa do esforço. Mas como é que a ideia passa do Verão para o Inverno? Um grupo de trabalho da FIFA estuda durante seis meses os inconvenientes práticos do Qatar e aponta uma série de problemas. 

Um deles tem a ver com as altas temperaturas no país entre os meses de Junho e Julho. Até em Maio aquilo é escaldante. Impróprio para jogadores. E adeptos. Assim não dá. Pura e simplesmente não dá. Aliás, o próprio passado recente das competições organizadas pelo Qatar diz tudo: o Mundial sub-20 em 1995 joga-se em Abril e os Jogos Asiáticos 2006 em Dezembro. Mais palavras para quê?

O tal grupo estuda as opções e as duas primeiras datas sugeridas não cabem no calendário. Quais e porquê? Janeiro e Fevereiro são os meses dos Jogos Olímpicos de Inverno. Abril é o início do Ramadão e isso significa todo um mês de feriados. E há consenso? As seis confederações continentais, incluindo a UEFA, dizem sim e o tema será abordado/aprovado no próximo Congresso da FIFA, nos dias 19 e 20 de Março. E há descontentes? Sim, claro. Sobretudo em Inglaterra. Ah pois é, então o Boxing Day? Jogado no dia 26 de Dezembro, desde os anos 50, é uma tradição intensamente vivida. Tanto lá, na ilha, como cá, no Continente. É a melhor ressaca de Natal. 


Robert Guérin, o responsável pela criação da FIFA, uma organização nascida em 1904, que juntava as várias federações nacionais de futebol, da qual foi o primeiro presidente.
Mundial de Futebol. A visão de um francês que dura há quase um século
Mundial de futebol nasceu a partir dos Jogos Olímpicos, impulsionado por um homem que queria unir as seleções em torno da paz e da confraternização.

Futebol com bacalhau, huuuummm, que delícia. Imaginemos que a Inglaterra ganha o Mundial no dia 18? (risos) Bom, a ressaca seria bem melhor – para eles, claro. É festa até às tantas, Boxing Day adentro. É tudo muito engraçado, e ainda bem que todos (ou quase) estão de acordo, mas e o resto da época, como é? Ideias há muitas, como os chapéus do Vasco Santana. A mais consensual é o recuo de todo o calendário por um mês. Isto é, os play-off da Liga dos Campeões começam em Julho, tal como os campeonatos por essa Europa fora, e ainda o fecho do mercado. No mês seguinte, arranque da fase de grupos da Liga dos Campeões com fim previsto em Novembro, impreterivelmente a 15 dias do início do Mundial para dar tempo aos jogadores de se juntarem às respetivas seleções. No final de Dezembro, as ligas recomeçam e só páram em Junho 2023. Ufff, que trabalheira.

Fim da história? Nem por isso. Karl-Heinz Rummenigge, presidente da Associação Europeia de clubes (ECA), só quer "isto" da FIFA. "Se todos os calendários europeus se acomodam para o Mundial, isso implica uma vontade de compromisso de cada parte, razão pela qual não têm de ser os clubes europeus a suportar o peso financeiro." (no Mundial 2014, cada clube representado recebe a diária de dois mil euros por jogador.)


O Mundial de A a Z
Com o Campeonato do Mundo de Futebol, no Qatar, à porta, fique a conhecer todas as novidades da competição e do primeiro país do Médio Oriente a acolhê-la.

Uhhhhh, wrong answer. Diz Jêróme Valcke, secretário-geral da FIFA. "Não haverá qualquer compensação financeira. Têm sete anos para se organizar e não estamos a fazer nada que prejudique o futebol." Nãããã, que ideia. Por isso é que o Qatar já não organiza a Taça das Confederações 2021 e a Taça das Nações Africanas passa para o Verão (e não Inverno) de 2023. Ups, afinal não, já é em Janeiro de 2024. Claro que não, o futebol não sai prejudicado.

(Autor escreve de acordo com a antiga ortografia.)

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